Bruno Tolentino e eu. Na terça
Onde anda agora a perfeição que andava unidaà fronte de um lavor sem mácula? Onde estásagora, ó perfeição, diadema da vida,que a harpa da luz tocava e não modula mais?Alexandria, moradia do fugaz,tu, roseiral de areia viva na descidados desertos ao mar, tu, perfume e feridae inconclusão – onde anda agora esse rapaz?Breve parêntese entre […]
Onde anda agora a perfeição que andava unida
à fronte de um lavor sem mácula? Onde estás
agora, ó perfeição, diadema da vida,
que a harpa da luz tocava e não modula mais?
Alexandria, moradia do fugaz,
tu, roseiral de areia viva na descida
dos desertos ao mar, tu, perfume e ferida
e inconclusão – onde anda agora esse rapaz?
Breve parêntese entre a imagem e a semelhança,
mal te demoras neste mundo, ó perfeição,
que harmonizaste, como os corpos numa dança,
aquele par, metades duplas da ambição
de perpetuar o passageiro – ah, quem te alcança
agora, ó fluidez, ó fuga, ó deserção…?
O que vocês leram acima é o soneto nº 69 da primeira parte — As Epifanias — do livro A Imitação do Amanhecer, de Bruno Tolentino, publicado pela Editora Globo. Raramente se fez algo de tal grandeza na poesia brasileira. E vai aqui a minha timidez. A vontade é mesmo escrever: “nunca”. Tolentino, avalio, é o maior poeta vivo da língua portuguesa e um dos grandes de qualquer tempo. Trata-se de 537 sonetos, divididos em três partes, que, não obstante, compõem uma unidade e uma narrativa. Na próxima terça, dia 27, acontece na livraria Fnac o lançamento da obra. Participarei de um bate-papo com o poeta, aberto ao público. Depois, autógrafos. Começa às 19h. Praça dos Omaguás, 34 – Pinheiros (SP). Tel. (11) 4501 3000.





