As escolhas
Escreve o leitor o que segue em vermelho. Volto em seguida: Então o viciado é criminoso por “decidir fazer parte da máquina criminosa”?Suicidar-se é humano, Reinaldo. A humanidade faz isso há milênios. Normalmente, quem o faz pouco se importa ou tem a lucidez (como poderia?) para raciocinar algo como o que você escreveu.Ainda que perceba […]
Então o viciado é criminoso por “decidir fazer parte da máquina criminosa”?Suicidar-se é humano, Reinaldo. A humanidade faz isso há milênios. Normalmente, quem o faz pouco se importa ou tem a lucidez (como poderia?) para raciocinar algo como o que você escreveu.Ainda que perceba que a droga saiu da mão de um criminoso, há a possibilidade de a pessoa escolher o caminho mais fácil e pensar: “Se eu não usar, não fará nenhuma diferença. Nem o governo faz algo realmente eficaz contra o tráfico”. Não cabe ao indivíduo fazer o serviço do estado. E ele não tem esse poder.Numa última hipótese, o usuário pode cultivar seus cogumelos, maconha ou coisa que o valha. Nesse caso, não seria adequado que as informações necessárias para evitar um sofrimento físico maior do que deveria ser estivessem disponíveis? Parto do pressuposto de que existe um sofrimento espiritual que o usuário não conseguiu resolver.Daí a fazer um folhetim financiado com dinheiro público e com informações sem compromisso com a lógica vai uma longa distância, sei disso. Pelo que entendi do seu texto, você acaba confundindo uma coisa com a outra.Há de se combater, sim, o tráfico, mostrar da onde eles retiram o dinheiro e pôr ordem na casa. Mas há também que se fazer uma política de redução de danos causados pelo crime organizado, e não transformar usuário em criminoso ou cúmplice do crime.E essa política de redução de danos se faz
(1) auxiliando o usuário a preservar o que resta de sua integridade física;
(2) tratando a ferida que levou o usuário a buscar conforto na droga,o que, repito, passa bem longe de desejar uma balada boa e uma bala da boa…
Voltei
Vejam aí. O leitor discorda de mim, é evidente, mas suas preocupações são pertinentes. Vamos ver:
1 – O fato de o viciado ser também uma vítima não anula a sua condição de conivente com a máquina criminosa;
2 – Jamais disse ou defendi que não se devam aplicar políticas classificadas como de “redução de danos” em grupos sob rígido controle e monitoramento. Afirmo isso desde o primeiro dia. Os partidários do Baladaboa é que recorreram à confusão: eu critiquei o projeto, não toda a idéia da redução de danos;
3 – Eu rejeito aquela perspectiva de que, “Se eu não fizer, outro fará…” A rigor, ela pode ser usada para qualquer crime, certo?;
4 – Quem conhece o que penso sabe muito bem que defendo a máxima segundo a qual, ao fazer as nossas escolhas, escolhemos também o mundo. Cada ato nosso deve ser pensado como algo que pudesse ser generalizado. Com uma indagação, que é de fundo moral: “Se assim fosse, o mundo seria melhor ou pior?”;
5 – Tal compreensão estava ao alcance de Kant e está disponível ao mais simples e humilde dos homens. Poderia ter uma tradução das mais corriqueiras e certas: “Não faça aos outros o que você não quer que lhe façam”. Perdemos essa perspectiva. Na vida cotidiana, nas relações sociais, na política;
6 – Dizem alguns leitores que sou implacável com os consumidores de drogas. Duro, sim. Implacável, não. Implacável eu sou com os frívolos. Aí, sim. Haver um programa que se presta ao trocadilho “Balada boa” e “bala da boa” e sustentar que ele se insere nas ações que buscam reduzir os danos causados pela droga ou é um erro estúpido ou é cinismo;
7 – Vai aqui uma reiteração: se as drogas se destinassem apenas aos viciados, acredito que seu consumo seria ridículo. Os maiores cúmplices do crime organizado são os consumidores eventuais, “sociais”, da droga. Nem têm, vá lá, a seu favor o vício: só a imoralidade básica de dar de ombros para a origem do produto que consomem e a cadeia de crimes na qual ele se insere. Pergunta: ele também compra carro ou aparelho de DVD roubados? Convenham: por que não dizer simplesmente: “Não fui eu que roubei. Se eu não comprar, outro comprará”.
8 – Ocorre que a única coisa que interessa ao homem é o momento em que diz: “Isto eu posso fazer; isto eu não posso”. Não há estado capaz de tornar um homem moral. Mas ele pode, é certo, ser simpático aos imorais, como é o estado brasileiro.
Escreve outro leitor:
Respondo: é isso aí. Na pinta. Não é o cumprimento ou não de uma lei que justifica a sua necessidade ou que prova a sua virtude. Se o estado não faz o que lhe cabe, isso não significa – muito pelo contrário – que não devesse fazê-lo. Tampouco deve servir de licença para que cometamos os nossos próprios crimes.







