A Operação Condor de Tarso Genro e a nossa vergonha
Lembram-se dos pugilistas cubanos. Pois é. Um deles, Erislandy Lara, conseguiu escapar de Cuba e já está na Alemanha. Em entrevista a Jamil Chade, do Estadão, ele conta o que já sabíamos: o governo brasileiro se comportou de forma miserável e os devolveu a Cuba, sem oferecer asilo a dois refugiados de uma ditadura facinorosa. […]
Vejam o que ele diz ao repórter: “Quando deixamos a Vila Pan-Americana, o objetivo era mesmo escapar de Cuba e não voltar mais para Havana. Não há dúvida sobre isso. Não queríamos voltar. Mas as circunstâncias não eram boas. Não tivemos nenhum apoio e, sem ninguém para contactar, fomos obrigados a pedir para voltar para Cuba. Não tínhamos outra alternativa. Estávamos sem dinheiro e nem sabíamos para onde ir. Não posso recriminar a polícia brasileira. Gostei muito do Brasil e já estou planejando ir de férias para o Rio de Janeiro entre agosto e setembro. Você acha que seria seguro ou arriscado para mim? Haveria algum problema?”No dia 3 de agosto de 2007, escrevia aqui: “O Brasil está prestes a fazer um servicinho déspota moribundo, rejeitado até pelo inferno, a Fidel Castro: a Polícia Federal anunciou que vai deportar os lutadores de boxe Erislandy Lara, de 24 anos, e Guillermo Rigondeaux, de 25, que abandonaram a delegação do Pan, fugindo da ditadura. A alegação oficial: falta de documentos. É mesmo? Cadê o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) para interceder a favor dos dois rapazes? Cadê a oposição? Mandá-los de volta para Cuba corresponde a enviar dois inocentes ao calabouço de uma ditadura feroz. É evidente que eles merecem o estatuto de refugiados políticos. E a razão é óbvia: deixar a ilha sem a autorização do morto-vivo é um crime político.”
E, abaixo, vai o que escrevi no dia 6 daquele mês:O Brasil se comportou como mero braço da polícia secreta cubana e do regime assassino de Fidel Castro. É impressionante que poucos jornalistas tenham se ocupado do assunto ou lhe dado a devida dimensão. Preferiam bater na “classe média” que foi à rua protestar contra Lula — ah, esse bando de direitistas…
Vergonha. Escárnio. Voltamos aos piores tempos da ditadura militar, àqueles da Operação Condor, que previa a colaboração entre as polícias secretas das várias ditaduras latino-americanas, incluindo a brasileira. Vejam que ironia: os pugilistas cubanos, que, segundo a versão oficial, queriam voltar para casa, foram encontrados graças a um “serviço de inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública” — um órgão do Ministério da Justiça e bem mais próximo da Presidência da República do que a própria Polícia Federal.
As esquerdas, claro, fecharam a boca. Nem uma miserável palavra. O DEM protestou. Divulgou uma nota oficial de repúdio. PSDB, por meio do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), também reagiu. É isso aí. Este governo não dá asilo a dois atletas que querem fugir da tirania. Alega que eles estavam sem passaporte. O que ele recebe de braços abertos é um narcoterrorista, como Olivério Medina.
Em 1936, o governo de Getúlio Vargas deportou a judia alemã Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha nazista. Entregou-a à Gestapo. Estava grávida de sete meses. Ela não era flor que se cheirasse. Estava no Brasil para fazer a revolução comunista, a serviço da União Soviética — o golpe de 1935 fracassa, e ela e o marido são presos. Extraditá-la, no entanto, para seu país de origem, dado que judia e, ainda por cima, grávida, foi uma das muitas patifarias de Getúlio. Era o mesmo que condená-la à morte, o que acabou acontecendo: foi assassinada em fevereiro de 1942, numa câmara de gás do campo de Bernburg. Em 1945, Prestes sai da cadeia, alquebrado pela tortura e, acreditem!, dá apoio a Getúlio “contra os reacionários”!!! Há certas coisas na esquerda que não têm cura…
Sim, sei bem. Trata-se de coisas de escalas imensamente distintas. Estou apenas destacando a escola moral a que pertence essa gente. Fidel Castro, o patife perigoso, talvez exiba cenas dos dois pugilistas, felizes na ilha. Se houver, será só peça de propaganda. Sabemos que desertar, ou tentar fazê-lo, é dos crimes mais graves que se podem cometer naquela tirania homicida.
A forma com que foram deportados também lembra o Estado de terror: sem qualquer apelo, sem qualquer chance, sem que pudessem ser ouvidos. Traficantes que entram no país com cápsulas de cocaína no estômago e no intestino dão entrevistas. Dois garotos fugidos da ditadura comunista foram mantidos incomunicáveis. Pra quê? O que o Brasil efetivamente ganha entregando ao calabouço dois inocentes? Nada. Apenas reforça a sua condição de país líder dos “alternativos” na América Latina, que fazem a sua política externa sem se vergar às pressões dos EUA.
Essa gente é um lixo.





