Aniversário da Abril: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Reinaldo Azevedo

Por Blog Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Che Guevara, Baladaboa e redução de danos: juntos!

Escrevi aqui ontem um texto, vejam lá, em que dizia que, no Brasil, quando há uma porfia intelectual, um debate de idéias ou um confronto, a primeira coisa que fazem os que se sentem agravados é um abaixo-assinado. Para quê? Ora, pra ganhar no grito. Até a tabuada, daqui a pouco, vai depender de grupos […]

Por Reinaldo Azevedo 27 jun 2007, 06h32 | Atualizado em 31 jul 2020, 22h21
  • Escrevi aqui ontem um texto, vejam lá, em que dizia que, no Brasil, quando há uma porfia intelectual, um debate de idéias ou um confronto, a primeira coisa que fazem os que se sentem agravados é um abaixo-assinado. Para quê? Ora, pra ganhar no grito. Até a tabuada, daqui a pouco, vai depender de grupos de pressão.

    Quando critiquei aqui o projeto Baladaboa, seus promotores não tiveram dúvida: acusaram-me de ser um cara reacionário (claro!), contrário à chamada política de redução de danos. Ocorre que isso encerra uma visão distorcida que o projeto tem de si mesmo e da minha opinião. Não me oponho às políticas de redução danos, que considero uma etapa da luta contra as drogas. É que acho que o Baladaboa não pode reivindicar esse estatuto.

    Como cidadão, opino, direito que me assiste a Constituição, que o projeto é irresponsável. A linguagem de seus flyers, a verbal e não-verbal, não minimiza danos, mas sim os riscos do consumo de ecstasy. Um deles afirma, com todas as letras, que, a depender do organismo, drogas podem ser inócuas. Circula por aí um e-mail do médico Drauzio Varella, que teria analisado os folhetos e não teria visto nada de errado. Aguardo um texto de Drauzio afirmando que o cigarro pode ser irrelevante. Como a afirmação é genérica, tem de valer também para a nicotina.

    Tenho grande respeito por ele. Cheguei a levar meu pai a seu consultório. Nada podia ser feito porque nada havia a fazer. É um oncologista competente, de renome, um estudioso. Mas ele não é meu guia no mundo na linguagem. Acho que foi apenas simpático — o que é um risco na sua profissão — ao emprestar seu nome a uma causa cujos detalhes deve ignorar. Se não os ignora e, ainda assim, deu seu endosso, então está errado. Não! Não critiquei a redução de danos, mas o Baladaboa. Não, não critiquei a redução de danos, mas os folhetos da passeata gay que ensinavam como usar cocaína. Não, não critiquei a redução de danos, mas o site do Ministério da Saúde que indicava os pontos “seguros” do corpo para aplicação de drogas injetáveis.

    Estou errado? O abaixo-assinado que vem aí diz que sim. De fato, estão bravos porque:
    – a distribuição do folheto da parada gay foi suspensa;
    – o patrocínio da Fapesp para o Baladaboa foi suspenso;
    – a página do Ministério da Saúde foi tirada do ar.
    Tudo isso só porque eu critiquei? Será que sou tão poderoso assim? Eu falo, e os responsáveis últimos pelas iniciativas saem logo fazendo o que recomendo? Não! Posso ser um tanto atrevido, mas megalômano eu não sou.
    – o folheto da parada gay foi suspenso porque era irresponsável;
    – o projeto da Fapesp ao Baladaboa foi suspenso porque algo ali está mal explicado;
    – a página do Ministério da Saúde saiu do ar porque INEXISTEM pontos seguros no corpo para a aplicação de drogas.

    Há um vezo estúpido no país que consiste em demonizar pessoas, não idéias. Quando Maluf disse o famoso “estupra, mas não mata”, recebeu o merecido: o opróbrio nacional. Bater em Maluf é fácil. Qualquer um faz. Mas alguém é capaz de explicar logicamente por que a sua frase não pode ser considerada uma forma de redução de danos? ATENÇÃO: NÃO A REDUÇÃO DE DANOS COMO DEVERIA SER, MAS COMO ESTÁ SENDO APLICADA ENTRE NÓS.

    Para má sorte dessa gente, toda essa peroração em favor da redução de danos — que, se levada a sério, não exclui a repressão nem a pregação da abstinência — viveu, então, neste 26 de junho, o seu dia de desastre. Vejam ali, posts abaixo. O consumo de drogas cresceu enormemente no Brasil. Já tratei disso em outro texto. Se, como diz o abaixo-assinado que vocês lerão, a tal redução é a política oficial do Brasil, então é forçoso concluir que ela ou não funciona ou vem sendo porcamente aplicada no país. Outra reportagem que circulou ontem informa que uma única dose de ecstasy pode provocar danos à memória. O Baladaboa recomendava a metade. Por quê? Porque sim.
    Continua após a publicidade
    Toda essa pressão tem um único objetivo: criar um clamor público para que a Fapesp volte atrás. É até possível que isso aconteça. Falta só encontrar alguns nomões do mundo das Artes & Espetáculos e mais umas duas ou três celebridades para endossar o coro do vitimismo. Eu, um blogueiro malvado, com este exército formado por um homem só, estou massacrando essas pobres reputações. Já me xingaram muito. Só não conseguem defender o projeto.

    A seguir, reproduzo o abaixo-assinado e um texto que lhe serve de uma espécie de introdução, que circula na rede. Ninguém ainda inventou uma política de redução de danos para a língua portuguesa, o que é pena. Essa gente deveria dançar um pouco menos e estudar um pouco mais. Mas isso é com eles, virem-se. Se a Fapesp voltar a pôr dinheiro público nesse troço, é claro que eu vou querer saber por quê. Especialista por especialista, também os há aos montes que dizem que estou certo.

    Seguem os dois textos em vermelho e conforme o original, com comentários meus, em azul.

    Amigas e amigos da Redução de Danos:
    Continua após a publicidade
    Os recentes ataques sofridos pela Redução de Danos precisam de uma resposta contundente e unificada. Neste sentido, ABORDA e REDUC lançam, neste dia mundial antidrogas, um Manifesto em Defesa da Redução de Danos. Esperamos a assinatura do maior número possível de entidades apoiadoras. Afinal, este manifesto não é nosso, mas de todos os que defendem à Redução de Danos, à Saúde Coletiva e os direitos das pessoas que usam drogas.
    Viram, né? Quem atacou a redução de danos, onde e quando? As críticas foram feitas a três iniciativas que reivindicam, sem ser, o estatuto de redução de danos. Ah, sim: o texto acima padece do que eu poderia chamar de vício da crase, coitado.
    Para unificarmos o processo de coleta de assinaturas, solicitamos que as mesmas sejam enviadas apenas para o e-mail institucional da ABORDA (abordabrasil@yahoo.com.br). Deste modo, conseguimos manter o controle, evitando maus entendidos. Se você ou sua instituição conseguirem a assinatura de outras pessoas e instituições, por favor, repassem para este e-mail.
    O contrário de “maus entendidos”, creio, são os “bons entendidos”, aqueles “entendidos” legais, bacanas. Vocês sabem: há “entendidos” verdadeiramente insuportáveis.
    Continua após a publicidade
    Solicitamos o esforço militante de todos aqueles que consideram que esta política não pode desaparecer. O momento é grave, e requer esforço coletivo, unificado e concentrado.
    Atenciosamente
    Elandias Bezerra Sousa
    Continua após a publicidade
    Presidente da ABORDA
    É isso aí, Elandias. Às favas com os escrúpulos no uso das vírgulas, hehe. A ABORDA é a Associação Brasileira de Redutores de Danos. Além dela, há também a Rede Brasileira de Redução de Danos. Concluí que esse negócio tem mais entidades do que as federações de boxe. Segue, agora, o misto de manifesto e abaixo-assinado.

    MANIFESTO EM DEFESA DA REDUÇÃO DE DANOS
    Desde a década de 80 estamos acompanhando, no Brasil, vários avanços significativos no campo do uso de drogas, a partir da adoção gradual da perspectiva da Redução de Danos, seja pelos governos seja por organizações da sociedade civil, tornando-se inclusive uma política pública oficial no nosso país, regulamentada por decretos, portarias e leis.
    Continua após a publicidade
    É mentira. O consumo de drogas no Brasil cresceu, demonstrou a ONU ontem. Caiu no mundo, nos países que empregam a política considerada “velha”: repressão e pregação da abstinência. O que quer dizer “avanços significativos”? A única coisa que avançou significativamente no Brasil foi o tráfico de drogas. Há 25 anos, ele não era dono de um pedaço do território nacional. Hoje, é. E usa táticas terroristas.
    A perspectiva da Redução de Danos da qual falamos, está em consonância com princípios fundamentais da promoção da saúde e da cidadania, pautadas em consensos do campo dos Direitos Humanos, especialmente do direito à Saúde, presente na Constituição Federal do Brasil e nos fundamentos e diretrizes do nosso Sistema Único de Saúde – SUS.
    O texto é malandrinho. Um desavisado juraria que a política de redução de danos está prevista na Constituição e nas regras do SUS. Não está. Sempre que uma vírgula separa o sujeito de seu verbo, meu coração fica partido.
    A perspectiva da Redução de Danos da qual falamos, tem possibilitado avanços significativos na redução da infecção pelo HIV e hepatites virais; na adoção de estratégias de prevenção, cuidado e auto-cuidado, comprometidas com as pessoas enquanto cidadãs; na possibilidade de tratamento digno e respeitoso, que leve em consideração as pessoas e sua autonomia, também no processo de busca por cuidados à saúde, como tem nos ensinado os processos de reforma sanitária e psiquiátrica.
    O texto é uma maçaroca quase incompreensível, mas vamos lá. Estão tentando pegar carona no sucesso da política anti-aids. Uma coisa é recomendar que não se compartilhem seringas e até mesmo doá-las para usuários — já que a contaminação por Aids acabará custando mais caro ao estado. Outra, diferente, é ensinar como aplicar a droga, cheirar cocaína ou consumir ecstasy. Uma coisa é dizer que sexo sem camisinha é inseguro, tornando-a disponível em postos de saúde; outra coisa é instalar, como se pretende, máquinas em escolas públicas. A política de redução de danos não pode se confundir com tolerância ou indução. Esse abaixo-assinado analfabeto tenta juntar tudo no mesmo saco de gatos. O texto, aliás, só é tão inepto porque espelha uma formidável confusão teórica.
    A perspectiva de Redução de Danos da qual falamos, nos coloca diante do fracasso das concepções e intervenções polarizantes, que simplificam demais a existência humana, evidenciando que a questão não é apenas de ser contra ou a favor das drogas, mas sobretudo é necessário acolher e aceitar as pessoas que usam.
    As vírgulas continuam a depredar a inteligência. Mas adiante. O que quer dizer “concepções e intervenções polarizantes”? Nada! Uma correção: sim, é preciso, sim, ser CONTRA AS DROGAS. Eu sou. Esses caras não são? Eles interferem nas políticas públicas e não são claramente contra as drogas? É óbvio que é preciso acolher os que usam. Mas aceitar? De jeito nenhum! A Igreja Católica tem experiência nisso: é Santo Agostinho. Deve-se ser contra o pecado, mas não contra o pecador. Há supostos militantes da redução de danos, no Brasil, que começaram acolhendo pecador e já estão também acolhendo o pecado.

    Adotar a Redução de Danos não é incentivar o uso, nem deixar as pessoas usarem – pensávamos que esse era um debate superado. É incentivar o Cuidado, a Saúde e a Cidadania, em suas formas mais poéticas e nas suas formas mais plenas de Direitos.
    “Cidadania em formas poéticas”? Todo mundo pára de consumir drogas para fazer versos? Não sei o que é pior… Não adianta só afirmar que não incentiva o consumo. É preciso que não se o incentive na prática.
    Como reafirmado em Carta recente da ABORDA – Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos, não é admissível o reforço aos “discursos reacionários que consideram à Redução de Danos como uma estratégia duvidosa, e não a política oficial do Estado Brasileiro para o tratamento de questões relacionadas ao uso problemático de álcool e outras drogas, além de suas inestimáveis contribuições ao combate da epidemia de Aids e hepatites entre pessoas que usam drogas e suas redes sociais”.
    Já disse. O consumo de drogas cresceu no Brasil. Não adianta tachar os críticos de reacionários. Aí eu os chamo de porraloucas. Resolve alguma coisa? A política do estado brasileiro é a de redução de danos? Então é preciso mudar. O consumo de drogas cresceu.

    Os recentes incidentes e questionamentos acerca da legitimidade, efetividade e eficácia da Redução de Danos, acompanhados a partir da proibição dos folhetos na Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e na suspensão de apoio da Fapesp ao Projeto Baladaboa, voltados ao consumo de ecstasy, são inadmissíveis e configuram-se como um retrocesso sem igual.
    Finalmente, chega-se ao ponto. É pura esperteza. Desde o começo, o objetivo era falar do Baladaboa. Inventou-se uma conspiração inexistente contra a política de redução de danos. Quem ataca um mau cristão não ataca o cristianismo. Ao contrário, purifica-o. Esses redutores de danos, que eu saiba, não privatizaram a política de redução de danos.

    Assinamos esse Manifesto em defesa da Redução de Danos, da saúde e da cidadania das pessoas que usam drogas, das políticas públicas justas e humanizadas que temos no nosso país, da nova lei sobre drogas, dos decretos e leis municipais que regulamentam a Redução de Danos, da Política de Atenção Integral à saúde de usuários de álcool e outras drogas, enfim, de toda nossa história de construção de uma sociedade digna e democrática.
    Como se vê, essa gente endossa a política brasileira na área, que malogrou. Desconfio até que sejam os seus reais promotores e condutores. O que saúdam com o seu abaixo-assinado? O insucesso, o desastre. Deveriam se envergonhar. Mas não! Agem como o médico maluco que, ao perceber que seu remédio não funciona, resolve dobrar a dose para mostrar que é uma pessoa convicta.

    E que não precisemos outras vezes dizer o óbvio.
    Huuummm… Ou então o quê? Vão atear fogo às vestes?
    Brasil, junho de 2007.
    Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos -ABORDA
    Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos – REDUC
    Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT
    Ypê Rosa
    Instituto Papai
    Coletivo Princípio Ativo
    Bem, os signatários são esses daí. Andei procurando os sites da turma. O que mais me chamou a atenção foi a organização feminista “Instituto Papai”. Eles explicam seus objetivos: “O Instituto PAPAI é uma ONG que atua com base em princípios feministas e defende a idéia de que uma sociedade justa é aquela em que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Assim sendo, consideramos fundamental o envolvimento dos homens em questões relativas à sexualidade e à reprodução. Nesse sentido, nosso objetivo é promover a desconstrução do machismo e a revisão dos sentidos de masculinidade e dos processos de socialização masculina em nossa sociedade.”. Não sei bem o que é, mas posso imaginar. Mas isso ainda não esgota o meu encantamento. O site abre com esta epígrafe:

    “Queridos filhos, cresçam como bons revolucionários. Lembrem-se que cada um de nós, sozinho, não vale nada. Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário”.
    Sabem de quem é? Do psicopata e assassino Che Guevara, aquele que defendia que o homem deveria ser uma fria máquina de odiar e matar. Aquele que, segundo o testemunho de um companheiro seu de guerrilha na Bolívia, executou a sangue frio um “companheiro” porque este, esfaimado, “roubara” um pedaço de pão. Aquele que criou o primeiro campo de trabalhos forçados na América Latina; aquele que ajudou a fazer a ditadura que, nas Américas, até hoje, proporcionalmente ao número de habitantes, mais exilou e matou (incluam aí Pinochet e os bandidos da ditadura argentina).

    Essa gente quer dar lições de moral e fazer abaixo-assinados em nome do humanismo. Reduzir danos não é ser leniente com as drogas. Reduzir danos é, sim, ter de se declarar — e de ser — CONTRA AS DROGAS. A Fapesp vai voltar atrás? Se depender dos lobistas, sim. Fiquemos de olho: se voltar, vai ter de se explicar. Sobretudo, terá de provar à sociedade que não tinha nada de mais útil, interessante, urgente ou cientificamente instigante para financiar. A turma vem de BALADABOA, e eu vou de BRIGADABOA.

    Publicidade
    TAGS:

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 39,99/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).