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Reinaldo Azevedo

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A névoa sobre Abbottabad

Leia editorial do Estadão: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, justificou a sua decisão de proibir a divulgação das imagens do cadáver de Osama bin Laden, consideradas chocantes pelas autoridades americanas que as viram, argumentando que serviriam para insuflar a violência contra o país, sem dissipar – paradoxalmente, é o caso de dizer – […]

Por Reinaldo Azevedo 6 Maio 2011, 07h15 | Atualizado em 31 jul 2020, 12h04
A névoa sobre Abbottabad Priorizar nos meus resultados Google

Leia editorial do Estadão:
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, justificou a sua decisão de proibir a divulgação das imagens do cadáver de Osama bin Laden, consideradas chocantes pelas autoridades americanas que as viram, argumentando que serviriam para insuflar a violência contra o país, sem dissipar – paradoxalmente, é o caso de dizer – os boatos que percorrem o mundo muçulmano segundo os quais a operação contra o líder da Al-Qaeda foi uma farsa, e ele continua vivo em algum lugar. Na realidade, onde quer que exista, o ódio ao que os Estados Unidos são e representam se nutre de si mesmo e dispensa pretextos novos. E, a julgar pelo que a chamada rua árabe vem demonstrando, é pouco provável que a morte documentada de Bin Laden atraia massas de jovens para a causa assassina que ele encabeçava.

O risco é outro e não se limita à questão das fotos – que cedo ou tarde vazarão, como os paquistaneses já vazaram as fotos de três homens de Bin Laden mortos na invasão do complexo que ocupavam. Quanto mais duradoura for a névoa que encobre a operação levada a cabo na cidade paquistanesa de Abbottabad, mais disseminadas serão as suspeitas de que os Estados Unidos têm motivos inconfessáveis, muito além do que exigiria a sua segurança nacional, para sonegar a verdade sobre a cadeia de eventos que culminaram com a eliminação do seu mais odiado e temido inimigo. Para piorar o clima de perplexidade que parece envolver a opinião pública mesmo em países simpáticos aos EUA, Washington contribui não apenas com o que guarda, mas com o que apresenta.

Inicialmente, o governo divulgou a versão de que Bin Laden estava armado quando os comandos deram com ele no terceiro andar do casarão invadido. Além disso, informou-se, o homem mais procurado do mundo usou uma de suas mulheres como escudo, o que não impediu que fosse abatido e ela também morresse – o que induziu um jornal londrino a sair com a manchete Covarde até o fim -, e aquele teria sido o desfecho de um prolongado tiroteio. Um dia depois, a história foi desmentida pelas mesmas fontes oficiais. Segundo a nova versão, Osama estava desarmado, não fez ninguém de escudo, mas foi baleado no peito e na face ao resistir. A mulher morta no casarão não era esposa dele: esta levou um tiro na perna.

As fontes não explicaram como Bin Laden, que nunca foi propriamente um Sansão, teria resistido à elite da elite das tropas especiais americanas, a secreta Unidade 6 do Grupo Seal da Marinha; a ideia é de um ridículo atroz. Por fim, como o New York Times revelou ontem, não houve tiroteio de verdade no casarão. O único a disparar contra os atacantes, quando a operação começou, foi o mensageiro de confiança de Bin Laden, Abu Ahmed al-Kuwaiti, fulminado logo em seguida. De acordo com os informantes do jornal, no quarto onde os comandos encontraram o terrorista, havia ao seu alcance uma metralhadora e uma pistola. Ele foi sumariamente executado. O governo americano condecorou o atirador, cujo nome permanecerá em sigilo (assim como os de seus camaradas).

O presidente Obama deveria assumir a verdade: a missão da força em Abbottabad, à revelia do governo paquistanês, era executar Bin Laden. Os Estados Unidos passaram quase 10 anos atrás dele não para prendê-lo e submetê-lo a julgamento pelos atentados que ordenou contra o povo americano no 11 de Setembro (e, antes, contra alvos do país na África e no Iêmen), mas para fazê-lo pagar com a vida por seus ultrajes e eliminar a ameaça latente que ele ainda representava. A hipótese da sua captura seguida da abertura de processo penal – no Paquistão? Nos EUA? Na Corte Internacional de Haia? – é irrealista, por onde quer que se a examine.

Nesta época em que os conflitos já não se dão apenas entre exércitos regulares, mas também entre países e organizações terroristas supranacionais, que não distinguem civis de combatentes armados e para as quais todo lugar é um campo de batalha, Bin Laden era um criminoso de guerra e um alvo militar legítimo. Os Estados Unidos fizeram o que tinham de fazer. Mas agem contra os seus próprios interesses ao não revelar prontamente – por palavras e imagens – como o fizeram.

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