Indivíduos
Steven Levitt (Freakonomics) apenas cruzou dados, não quis criar uma moral, me dizem. Conversa. Isso não existe. Um mínimo, um pouquinho só, de cultura sociológica basta para evidenciar que um dos procedimentos do pensamento totalitário — de direita ou de esquerda, tanto faz — é a “naturalização” da ciência social, bastante típica do período que […]
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Steven Levitt (Freakonomics) apenas cruzou dados, não quis criar uma moral, me dizem. Conversa. Isso não existe. Um mínimo, um pouquinho só, de cultura sociológica basta para evidenciar que um dos procedimentos do pensamento totalitário — de direita ou de esquerda, tanto faz — é a “naturalização” da ciência social, bastante típica do período que vai de meados para o fim do século 19 e que ganha realidade política e histórica no século 20.
O que é que há? Vocês imaginam que os “cientistas” nazistas faziam experiências com os “não-humanos” ou “quase-humanos” judeus ou ciganos só porque eram uns tarados? Acreditem: havia “ciência” naquilo. Pouco antes, o nosso Euclides da Cunha estava convicto, junto com os cientistas, que a miscigenação respondia, em boa parte, pela idiotia que constatava nos seguidores de Antonio Conselheiro.
Existe ciência sem uma moral — ou, numa perspectiva coletiva, uma ética? É claro que sim. E nada é mais perigoso.
“Ah, mas fazer o quê? Somos homens de nosso tempo”. É fato. É por isso que me parece um tanto obscurantista descartar uma moral transcendente, que nos protege de nós mesmos. Padre Vieira escreveu no século 17, mas chamava “humanos” os “pretos” e não “coisas”, como era a consciência firmada na época — porque algo maior do que ele, que nada tinha de científico, lhe falava de uma fraternidade universal. Santo Tomás de Aquino se ocupou disso bem antes, no século 13.
E nem por isso eles deixaram de ser homens de seu tempo, com todas as ignorâncias típicas de sua época científica, social e moral.
O que acho fascinante hoje em dia é a suposição de que teríamos encontrado a razão universal e última das coisas. Assim, o sr. Levitt — eu li o livro — constata a diminuição do número de crimes, recua no tempo, conclui que ele coincide com a liberalização do aborto duas décadas antes e passa a ver nisso um “fator” influente — não que ele defenda a prática, claro, claro… Talvez pudesse, sei lá, estudar o consumo de batatas e refrigerante no período a ver se chega a algum resultado interessante, sempre evitando uma sentença moral para não parecer autoritário — somos todos cientistas…
Ah, não sofisme, Reinaldo. O consumo de batatas não pode ter relação com o crime, já a existência de mais ou menos filhos problemáticos ou enjeitados, sim. Pois é: chegamos ao ponto. Não concordo com isso. Definitivamente. Acho que isso elimina um dos elementos que nos distingue dos outros bichos: somos capazes de fazer escolhas. Os pobres também escolhem.
E acreditem: tanto a riqueza como a pobreza criam dificuldades para o sujeito. Um indivíduo — POBRE OU RICO — só vem ao mundo se fizer algo de útil daquilo que fizeram dele. Ou estará condenado a ser um pobre esmagado pela pobreza ou um rico esmagado pela riqueza. Ou um medíocre esmagado pela mediocridade.
Acho interessante que Freakonomics tenha sido adotado como uma espécie de libelo liberal. É nada. Isso só dá conta de crise de valores — e, quem sabe?, teórica — que caracteriza esses dias. Qualquer teoria (ou aritmética) que casse do indivíduo o direito de escolha conspira contra o liberalismo.
Ademais, idéias não existem no vácuo e têm desdobramentos. É evidente que, se chego à constatação de que a liberalização do aborto, 20 anos depois, coincide com a diminuição do número de assassinatos, por exemplo, por que não supor que se tratar de uma escolha politicamente correta propor que ele seja usado como instrumento da paz social?
Uma moral é mais do que saber fazer conta. É preciso também saber julgar. Acho que eu sei bem o que me agrada no cristianismo e no judaísmo — o islamismo está coberto pela sombra da guerra, mas talvez nele também: a convicção de que o Mal reside dentro de cada um de nós e de que será sempre preciso controlar essa besta que pode, sim, envergar tanto as vestes da crença como as da ciência.
O que é que há? Vocês imaginam que os “cientistas” nazistas faziam experiências com os “não-humanos” ou “quase-humanos” judeus ou ciganos só porque eram uns tarados? Acreditem: havia “ciência” naquilo. Pouco antes, o nosso Euclides da Cunha estava convicto, junto com os cientistas, que a miscigenação respondia, em boa parte, pela idiotia que constatava nos seguidores de Antonio Conselheiro.
Existe ciência sem uma moral — ou, numa perspectiva coletiva, uma ética? É claro que sim. E nada é mais perigoso.
“Ah, mas fazer o quê? Somos homens de nosso tempo”. É fato. É por isso que me parece um tanto obscurantista descartar uma moral transcendente, que nos protege de nós mesmos. Padre Vieira escreveu no século 17, mas chamava “humanos” os “pretos” e não “coisas”, como era a consciência firmada na época — porque algo maior do que ele, que nada tinha de científico, lhe falava de uma fraternidade universal. Santo Tomás de Aquino se ocupou disso bem antes, no século 13.
E nem por isso eles deixaram de ser homens de seu tempo, com todas as ignorâncias típicas de sua época científica, social e moral.
O que acho fascinante hoje em dia é a suposição de que teríamos encontrado a razão universal e última das coisas. Assim, o sr. Levitt — eu li o livro — constata a diminuição do número de crimes, recua no tempo, conclui que ele coincide com a liberalização do aborto duas décadas antes e passa a ver nisso um “fator” influente — não que ele defenda a prática, claro, claro… Talvez pudesse, sei lá, estudar o consumo de batatas e refrigerante no período a ver se chega a algum resultado interessante, sempre evitando uma sentença moral para não parecer autoritário — somos todos cientistas…
Ah, não sofisme, Reinaldo. O consumo de batatas não pode ter relação com o crime, já a existência de mais ou menos filhos problemáticos ou enjeitados, sim. Pois é: chegamos ao ponto. Não concordo com isso. Definitivamente. Acho que isso elimina um dos elementos que nos distingue dos outros bichos: somos capazes de fazer escolhas. Os pobres também escolhem.
E acreditem: tanto a riqueza como a pobreza criam dificuldades para o sujeito. Um indivíduo — POBRE OU RICO — só vem ao mundo se fizer algo de útil daquilo que fizeram dele. Ou estará condenado a ser um pobre esmagado pela pobreza ou um rico esmagado pela riqueza. Ou um medíocre esmagado pela mediocridade.
Acho interessante que Freakonomics tenha sido adotado como uma espécie de libelo liberal. É nada. Isso só dá conta de crise de valores — e, quem sabe?, teórica — que caracteriza esses dias. Qualquer teoria (ou aritmética) que casse do indivíduo o direito de escolha conspira contra o liberalismo.
Ademais, idéias não existem no vácuo e têm desdobramentos. É evidente que, se chego à constatação de que a liberalização do aborto, 20 anos depois, coincide com a diminuição do número de assassinatos, por exemplo, por que não supor que se tratar de uma escolha politicamente correta propor que ele seja usado como instrumento da paz social?
Uma moral é mais do que saber fazer conta. É preciso também saber julgar. Acho que eu sei bem o que me agrada no cristianismo e no judaísmo — o islamismo está coberto pela sombra da guerra, mas talvez nele também: a convicção de que o Mal reside dentro de cada um de nós e de que será sempre preciso controlar essa besta que pode, sim, envergar tanto as vestes da crença como as da ciência.
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