Che Guevara, Baladaboa e redução de danos: juntos!
Escrevi aqui ontem um texto, vejam lá, em que dizia que, no Brasil, quando há uma porfia intelectual, um debate de idéias ou um confronto, a primeira coisa que fazem os que se sentem agravados é um abaixo-assinado. Para quê? Ora, pra ganhar no grito. Até a tabuada, daqui a pouco, vai depender de grupos […]
Quando critiquei aqui o projeto Baladaboa, seus promotores não tiveram dúvida: acusaram-me de ser um cara reacionário (claro!), contrário à chamada política de redução de danos. Ocorre que isso encerra uma visão distorcida que o projeto tem de si mesmo e da minha opinião. Não me oponho às políticas de redução danos, que considero uma etapa da luta contra as drogas. É que acho que o Baladaboa não pode reivindicar esse estatuto.
Como cidadão, opino, direito que me assiste a Constituição, que o projeto é irresponsável. A linguagem de seus flyers, a verbal e não-verbal, não minimiza danos, mas sim os riscos do consumo de ecstasy. Um deles afirma, com todas as letras, que, a depender do organismo, drogas podem ser inócuas. Circula por aí um e-mail do médico Drauzio Varella, que teria analisado os folhetos e não teria visto nada de errado. Aguardo um texto de Drauzio afirmando que o cigarro pode ser irrelevante. Como a afirmação é genérica, tem de valer também para a nicotina.
Tenho grande respeito por ele. Cheguei a levar meu pai a seu consultório. Nada podia ser feito porque nada havia a fazer. É um oncologista competente, de renome, um estudioso. Mas ele não é meu guia no mundo na linguagem. Acho que foi apenas simpático — o que é um risco na sua profissão — ao emprestar seu nome a uma causa cujos detalhes deve ignorar. Se não os ignora e, ainda assim, deu seu endosso, então está errado. Não! Não critiquei a redução de danos, mas o Baladaboa. Não, não critiquei a redução de danos, mas os folhetos da passeata gay que ensinavam como usar cocaína. Não, não critiquei a redução de danos, mas o site do Ministério da Saúde que indicava os pontos “seguros” do corpo para aplicação de drogas injetáveis.
Estou errado? O abaixo-assinado que vem aí diz que sim. De fato, estão bravos porque:
– a distribuição do folheto da parada gay foi suspensa;
– o patrocínio da Fapesp para o Baladaboa foi suspenso;
– a página do Ministério da Saúde foi tirada do ar.
Tudo isso só porque eu critiquei? Será que sou tão poderoso assim? Eu falo, e os responsáveis últimos pelas iniciativas saem logo fazendo o que recomendo? Não! Posso ser um tanto atrevido, mas megalômano eu não sou.
– o folheto da parada gay foi suspenso porque era irresponsável;
– o projeto da Fapesp ao Baladaboa foi suspenso porque algo ali está mal explicado;
– a página do Ministério da Saúde saiu do ar porque INEXISTEM pontos seguros no corpo para a aplicação de drogas.
Há um vezo estúpido no país que consiste em demonizar pessoas, não idéias. Quando Maluf disse o famoso “estupra, mas não mata”, recebeu o merecido: o opróbrio nacional. Bater em Maluf é fácil. Qualquer um faz. Mas alguém é capaz de explicar logicamente por que a sua frase não pode ser considerada uma forma de redução de danos? ATENÇÃO: NÃO A REDUÇÃO DE DANOS COMO DEVERIA SER, MAS COMO ESTÁ SENDO APLICADA ENTRE NÓS.
A seguir, reproduzo o abaixo-assinado e um texto que lhe serve de uma espécie de introdução, que circula na rede. Ninguém ainda inventou uma política de redução de danos para a língua portuguesa, o que é pena. Essa gente deveria dançar um pouco menos e estudar um pouco mais. Mas isso é com eles, virem-se. Se a Fapesp voltar a pôr dinheiro público nesse troço, é claro que eu vou querer saber por quê. Especialista por especialista, também os há aos montes que dizem que estou certo.
Seguem os dois textos em vermelho e conforme o original, com comentários meus, em azul.
Viram, né? Quem atacou a redução de danos, onde e quando? As críticas foram feitas a três iniciativas que reivindicam, sem ser, o estatuto de redução de danos. Ah, sim: o texto acima padece do que eu poderia chamar de vício da crase, coitado.
O contrário de “maus entendidos”, creio, são os “bons entendidos”, aqueles “entendidos” legais, bacanas. Vocês sabem: há “entendidos” verdadeiramente insuportáveis.
MANIFESTO EM DEFESA DA REDUÇÃO DE DANOS
O texto é uma maçaroca quase incompreensível, mas vamos lá. Estão tentando pegar carona no sucesso da política anti-aids. Uma coisa é recomendar que não se compartilhem seringas e até mesmo doá-las para usuários — já que a contaminação por Aids acabará custando mais caro ao estado. Outra, diferente, é ensinar como aplicar a droga, cheirar cocaína ou consumir ecstasy. Uma coisa é dizer que sexo sem camisinha é inseguro, tornando-a disponível em postos de saúde; outra coisa é instalar, como se pretende, máquinas em escolas públicas. A política de redução de danos não pode se confundir com tolerância ou indução. Esse abaixo-assinado analfabeto tenta juntar tudo no mesmo saco de gatos. O texto, aliás, só é tão inepto porque espelha uma formidável confusão teórica.
As vírgulas continuam a depredar a inteligência. Mas adiante. O que quer dizer “concepções e intervenções polarizantes”? Nada! Uma correção: sim, é preciso, sim, ser CONTRA AS DROGAS. Eu sou. Esses caras não são? Eles interferem nas políticas públicas e não são claramente contra as drogas? É óbvio que é preciso acolher os que usam. Mas aceitar? De jeito nenhum! A Igreja Católica tem experiência nisso: é Santo Agostinho. Deve-se ser contra o pecado, mas não contra o pecador. Há supostos militantes da redução de danos, no Brasil, que começaram acolhendo pecador e já estão também acolhendo o pecado.
Adotar a Redução de Danos não é incentivar o uso, nem deixar as pessoas usarem – pensávamos que esse era um debate superado. É incentivar o Cuidado, a Saúde e a Cidadania, em suas formas mais poéticas e nas suas formas mais plenas de Direitos.
Os recentes incidentes e questionamentos acerca da legitimidade, efetividade e eficácia da Redução de Danos, acompanhados a partir da proibição dos folhetos na Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e na suspensão de apoio da Fapesp ao Projeto Baladaboa, voltados ao consumo de ecstasy, são inadmissíveis e configuram-se como um retrocesso sem igual.
Assinamos esse Manifesto em defesa da Redução de Danos, da saúde e da cidadania das pessoas que usam drogas, das políticas públicas justas e humanizadas que temos no nosso país, da nova lei sobre drogas, dos decretos e leis municipais que regulamentam a Redução de Danos, da Política de Atenção Integral à saúde de usuários de álcool e outras drogas, enfim, de toda nossa história de construção de uma sociedade digna e democrática.
E que não precisemos outras vezes dizer o óbvio.
Bem, os signatários são esses daí. Andei procurando os sites da turma. O que mais me chamou a atenção foi a organização feminista “Instituto Papai”. Eles explicam seus objetivos: “O Instituto PAPAI é uma ONG que atua com base em princípios feministas e defende a idéia de que uma sociedade justa é aquela em que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Assim sendo, consideramos fundamental o envolvimento dos homens em questões relativas à sexualidade e à reprodução. Nesse sentido, nosso objetivo é promover a desconstrução do machismo e a revisão dos sentidos de masculinidade e dos processos de socialização masculina em nossa sociedade.”. Não sei bem o que é, mas posso imaginar. Mas isso ainda não esgota o meu encantamento. O site abre com esta epígrafe:
“Queridos filhos, cresçam como bons revolucionários. Lembrem-se que cada um de nós, sozinho, não vale nada. Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário”.
Sabem de quem é? Do psicopata e assassino Che Guevara, aquele que defendia que o homem deveria ser uma fria máquina de odiar e matar. Aquele que, segundo o testemunho de um companheiro seu de guerrilha na Bolívia, executou a sangue frio um “companheiro” porque este, esfaimado, “roubara” um pedaço de pão. Aquele que criou o primeiro campo de trabalhos forçados na América Latina; aquele que ajudou a fazer a ditadura que, nas Américas, até hoje, proporcionalmente ao número de habitantes, mais exilou e matou (incluam aí Pinochet e os bandidos da ditadura argentina).
Essa gente quer dar lições de moral e fazer abaixo-assinados em nome do humanismo. Reduzir danos não é ser leniente com as drogas. Reduzir danos é, sim, ter de se declarar — e de ser — CONTRA AS DROGAS. A Fapesp vai voltar atrás? Se depender dos lobistas, sim. Fiquemos de olho: se voltar, vai ter de se explicar. Sobretudo, terá de provar à sociedade que não tinha nada de mais útil, interessante, urgente ou cientificamente instigante para financiar. A turma vem de BALADABOA, e eu vou de BRIGADABOA.





