A prisão de Champinha
No Estadão On Line. Retomo depois: Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, de 20 anos, recapturado na madrugada desta quinta-feira, 3, após fugir da Fundação Casa (ex-Febem) na quarta-feira, 2, pode ser enviado ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Dr. Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté, no interior do Estado. O governo do Estado deve […]
Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, de 20 anos, recapturado na madrugada desta quinta-feira, 3, após fugir da Fundação Casa (ex-Febem) na quarta-feira, 2, pode ser enviado ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Dr. Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté, no interior do Estado. O governo do Estado deve pedir a transferência ainda nesta quinta-feira, mas o pedido deve ser avaliado e aprovado pela Justiça.
A transferência foi defendida pelo secretário de Estado de Justiça, Luiz Antônio Marrey. “Champinha é maior de idade, se depender de mim, ele vai para lá, por ser um hospital de custódia e tratamento psiquiátrico. É o melhor lugar para o tratamento dele e para garantir a segurança da sociedade. Mas isso quem decide é o juiz”, afirma. A proposta seria apresentada à Vara da Infância e da Juventude assim que o expediente forense fosse aberto, por volta das 11 horas. Champinha foi internado na Febem por ser um dos idealizadores do bárbaro assassinato do casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé, em 2003, na cidade de Embu Guaçu.
Além de Marrey, o secretário de Estado da Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, e a presidente da Fundação Casa, Berenice Gianella, também são favoráveis à transferência de Champinha para a Casa de Custódia de Taubaté. Nesta quinta, Champinha deve ficar Centro de Triagem da Fundação Casa localizado na Rua Piratininga, nº 85, no Brás, onde espera uma decisão do Estado e da Justiça.
Marrey, muito irritado, atacou a parte podre de funcionários da Fundação. Em tom exaltado, Marrey afirmou que a fuga do criminoso pode ter contato com a ajuda da segurança da instituição.
“Banditismo existe fora, mas existe também dentro dos quadros do serviço público e nós vamos extirpar esse banditismo. Não é possível isso acontecer sem uma incompetência absoluta ou participação dolosa dos servidores dessa fundação nesta fuga”, afirmou Marrey, que afastou o diretor e 20 funcionários da unidade por causa da fuga.
Fuga
Champinha fugiu da Unidade 1 do Complexo Vila Maria da Fundação Casa na tarde de quarta-feira e usou Metrô e ônibus para chegar até Ferraz de Vasconcelos, na zona leste da capital paulista. Ele saltou o muro da instituição e fugiu na companhia de outro interno.
Após fugir da Casa, às 18h15, Champinha e o menor R., de 17 anos, pegaram Metrô e ônibus e foram até a casa de uma tia de criação de R., onde chegaram às 20 horas. De lá, Champinha ligou para a casa da mãe, em Embu, na Grande São Paulo, por volta das 22 horas, quando a polícia já estava no local.
Champinha disse à família onde estava e pediu a um de seus irmãos dinheiro para fugir do Estado de São Paulo. O valor deveria ser entregue na rodoviária de Ferraz de Vasconcelos. Com essas informações, dadas pela família de Champinha, a polícia conseguiu detê-lo, ainda na casa da tia de R..
Chico Picadinho
Para argumentar da necessidade da transferência, Marrey lembrou, ainda, que o Hospital de Custódia de Taubaté já recebe outra pessoa sujeita à mesma medida que Champinha, o Chico Picadinho. Por ser considerado perigoso, Chico Picadinho – que esquartejou várias mulheres entre 1966 e 1976 – continua preso até hoje, apesar de já ter cumprido a pena máxima de 30 anos, prevista no Código Penal Brasileiro.
Retomando
O tiro de quem tramou a fuga de Champinha saiu pela culatra. A recaptura do “menor que é maior de idade” depõe a favor das áreas de Justiça e Segurança do Estado. Refiro-me ao apelo de opinião pública que casos como este sempre têm. Mas os problemas estão só no começo. Ou a Justiça permite o envio do bandido para Taubaté ou está moralmente obrigada a fabricar uma solução. Está na cara que a fundação Casa, dados os limites impostos pelos Estatuto da Criança e do Adolescente (eca!!!), não tem como mantê-lo. No caso da solução inventada, é o caso de a gente botar o juiz para explicar à sociedade o que pretende.
Lembram-se daquela brincadeira, até injusta, de que o camelo é o cavalo inventado por arquitetos? Então. A Justiça, no Brasil, é uma piada contada por doutores. Não tem graça. Não dá vontade de rir. Na melhor das hipóteses, Champinha não sabe distinguir o bem do mal — sinceramente, a sua foto mais recente, nos jornais, não sugere isso. Mas se os doutores dizem… Se não sabe, o Estado dispõe de uma acomodação pra ele. É maior de idade e, vê-se, não está em recuperação. A sua ida para Taubaté não afronta a lei e é questão de bom senso. E, claro, o Brasil é o único país do mundo que tem um menor que é maior de idade.
Mas a questão da fuga toca em aspectos mais graves, como já deixou claro o secretário Marrey. Não sei quantas pessoas estão envolvidas, de forma dolosa, na fuga. Negligência, burrice e incompetência, quando menos, dispensam provas nesse caso. É óbvio, no entanto, que a coisa não pára por aí. O governo de São Paulo vem conseguindo desarmar a bomba da antiga Febem. Também está atuando de forma competente para desfazer a network dos presídios. A suspeita de que há gente querendo bagunçar a área de segurança do estado é grande.







