Hora de rever os debates
As TVs precisam repensar urgentemente o formato dos debates. A cada vez, eles funcionam menos. Vale, para este assunto, o que vale para qualquer esporte. As regras são boas se proporcionam um bom espetáculo. Se a coisa começa a ficar aborrecida ou se os desonestos e menos técnicos acabam levando vantagem, então é preciso mudá-las. […]
E quem foi o mais espertinho? Orestes Quércia. Dado o avançado da hora, não creio que a audiência que resistiu ao programa seja do tipo cujo voto é móvel, cuja opinião é lábil. Acho que não. De todo modo, se houver alguma mudança, talvez Orestes Quércia consiga arrancar alguns eleitores de Mercadante. Por quê? Suas asneiras são mais simplórias e mais simpáticas; vêm despidas de qualquer apelo sociologizante. Embora operasse em dobradinha com o candidato do PT, intuo que Quércia e Mercadante disputaram a mesma faixa, com vantagem para o peemedebista.
Serra estava claramente orientado a evitar o bate-boca com quem quer que fosse. Seu passado de esquerda, a despeito das estocadas do outro, fez com que acabasse mantendo uma relação mais simpática com Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) — que o chamou de “Zé” mais de uma vez. Ambos têm críticas à política macroeconômica de Lula, embora o agora esquerdista Plínio (antes membro de um partido de direita, a Democracia Cristã) tenha chamado o tucano de neoliberal. De todo modo, houve entre ambos divergência, não má-fé, o que é praticamente impossível na relação com Quércia ou Mercadante.
Questões
Serra evitou fazer pergunta a qualquer um dos dois outros candidatos mais bem colocados, Mercadante e Quércia. É uma estratégia: já que vence no primeiro turno, não precisa polarizar com os principais adversários. É justamente aí, quero crer, que o jornalismo faz falta: uma bancada de entrevistadores bem informada pode expor ao público aquilo que não é do interesse dos candidatos propriamente.
Avaliação
Não sei qual vai ser a avaliação do público. Em casos assim, a tendência é o mais bem colocado nas pesquisas “vencer” segundo o público. Vale dizer: o espectadopr avalia de acordo com a escolha que já fez. No primeiro debate da Globo, em 2002, Serra deu uma lavada em Lula. Avaliação dos espectadores: o petista ganhou. Falava a intenção de voto. Se Lula for ao encontro de quinta, na própria Globo, a maioria vai dizer que seu desempenho terá sido superior, mesmo que esmagado.
Essa sondagem não significa nada. É aí que o jornalismo deveria entrar. Plínio, um velhinho simpático, mas dono de idéias perigosas se fosse o caso de levá-lo a sério, lembrou os imóveis privados vazios em São Paulo. Eles fazem parte de seu coquetel de reforma urbana. Se bem entendi, está propondo que sejam desapropriados. Isso faz sentido ou é exeqüível? É claro que não. Mas está lá, afetando a maior seriedade do mundo. Indagado por alguém sobre educação, Apolinário, do PDT, desandou a falar sobre agricultura familiar e atacou a Volkswagen, que recebeu financiamento do BNDES, “enquanto o governo deixa a Varig quebrar”. Isso faz sentido? Não. Ao falar sobre saúde, Plínio afirmou que existe uma “idéia nova por aí”, “esse negócio de mercado”. Imaginem só: mercado como idéia nova!
O pilar de um debate como esse acaba sendo a não-intervenção do jornalismo. O que deveria ser um embate de idéias pautado por rigor técnico, testando, de fato, a capacidade do candidato, resulta num mero desdobramento do horário eleitoral gratuito. E é sempre mais penoso para quem tem o que dizer.





