As declarações de Marcelo Tas e de Luíza, sua filha
Eu não assisti ao programa CQC ontem. Leio no Estadão o que segue. Comento em seguida. Reitero: não vi o programa. Trato do que leio. Por André Mascarenhas, no Estadão Online: A estudante de direito Luíza Athayde, de 22 anos, teve sua orientação sexual exposta na TV, pelo próprio pai, mas não viu problema nisso. […]
Eu não assisti ao programa CQC ontem. Leio no Estadão o que segue. Comento em seguida. Reitero: não vi o programa. Trato do que leio.
Por André Mascarenhas, no Estadão Online:
A estudante de direito Luíza Athayde, de 22 anos, teve sua orientação sexual exposta na TV, pelo próprio pai, mas não viu problema nisso. Pelo contrário, até o incentivou a fazê-lo. Homossexual assumida desde os 15 anos, Luíza é filha do apresentador Marcelo Tas, do CQC, e protagonizou, na noite desta segunda-feira, 5, mais um capítulo da novela envolvendo o deputado federal Jair Bolsonaro, acusado de racismo e homofobia por outros parlamentares e entidades da sociedade civil. Em entrevista ao Radar Político nesta terça-feira, 5, ela defendeu o direito de Bolsonaro em expor suas opiniões e criticou as tentativas de criminalizá-lo pelas declarações.
“Quanto mais pessoas como o Bolsonaro aparecem na mídia e falam essas coisas, e mais discussão tem com relação a esse assunto, melhor”, disse ela, após garantir ter sido mais fácil pra ela do que para pai a decisão de colocá-la no programa. “A reação das pessoas a essas coisas que ele [Bolsonaro] fala, superpreconceituosas, é a melhor forma de ter esse diálogo. É um diálogo super importante que não existe no Brasil. No Brasil, a gente tem essa postura de todo mundo falar que não tem preconceito contra nada, e ninguém discute nada. Agora, esse diálogo está começando a ser criado.”
Após veicular uma nova entrevista com Bolsonaro, na qual o deputado voltou a atacar os homossexuais, Tas usou sua filha como exemplo de que pais de gays e lésbicas podem conviver muito bem com a questão. “Esta pessoa que está aqui comigo se chama Luíza. Ela é minha filha”, disse Tas, ao fim da reportagem, com uma foto da filha nas mãos. “Essa foto foi feita em Washington, onde ela vive hoje. Ela ganhou uma bolsa para estudar na American University, é estagiária da Organização dos Estados Americanos. Ela é gay, e eu tenho muito orgulho de ser pai da Luíza. Tá certo deputado?”
Bolsonaro foi um dos assuntos mais comentados da semana passada após dizer, em resposta a uma pergunta da cantora Preta Gil, no CQC, que não correria o “risco” de um filho seu se apaixonar por uma mulher negra por ter lhes dado uma boa educação. Nesta segunda, o programa veiculou uma nova reportagem com o deputado, que voltou a carga contra os homossexuais. “Ninguém tem o prazer de ter um filho gay. Ou eu alguém tem?”, diz o deputado em um dos trechos da matéria.
A iniciativa de expor a orientação sexual de Luiza foi uma reação à atitude do parlamentar, que mostrou uma foto do cunhado negro para garantir não ter preconceito de raça.
Comento
Eis aí! Luíza não é, evidentemente, porta-voz dos gays nem a estou tratando como tal. É um indivíduo homossexual que demonstra ser capaz de pensar além da sua condição sexual — porque essa é a obrigação de todo mundo. A informação de que ela mora e estuda nos EUA não deixa de ser importante: pátria do politicamente correto, Luíza sabe, no entanto, que seria impensável, naquele país tentar tolher , pela via legal, a liberdade de expressão, por mais boçalidades que a pessoa diga.
Não pretendo usar o caso de Luíza para calar aqueles que divergem dela e pedem punição ao deputado. Não é isso, não! Mas, como vêem, há os gays que acreditam, a exemplo dela, que a discriminação existe — e quem há de negá-lo? — e que seu combate deve se dar num ambiente de liberdade.
O testemunho de Tas é relevante porque serve como contestação efetiva, clara, inequívoca às opiniões de Bolsonaro: é pai de uma moça homossexual e se diz muito orgulhoso disso, coisa que o outro, em tese, considera impossível. Noto que Tas destaca as qualidades intelectuais da jovem, que parecem inegáveis. Ainda que ela não as tivesse, considero que, sem abrir mão de educar, de coibir os excessos, de tentar dizer o que considera certo e errado — filhos esperam isso —, a única coisa decente que um pai tem a fazer é amar seus filhos: héteros ou não, inteligentes ou não, capazes ou não. Em grande medida, nós os escolhemos, mas não eles a nós.
O fato de Bolsonaro combater, por exemplo, a lei da homofobia por maus motivos não torna a lei boa em si; o fato de grupos organizados fazerem uma crítica de natureza autoritária ao que ele diz não torna boas algumas de suas opiniões absurdas. A questão central está em não ferir princípios constitucionais, que organizam uma sociedade democrática, porque alguém, no uso dessas prerrogativas, diz tolices.







