CLAUDIONOR, O OXIGENADOR!
A Folha publica hoje uma reportagem assinada por Fábio Takahashi e Laura Capriglione que começa errada desde o título: “Centralização de poder alimenta crise na USP”. O texto é um primor de adesão ao grevismo doidivanas disfarçado de rigor técnico. Vamos ver. Pelo menos em um ponto, professores titulares (o mais alto grau da carreira […]
A Folha publica hoje uma reportagem assinada por Fábio Takahashi e Laura Capriglione que começa errada desde o título: “Centralização de poder alimenta crise na USP”. O texto é um primor de adesão ao grevismo doidivanas disfarçado de rigor técnico. Vamos ver.
Pelo menos em um ponto, professores titulares (o mais alto grau da carreira docente) e o sindicato “vermelho” dos funcionários estão de acordo: o poder na USP precisa de oxigênio.
Dois erros estúpidos. O primeiro foi colocar “vermelhos” entre aspas para o sindicato dos funcionários: ou Laura considera que a Liga Estratégica Revolucionária e a Liga Bolchevique Internacionalista, que dão as cartas no sindicato, não são vermelhas o bastante para a sua sede de sangue? Falo metaforicamente, é claro. Acho que Laura só precisa de um Lexotan.
O segundo é dizer que Claudionor Brandão, vejam que coisa!, quer “oxigênio” no poder da USP. Pouco oxigenada parece ser a avaliação da jornalista. Claudionor já disse o que ele quer em vídeos aqui postados. O fato de A e B considerarem que C não é legal não indica que A e B estejam de acordo. Acho que Laura entende um conceito, mas exemplifico. O aiatolá Khamenei e eu não gostamos de Musavi. Eu porque desprezo teocratas — e ele é um, em trajes civis. E Kamenei porque não acredita em teocratas em trajes civis. Entendeu, minha senhora? O fato de professores titulares e o Sintup terem críticas aos mecanismos de poder da USP não indica identidades. Tampouco faz do Sintusp um apologista do oxigênio.
Se a crítica à rigidez dos órgãos de poder da universidade sempre fez parte das reivindicações das entidades sindicais, a diferença do momento atual é que, pela primeira vez desde 1988, gente de dentro da própria direção da USP admite que, do jeito que as coisas estão, a universidade não consegue refletir a diversidade da instituição, promover o diálogo e o entendimento.
Cascata! O Sintusop se mobilizou pela readmissão de um sujeito obviamente incompatível com a função que exercia. Os estudantes grevistas são contrários ao ensino à distância (reacionários!!!). E alguns professores estão mobilizados por salários. As reuniões da Adusp não chegam, muitas vezes, a reunir 20 pessoas — não exagero: é isso mesmo. Numa delas, havia apenas 12 — os docentes são mais de 5.500. Os estudantes em greve são uma minoria extrema. E não são ainda menos porque os grevistas impõem o regime do terror. E, mesmo entre os funcionários, a adesão à greve é pequena.
Não estou entre aqueles que consideram a reitora da USP um exemplo de eficiência e iluminação — tratou-se de uma escolha errada, escrevi aqui em 2007. Mas o “Fora Suely” é coisa de delinqüentes morais e intelectuais. Quem está em crise são os sindicatos uspianos — de professores, de servidores e de alunos. Laura capriglione tenta correr em seu socorro, mas é inútil. A esmagadora maioria da USP não quer saber deles.
Agora, vejam só, pretendem mudar a pauta. A palavra de ordem é “democratização da USP”. É nada! Oportunistas aproveitam a iminente sucessão da USP para disputar poder. Querem ver se emplacam a tal eleição direta para reitor, uma tese imbecil por definição. Universidade é meritocrática. E acabou.
Até o Conselho Universitário, apontado como uma espécie de “órgão senatorial”, quartel-general da velha guarda uspiana, já admitiu que é preciso mudar a forma de eleição para reitor. Para isso, designou uma comissão encarregada de propor modificações no estatuto da universidade. Essa mesma comissão já propôs e conseguiu aprovar mudanças na carreira docente e na organização das prefeituras dos campi.
Alhos e bugalhos misturados por uma mente tumultuada. “Propor mudanças” não quer dizer que a pauta do Sintusp está sendo acolhida. As mudanças havidas na Prefeitura nada têm a ver com a estrutura de poder na universidade. São coisa de grandezas absolutamente distintas. Capriglione tenta fazer Claudionor Brandão se parecer com um reformista que quer melhorar a universidade.
O entendimento é que o sistema atual de eleição favorece em demasia a representação dos professores titulares em detrimento das categorias inferiores de docentes, e das representações de funcionários e estudantes. No segundo turno da eleição de reitor, por exemplo, que decide a lista tríplice a ser encaminhada para decisão final do governador, votam cerca de 300 pessoas. Destas, a categoria com mais votos é a dos titulares, que tem um quinto de todos os docentes da USP. No total, a comunidade uspiana conta com cem mil estudantes, funcionários e professores.
É assim? Então não deveria mudar mesmo — ainda que, creio, a universidade vá se abrir um pouco mais à demagogia. Como se nota, a boçalidade ganha adeptos na imprensa, não é? Numa estrutura meritocrática, parece razoável que os titulares acabem tendo mesmo maior peso.
Uma hipótese levantada é ampliar o número de pessoas com poder de voto no colégio eleitoral. Também se estuda a alteração na distribuição dos votantes entre as unidades.
Hoje, as unidades têm praticamente o mesmo peso na votação, apesar de seus tamanhos serem muito diferentes. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Escola Politécnica, por exemplo, possuem cada uma, cerca de 460 docentes, enquanto há unidades como o Instituto de Química de São Carlos, com 70.
E o que isso tem a ver com o Sintusp, para voltar ao início dessa conversa? No dia em que essa estrutura for mais “democrática”, o Sintusp deixará de lado suas ações delinqüentes? Respondo: não!
A insatisfação com a atual estrutura de poder da USP já se estendeu até mesmo a apoiadores de primeira hora da reitora Suely Vilela.
É exemplo disso o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Sylvio Sawaya. Em 2007, durante a greve com invasão da reitoria, ele pessoalmente organizou e animou um protesto pelo fim do movimento e pela volta à normalidade.
Agora, Sawaya trabalha com um grupo de professores para desenvolver uma plataforma que, entre outros itens, prevê um Conselho Universitário com “representação mais equânime das categorias docentes e representações proporcionais ao número de alunos”.
A universidade pode e deve rever as suas estruturas de poder. Isso é parte da reforma virtuosa de qualquer sistema. Sugerir que Claudionor Brandão e Sylvio Sawaya possam estar imbuídos de um mesmo propósito desmerece o professor e dá ao “marxista-revolucionário” uma grandeza que ele não tem. O que se vende como reportagem é pura matéria interpretativa, de opinião. O movimento que há na USP para melhorar o processo que resulta da lista tríplice de nomes para dirigir a universidade nada tem a ver com os militantes da Liga Estratégica Revolucionária e da Liga Bolchevique Internacionalista. Que são vermelhos, sim. Sem aspas.
“A universidade está em uma grande crise. Há muita insatisfação, que esse movimento [grevista] ecoa. Não é revolta por reajuste salarial, fim do ensino a distância, mudança na carreira [reivindicações dos grevistas]. É por mais debate na universidade. E uma mudança importante seria alteração na forma de escolha para reitor. Já na última eleição foi um ponto destacado por todos os candidatos, mas não andou”, disse o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade Hélio Nogueira da Cruz, ex-vice-reitor da USP.
Busca-se uma opinião idiota de um professor a FEA — que está entre aquelas que não costumam aderir a essas pantomimas vermelhas (sem aspas) — para tentar fazer de conta que a insatisfação atinge todas as faculdades, não se limita à Fefeléchi.
Quem é ele para dizer que a pauta “do movimento” não é a pauta do movimento? Crise? Qual crise? A própria Capriglione escreve em outro texto:
“Junte-se uma greve por salários com piquetes, assembléias e muito, muito bate-boca. O diagnóstico quase sempre sai no piloto automático: ‘A USP está falida’. Errado. A USP está, isso sim, na fase das vacas gordas. Entre 2005 e 2008 o orçamento da universidade deu um salto de 37,7%. Foi de R$ 1,858 bilhão para R$ 2,560 bilhões. A previsão para o ano de 2009 é que entrem na universidade R$ 2,816 bilhões -um quarto de bilhão de reais a mais do que no ano passado. Só para comparar: trata-se de cifra comparável à receita orçamentária de Estados inteiros, como o Piauí (R$ 2,6 bi) ou Alagoas (R$ 2,8 bi). Ou de quase duas vezes a receita de Tocantins (R$ 1,4 bi), ou ainda de 4,4 vezes o Acre (R$ 640 milhões).”
É mesmo? Eis aí. Adivinhem, no entanto, qual reportagem foi tratada como a principal no caderno Cotidiano da Folha e oi parar na capa do jornal… A que informa a dinheirama dada à Universidade ou essa que destrincho acima, com a tese energúmena de que o Sintusp e os titulares querem democratizar a USP? As escolhas ideológicas, não os fatos, fizeram com que se desse destaque à bobagem.
A imprensa paulista é o principal apoio dos baderneiros da USP. Alinha-se com os atos violentos de mil pessoas contra os interesses de outros 99 mil, que querem estudar e trabalhar.
Sim, alguns professores e alguns funcionários querem a mesma coisa: Claudionor Brandão e Marilena Chaui, por exemplo, não se distinguem. Nem na cinturinha. A diferença entre ambos é que ele, um dia, já soube consertar aparelhos de ar-condicionado.







