A proposta de Cabral é também racista
No Brasil, as idéias não valem pelo que são. Tudo depende de quem propõe o quê. Vocês se lembram: reforma da Previdência, com FHC, era reacionária. Com Lula, é revolucionária. As viagens ao exterior de FHC eram deslumbramento. As de Lula, oportunidade de negócios. Imaginem se a proposta de abortar pobres para coibir a violência […]
Imaginem se a proposta de abortar pobres para coibir a violência fosse de um político identificado com a direita. Ou imaginem se fosse, sei lá, de Diogo Mainardi ou minha. Marcelo Coelho renunciaria à sua tepidez habitual e não se limitaria a puxar as nossas orelhas. Ah, não! Pediria para nós um castigo muito severo. E os vários negros profissionais organizados em movimentos? Seria um deus-nos-acuda.
Não seria difícil demonstrar que a tese de Sérgio Cabral embute também um conteúdo racista. Ele poderia ter usado na sua comparação os índices de natalidade dos pobres da Índia, dos pobres de Bangladesh, dos pobres das Filipinas. Mas preferiu os pobres africanos.
Acontece que os morros do Rio não são ocupados por descendentes da Índia, de Bangladesh ou das Filipinas. E sim por, como é mesmo?, “afrodescendentes”, para usar os termos energúmenos do politicamente correto. A sua medida higienista, é claro, faria nascer menos pretos no Brasil.
O Brasil contemporâneo, como quer Marcelo Coelho em seu texto de quarta-feira na Folha (ver posts abaixo), se divide em progressistas e reacionários oficiais. Eu, Diogo e Olavo de Carvalho, por exemplo, entramos na categoria dos “reacionários”, não importa o que a gente escreva. Já o governo de Sérgio Cabral, como paga pedágio aos chamados “movimento sociais”, pode ser considerado um progressista.
Se eu escrevo um artigo na Folha defendendo a lei, a taxonomia oficial me inclui, sei lá, no “pensamento de direita”, dentro da diversidade possível. Reinaldo: jaula 27 no zoológico de bichos exóticos. Se Sérgio Cabral defende o aborto dos pobres como método para coibir a violência, recebe uma admoestação branda num editorial, acompanhada da recomendação de que se ignore o que há de eventualmente ruim em sua proposta para que não se perca de vista o que há de bom.







