Datafolha SP 2 – Engano, auto-engano e desenganos
Digam-me: o que faz alguém optar pelo erro, começar a colher os frutos negativos dessa opção e, em vez de corrigir o rumo ou recuar, fazer justamente o contrário: avançar no engano? Não sei. Fé cega? Teimosia? Quem deus perdere vult, prius dementat. Lembram-se do adágio latino que citei aqui quando o presidente municipal do […]
Alckmin perdeu o juízo quando, cedendo à conversa mole de marqueteiro e de outros tucanos mais ressentidos do que ele próprio, decidiu que o inimigo era Gilberto Kassab, atacando, assim, a gestão do seu próprio partido na Prefeitura e uma liderança que os eleitores não-petistas e não-sensíveis ao discurso de Marta entendem também como alternativa ao petismo. Não só isso: Kassab tinha pouca densidade eleitoral no começo da campanha, mas liderava (e lidera)uma administração aprovada pela larga maioria dos paulistanos. Ademais, é inegável, trata-se de uma gestão virtuosa. Setores da imprensa paulistana certamente não estão menos surpresos do que alas do tucanato e do petismo.
Só um milagre tira Kassab do segundo turno. E o nervosismo, agora, tudo indica, passa para as hostes do PT — que resolveu travar em São Paulo a sua grande guerra. Há tempos, como apontei aqui, o partido identificava uma migração de votos pró-Kassab, tanto que Marta abandonou a postura olímpica — “eles que briguem” — e decidiu, também ela, atacar o prefeito. O movimento foi contraproducente. Os humores do eleitorado têm lá suas sensibilidades. A agressividade da petista e do tucano contra o democrata — sempre sorridente e propositivo na TV — acabou resultando negativa, sim, mas para quem decidiu partir para o ataque.
Em setembro, Marta tinha uma vantagem sobre Kassab, no segundo turno, de 20 pontos. Agora perde por cinco. Mudança tão radical recomenda, sem dúvida, cuidado. É evidente que ninguém pode cantar vitória num cenário como esse. Mas o PT sabe muito bem que seu adversário ganha aquela estranha força do fenômeno eleitoral: saiu de magros oito ou nove pontos para, hoje ao menos, a vitória no segundo turno. E a questão está longe de se esgotar nessa esfera de sensações: Marta é rejeitada por 35% dos eleitores; Kassab, por apenas 21%. Num segundo turno, a rejeição conta mais do que a simpatia para os eleitores cujos candidatos foram derrotados no primeiro turno; é quando essa fatia do eleitorado vota mais para que alguém perca do que para que alguém ganhe.
Não que a campanha petista não esteja atenta aos detalhes. Para tentar diminuir a rejeição da candidata, criou-se a figura de uma Marta mais simpática, capaz de “viver também no meio do povo”, uma figura, assim, mais humana e humilde, que diz estar mais experiente e madura. São freqüentes as cenas em que ela bate um papo de rua com a moçada… Funciona? Combina com ela? No terreno das promessas, o PT tem, também desta vez, o seu “CEU-Saúde” — lembram-se daquela magnífica maquete que Duda Mendonça criou para Marta em 2004? Desta feita, ele atende pelo nome de Internet Grátis para todo mundo. Quanto isso acrescentou de densidade eleitoral? E há a “companheira” de sempre, rápida no gatilho, que bate pesado. A tudo isso se junte a quinta cavalaria: o presidente Lula. Resultado: ela começou a corrida com 38 pontos e já está com 35… Tinha 20 pontos de vantagem sobre Kassab; agora perde por cinco.
Qual será a tática no segundo turno? Aumentar a dose de humildade? Aumentar a taxa de agressividade? Acenar com amanhãs ainda mais sorridentes? Convocar Lula para, de fato, um tudo ou nada, apostando na transferência de votos? Vamos ver. Uma notinha na Folha desta quarta deixa entrever a suspeita de que petistas e seus aliados também podem perder o juízo. Leiam:
“Em mais um sinal de que acredita na ida de Gilberto Kassab (DEM) ao segundo turno, a petista Marta Suplicy disse ontem que São Paulo não pode eleger os democratas: ‘O Brasil todo varre esse partido para a extinção, e São Paulo vai elegê-los agora?’, disse, em discurso em evento no extremo leste. Mais tarde, em encontro com sindicalistas, ela ouviu discursos inflamados. ‘Dane-se se eles vão jogar bruto. Nós também sabemos jogar bruto e jogar pesado’, disse Enilson Simões de Moura, o Alemão, da UGT. O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), afirmou que Marta está angustiada com a perspectiva de derrota para Kassab.”
Como se vê, Marta não tem adversários políticos, mas inimigos que precisam ser “varridos”. O tal sindicalista identificou um certo “jogo bruto” do DEM (qual?) e prometeu reagir. E sob pressão que se testa a compostura.
ConcluoVolto a Geraldo Alckmin. E agora? Ele anda conversando com esse e aquele, mas, pessoalmente, não acredito que vá tentar mudar de partido. O mais provável é que seus radicais, com a convicção de sempre, dêem início à sua pré-campanha ao governo de São Paulo, o que — vejam como é a política — tende a rachar o grupo que o apoiou na disputa pela Prefeitura, onde se contam ambições ao mesmo cargo. E, tão logo comecem as sondagens para a sucessão de Serra, adivinhem quem será o tucano mais bem-colocado nas listas em que não estiver o próprio governador… Os tucanos terão de lidar, de novo, com o “fator Geraldo”.







