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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

CHILENOS NÃO ACEITAM MAIS SER SEQÜESTRADOS PELO DIA DA MARMOTA

No mundo inteiro, mas muito especialmente na América Latina, as esquerdas tentam manter a população na jaula do Dia da Marmota. Trata-se de uma espécie de seqüestro moral: “Cuidado! Fulano ou Beltrano foram ligados à ditadura militar. Jamais vote nele!” Ou ainda: “Fulano e Beltrano são descendentes pólíticos  da ditadura militar”. O Chile, ontem, deu […]

Por Reinaldo Azevedo 18 jan 2010, 16h32 | Atualizado em 31 jul 2020, 16h05
CHILENOS NÃO ACEITAM MAIS SER SEQÜESTRADOS PELO DIA DA MARMOTA Priorizar nos meus resultados Google

No mundo inteiro, mas muito especialmente na América Latina, as esquerdas tentam manter a população na jaula do Dia da Marmota. Trata-se de uma espécie de seqüestro moral: “Cuidado! Fulano ou Beltrano foram ligados à ditadura militar. Jamais vote nele!” Ou ainda: “Fulano e Beltrano são descendentes pólíticos  da ditadura militar”. O Chile, ontem, deu um “basta!” nessa estratégia vigarista. O eleitor se liberta do passado; ele deixa de ser uma vítima tradição dos mortos oprimindo o cérebro dos vivos, para citar o barbudo com furúnculos no traseiro — e na alma — de que “eles” gostam tanto.

Sebastián Piñera, candidato da Coalizão pela Mudança, venceu Eduardo Frei, da Concertação. E venceu também uma abordagem política que tentou degradar a inteligência e a democracia, com ecos de cobertura da imprensa que chegaram ao Brasil: “A direita está tentando voltar ao poder!”. Li, por exemplo, o Estadão de hoje, aquele jornal que continua a nos premiar com editoriais exemplares quase sempre. Em nenhum momento se diz o nome da coalizão de Piñera. É tratado apenas como o candidato “da direita”. E seu nome continua atrelado à suposta herança da ditadura de Pinochet.

Ocorre que, sob certo ponto de vista, herdeiros de Pinochet, lamento pelos finórios, são todos os políticos chilenos. A maior caudatária do regime militar naquele país é a economia. Ou alguém aí conseguiria sustentar que foi a democracia que deu estabilidade econômica ao país? Seria uma mentira grotesca. E isso nada tem a ver com endossar brutalidades. Já encomendei a alma de Pinochet ao diabo mais de uma vez. Que arda no fogo do inferno. Mas não foi a “coalizão de centro-esquerda”, no poder há 20 anos, que inventou o Chile moderno e sua economia virtuosa.

Os governos que se sucederam à ditadura tiveram a grande sabedoria de não mudar o que estava dando certo. A rigor, fizeram precocemente o que Lula viria a fazer no Brasil mais tarde. Com a brutal diferença de que o petista deu continuidade ao governo democrático de FHC. Este, sim, foi obrigado a romper com o passado — o passado de inflação, de gastança desenfreada de dinheiro público, de irresponsabilidade fiscal.

À diferença da Argentina — onde a ditadura militar foi derrubada (já falo um pouco mais a respeito) —, o Chile, como o Brasil, fez uma transição pacífica do regime ditatorial para o democrático e não se desconstituiu. O primeiro governo civil pegou um país com uma economia organizada. Atenção! É fato, não juízo de valor. Já os militares da Argentina destruíram a economia, e gangues foram se sucedendo no poder. Foram dois regimes brutais, mas, mesmo nesse aspecto, desiguais. A ditadura argentina matou 30 mil pessoas; a chilena, 3 mil; a brasileira (números da esquerda), 424. O Chile (16,5 milhões  de habitantes hoje) tem bem menos da metade da população argentina (40 milhões), que tem um quinto da população brasileira. Caso se faça a conta dos mortos por 100 mil, tem-se noção da brutalidade de cada regime. E se desfaz o mito de que todas as ditaduras latino-americanas foram iguais. “Qual seria o número razoável de mortos?” Nas mãos do estado, depois de as pessoas rendidas, a resposta é esta: ZERO! Adiante.

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O repúdio à ditadura de Pinochet no Chile sempre foi grande, mas, de longe, não reproduzia o justificado asco que os argentinos tinham de seus militares. O que o “antigo regime” chileno não teve, e a Concertação se beneficiou disso, foram políticos de expressão para se opor aos candidatos de centro-esquerda. Até porque essa Concertação foi formada com os conservadores da Democracia Cristã. Em suma: quase não sobrou conservador com expressão eleitoral fora dessa coalizão.

Essa configuração ajudou a consolidar uma farsa eleitoral: ou se estava com a Concertação ou se estava com Pinochet, com o passado, com as mortes arbitrárias… E não surgia um nome com força para romper esta doxa fundada numa falsa polarização.

A eleição de Piñera significa que os chilenos abriram a jaula e não aceitam mais ser seqüestrados pelo passado. Ainda que o governo Bachelet tenha o apoio da esmagadora maioria da população, as urnas indicaram um desejo de mudança. E foi inútil tentar recuperar o passado mais distante. Para um bom número de eleitores, a Concertação também já tem passado.

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Não! Não vou fazer o paralelo fácil: “Bachelet, com 80% de popularidade, não fez o sucessor; Lula, então, também não vai conseguir…” Não existem paralelos perfeitos em política. As circunstâncias nos ajudam a pensar. O Chile deixa claro que um governo muito popular — 80% de aprovação — não faz necessariamente seu sucessor. Evidencia também que a satanização do passado, por mais virtuoso que seja o presente, não é receita infalível de sucesso.

E é preciso levar em conta as diferenças entre as circunstâncias de lá e de cá. Bachelet não é Lula. Embora aprovadíssima pelos chilenos, não é uma figura que abusa do carisma; mesmo fazendo o jogo “passado x presente”, ela atuou nos estritos limites da lei eleitoral, coisa que o petista ignora. Eduardo Frei, o governista derrotado, não é Dilma. Já foi presidente da República e é homem de experiência comprovada  — ao contrário da petista. Na outra ponta, Piñera não é José Serra. Ao contrário do outro, o candidato das oposições no Brasil é muito conhecido COMO POLÍTICO — não representa uma aposta ousada. No Chile, tentaram ligar o agora vitorioso ao passado ditadorial. Não funcionou. Aqui, os petistas tentam fazer de Serra A continuidade de FHC  — governo cuja reputação eles enlamearam com toda sorte de mentiras e trapaças. Vai colar? Essas diferenças contam a favor ou contra os candidatos brasileiros? Vamos ver.

Uma coisa é certa: os chilenos disseram “não” ao maniqueísmo tentado pela máquina oficial. É como se tivessem dito a Bachelet: “Aprovamos o seu governo, mas chegou a hora de mudar”. Aquela falsa dicotomia está morta. O futuro de Piñera — e da “direita” (como gosta de escrever a imprensa brasileira) depende agora de ele fazer ou não um governo competente. Assim é nas democracias. O resto é seqüestro da inteligência.

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