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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Gaspari, o aborto e Madame Natasha

Vocês sabem que nada me encanta mais do que o debate sobre a isenção jornalística. Eu o aprecio porque há muito tempo digo: “Não sou isento; estou profundamente comprometido com minhas idéias, crenças, valores, ideologia”. Procuro não mentir. Procuro não dar truque no leitor, fazendo de conta que estou sendo objetivo quando, de forma velada, […]

Por Reinaldo Azevedo 1 abr 2007, 18h43 | Atualizado em 6 jun 2024, 07h34
Vocês sabem que nada me encanta mais do que o debate sobre a isenção jornalística. Eu o aprecio porque há muito tempo digo: “Não sou isento; estou profundamente comprometido com minhas idéias, crenças, valores, ideologia”. Procuro não mentir. Procuro não dar truque no leitor, fazendo de conta que estou sendo objetivo quando, de forma velada, estou expressando uma opinião. Um texto de um veterano, na Folha de hoje, chamou a minha atenção. Escreve Elio Gaspari neste domingo:

“O novo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, chegou a Brasília com a energia da escola de samba Beija-Flor. Defendeu a abertura do debate sobre o direito da mulher interromper a própria gravidez. O governador do Rio, Sérgio Cabral, já havia tomado a dianteira nesse assunto. É possível que eles quebrem o silêncio maroto que oito anos de tucanato e outros quatro de poder petista impuseram à palavra maldita: aborto.Temporão pede que o tema seja discutido, informa que é favorável à mudança da lei e propõe que a decisão seja remetida a um plebiscito. Há três tipos de países: aqueles que reconhecem o direito de cada mulher decidir sobre a sua procriação, os que não reconhecem, e os que fingem proibir o aborto, interditam o debate e dissimulam as conseqüências criminais e médicas dessa mistificação.No andar de baixo, o recurso a pílulas abortivas e, raramente, a clínicas clandestinas é um problema de saúde pública. Quando se pode comprar por R$ 100 uma cartela de Cytotec no camelô, o problema não está na criminalização do aborto, mas na delinqüência do Estado que não oferece assistência prévia, posterior e explícita à mulher que decidiu interromper uma gravidez.” Assinante lê íntegra aqui

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Gaspari está saudando o debate, mas é óbvio que ele tem uma opinião. Nem precisava recorrer a essa moral dos andares que ele instituiu no jornalismo. A graça está na linguagem que ele escolheu: aborto virou sinônimo de “direito de cada mulher decidir sobre sua procriação”. Ufa! Vão fazer plebiscito? Acho bom. A maioria da população vai dizer que é contra a ampliação do direito ao aborto legal. Mas é preciso que se fique atento. Qual será a questão sobre a qual a população será ouvida?

Que eu saiba, as mulheres brasileiras já decidem sobre a sua procriação. Ou não? Salvo sexo forçado, elas sabem muito bem como se faz neném. Ou será que Lula terá de editar uma cartilha também para isso? Se o Brasil for chamado a votar sobre, como é mesmo?, “o direito de a mulher decidir sobre sua procriação”, então suponho que só metade dos eleitores participará da decisão. Ou os homens também vão opinar sobre um direito que não lhes diz respeito? Espero que Madame Nastasha seja convocada para redigir a questão.

Quanto àquilo que, segundo Gaspari, se faz no “andar de baixo”, noto uma coisa curiosa. Quando os casais vão fazer sexo sem proteção, o estado é mandado às favas. Assim que a mulher engravida (“Oh, é daquele jeito que se faz neném, juntando aquilo àquilo?”), ele se torna “delinqüente”. Cytotec custa R$ 100 no camelô? Pois camisinha está sendo distribuída sem custo, e uma cartela de pílula anticoncepcional custa R$ 40. E também pode ser obtida de graça. Acho os exemplos penosos, mas estou só me ajustando aos termos propostos. Parece que o andar de baixo precisa mesmo de tutela. Essa gente não responde nem pelo seu tesão? Vamos continuar deixando que votem?

Eis aí: não me espanta que Getúlio Vargas, numa enquete promovida pela Folha junto a alguns bacanas, seja considerado o maior brasileiro de todos os tempos. Escolheu-se um ditador ora fascistóide, ora pai dos pobres. No Brasil é assim: o estado é culpado até por aquilo que as pessoas fazem na horizontal — nos bailes funk, me contam, vai na vertical mesmo. Tudo culpa do estado “delinqüente”.

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