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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

ACM

Morreu o senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA). Era um emblema de algumas das contradições da política brasileira, de que trato abaixo. De saída — e eu sou assim —, envio meu abraço solidário à família, em especial ao deputado ACM Neto (PFL-BA), com quem tenho uma relação cordial e de quem, divergências à parte, sou […]

Por Reinaldo Azevedo 20 jul 2007, 17h44 | Atualizado em 31 jul 2020, 22h17
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Morreu o senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA). Era um emblema de algumas das contradições da política brasileira, de que trato abaixo. De saída — e eu sou assim —, envio meu abraço solidário à família, em especial ao deputado ACM Neto (PFL-BA), com quem tenho uma relação cordial e de quem, divergências à parte, sou admirador. Ele não é um caso de filhotismo — ou, literalmente, de nepotismo — político. Tem luz própria e é, por merecimento, um dos representantes do povo da Bahia.

Os jornais se estenderão sobre a biografia política do senador, de aliado de Juscelino a principal caudatário, na Bahia, do golpe militar de 1964 e, depois da redemocratização. Chamado de “coronel”, não o era, no entanto, no formato tradicional surgido no Nordeste depois da Revolução de 1930, quando as elites locais procuraram se acertar com o poder central da República, mais moderno e urbano do que o poder essencialmente agrário da região. ACM representava, também ele, a modernização daquela sociedade oligárquica, até certo ponto estamental e patrimonialista. Ele conseguiu se fazer ouvir, na ditadura e na democracia, além das fronteiras do seu Estado. Sob o seu comando, a Bahia também se modernizou.

Isso não quer dizer que não recorresse aos métodos tradicionais de seus pares: formação de curral eleitoral, leite de pata para os aliados e pão duro para a adversários, a tradição do mandonismo e truculência no trato com os inimigos políticos. Mas, vejam só: foi peça-chave na transição do regime militar para a democracia, quando rompe com a herança da ditadura, que havia sido seqüestrada por Paulo Maluf, e ajuda a criar a Frente Liberal, que vai formar a Aliança Democrática, que elege Tancredo Neves para a Presidência no Colégio Eleitoral. por meio de Luís Eduardo Magalhães, foi vital também na formação da aliança PSDB-PFL, que retirou o país do caminho da africanização, com a eleição de FHC.

Personagem polêmica, reconhecidamente frio e calculista na manutenção de seu poder, podia ter um temperamento irascível e intempestivo a depender do caso. Parecia sempre definitivo no seu amor e no seu ódio, embora também eles pudessem ser um tanto volúveis. Nos dois primeiros anos do primeiro mandato de Lula, por exemplo, cobriu o novo mandatário de elogios. Foi se distanciando depois, caminhando para uma oposição mais aberta, até ver azedadas as relações quanto Jaques Wagner se elege para o governo da Bahia, com a impressionante ajuda da máquina federal. Com a sua morte, o DEM fica mais explicitamente antipetista e antigovernista. Não que o senador tivesse simpatia pelo PT. É que tinha o seu próprio jeito de fazer as coisas. No caso de Renan Calheiros (PMDB-AL), por exemplo, punha a sua amizade pessoal acima da questão política.

E, assim, chego rapidamente aos dias de hoje para fazer uma constatação que me parece óbvia: a democracia melhorou muito ACM, tanto quanto piorou terrivelmente seus adversários — ou, de fato, revelou a sua real natureza. Durante um bom tempo, ele foi um dos alvos do PT, quando o partido fingia ter uma agenda democrática, contra o mandonismo, “republicana”, como eles gostam de dizer. O resultado da trajetória petista é o que vemos aí e, em muitos aspectos, já pode ser percebido na Bahia de Jaques Wagner.

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O petismo de Wagner é o que mais se parece com o que está no poder federal. Ele nasce do sindicalismo estatal — Wagner vem dos quadros da Petrobras —, esteio e verdadeira ossatura do poder do partido, traduzido em várias metástases — uma delas, os fundos de pensão, arrestados pela militância. Não creio que o atual governador da Bahia inaugure uma nova dinastia no estado — essa idéia e essa prática morrem com ACM Avô e não têm como ser reproduzidas por ACM Neto. O confronto baiano assume as características que a disputa pelo poder tem hoje no Brasil: luta contra o aparelhamento do estado, luta contra o Moderno Príncipe, luta contra o onguismo governista.

Quero dizer com isso que ACM e PT conseguiram, de fato, pôr a disputa política baiana em termos, digamos assim, contemporâneos. E aqui vai, claro, o aporte valorativo deste reacionário terrível, esse direitista incorrigível, deste ser que está sempre contra a redenção dos oprimidos: a herança de ACM na Bahia certamente vai se fragmentar em correntes, ainda que fluindo numa mesma direção, distintas. E, à medida que terão de lutar contra o aparelhamento do estado, elas vão representar as verdadeiras forças progressistas da Bahia, contra o reacionarismo petista. Não é só frase de efeito, mas fato: ACM era o atraso que se fez vanguarda. Seus heredeiros terão de lutar agora contra a vanguarda que se fez atraso. A verdadeira vanguarda do retrocesso.

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