Eu e as drogas
Dizem por aí o diabo de mim por causa das críticas que fiz ao tal projeto Baladaboa. Eu teria me comportado “como policial”, demonizado pesquisadoras, falado do que não entendo. Vocês sabem: como sou violento, sou chamado, nos blogs que acusam as minhas injustiças, de “ser rastejante”, “feio pra cacete”, “bandido”. A “piada” recorrente: “Arrancaram […]
Mas se trata, evidentemente, de uma penca de mistificações. Agradeço a suposição de que eu seja tão poderoso, mas, infelizmente, é mentira: a Fapesp deve ter tomado a decisão que tomou por razões técnicas, científicas. Há especialistas — já falo deles — dizendo que a abordagem do Baladaboa é, para ser generoso, polêmica. Também não acusei as pesquisadoras de coisa nenhuma, a não ser de pensar de forma torta. A análise que fiz do material, reitero, foi de linguagem: a verbal e a não-verbal. Demonstrei, por A mais B, que certos textos induziam o leitor a achar que as drogas podem ser irrelevantes e evidenciei que a estética adotada era simpática à cultura da droga. Se acharem que isso constitui alguma grave ofensa a alguém, a Justiça está aí, à disposição de todos. Recorram a ela.
Antes de entrar no assunto, li um tanto a respeito. A política de redução de danos é apenas um aspecto do combate às drogas e exige, até onde pude acompanhar, muito mais controle do que fazia o Baladaboa. Felizmente, não estou sozinho. Na quarta-feira, vejam lá, publiquei aqui uma carta do professor Ronaldo Laranjeira, um dos maiores especialistas brasileiros em dependência química. Escreve ele: “Pulamos várias etapas importantes na criação de uma política sobre uso de substâncias no Brasil. A maioria das políticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde não é seguida e tem uma grande resistência da parte do governo federal, pois são trabalhosas e necessitam de dinheiro e competência técnica. Por exemplo, para diminuir os problemas do álcool, necessitamos aumentar o preço, proibir a propaganda, fiscalizar a venda para menores de idade e controlar o horário de funcionamento dos bares (como ocorreu em Diadema, com mais de 80% de diminuição dos homicídios).”
Neste sábado, na seção de cartas do Estadão, há uma assinada pelo médico David Uip. Diz o seguinte: “É imperativo elucidar afirmação publicada na matéria Fapesp suspende apoio a projeto de redução de danos do ecstasy (19/6), já que minha opinião não foi retratada adequadamente. Posso entender a implementação de programas de saúde pública, como o de redução de danos pelo consumo de drogas, se esta ocorrer de forma conseqüente. Isso quer dizer que, antes da aplicação desses programas em larga escala — seja na forma de cartilhas, folhetos, palestras, etc. —, é importante que eles sejam totalmente fundamentados em pesquisas científicas realizadas no País. Isso pressupõe que esses modelos sejam testados primeiramente com metodologia exemplar, em públicos específicos, e que se desdobrem em resultados qualitativos e quantitativos coerentes e amplamente discutidos na comunidade científica e na sociedade civil. Somente dessa forma é possível evitar o risco de que programas de redução como o proposto se revertem potencialmente em incentivo ao uso de drogas, o que, como se sabe, é inadmissível, porque ilegal e nefasto para a saúde.”
Vale dizer: mais um especialista alerta para o fato de que um programa de redução de danos supõe um controle muito rígido e a aplicação de procedimentos em grupos que estejam sob constante monitoramento. E ele é taxativo: “Somente dessa forma é possível evitar o risco de que programas de redução como o proposto se revertem potencialmente em incentivo ao uso de drogas, o que, como se sabe, é inadmissível, porque ilegal e nefasto para a saúde.”
Resta evidente que a política de redução de danos está sendo aplicada de forma torta no Brasil. O objetivo de qualquer política pública que lide com o vício deve ser livrar o viciado de uma determinação que está além da sua vontade. Reduzir os danos decorrentes do consumo de qualquer substância há de ser um aspecto do programa, uma etapa. O que não exclui a regra geral, a orientar qualquer ação: as drogas fazem mal à saúde e, muitas vezes, matam. Mais: drogas não são categorias absolutas, existem numa determinada realidade política, econômica, social. É falaciosa a suposição de que se pode cheirar uma carreira de cocaína com o mesmo descompromisso com que se toma uma taça de vinho. Quando menos porque um se compra na adega, e a outra, de Fernandinho Beira-Mar.
Nesse ponto, pergunta-se: e por que, então, não tornar legais todas as drogas? Porque o Brasil não conseguiria fazer isso sozinho. É mais uma dificuldade prática do que de moral. Ademais, que não se tenham grandes ilusões: a liberação das drogas levaria a uma explosão no consumo. Por mais que a nicotina seja maléfica à saúde — e é —, não é uma droga que altera a consciência. Por mais que o álcool seja um grave problema de saúde pública, e é (sou favorável à imposição de limites para a propaganda de cerveja, por exemplo), não é uma droga que aspire à condição de uma “cultura”. Imaginem o que aconteceria com a saúde pública no Brasil com o crescimento exponecial do consumo de cocaína — liberada, é claro que o preço cairia.
Finalmente, uma outra observação. Chega a ser engraçado que o meu ponto de vista sobre essa questão tenha se confundido com aspectos do meu posicionamento ideológico. Eu teria atacado o “Baladaboa” porque, vejam só, sou “de direita”. Olhem que não tenho lá simpatias pela esquerda, hehe. Mas acho que nunca a associei, direta ou indiretamente, ao consumo de drogas. É, talvez faça sentido… Como um esquerdista está sempre oferecendo amanhãs sorridentes, que serão garantidos por um grupo de iluminados — geralmente, o “partido” —, faz sentido supor que é preciso, primeiro, diluir os valores conservadores, “reacionários”, para, então, fazer a propaganda de uma nova ética, de uma nova moral.
Nunca havia suposto que sou contrário às drogas porque “sou de direita”, mas começo a considerar a questão. Pensando bem, se você é um “porco reacionário”; se segue as leis democraticamente estabelecidas; se acredita numa hierarquia de valores e se, horror dos horrores!, for até mesmo um “papista”, vai consumir drogas ilícitas por quê? Então tá: a esquerda presta um favor aos adversários, dando-lhe um lema: “Contra as drogas, vote na direita!” Este último parágrafo faz parte do meu estoque de ironias. Mas há gente que não vai entender nem as vírgulas. É pena. Ser mais claro do que isso constituiria uma forma de obscurantismo.







