Viva o cinema brasileiro!
É falaciosa a ideia de que o público não gosta dos filmes nacionais
No último dia 19, foi celebrado o dia do cinema brasileiro. Nos períodos em que houve incentivo à produção e à diversidade, os resultados de bilheteria criaram fenômenos como Carandiru, Tropa de Elite e Cidade de Deus. Nos últimos anos, as comédias nacionais são sucesso absoluto. Por isso, é falaciosa a ideia de que o nosso público não gosta do próprio cinema. Para homenagear a data, resolvi listar alguns dos meus nacionais favoritos dos últimos anos que talvez você não conheça.
Começo com O Lobo Atrás da Porta (2013), de Fernando Coimbra, um thriller no subúrbio carioca, com suspense permanente e atuações primorosas de Leandra Leal, Milhem Cortaz e Fabiula Nascimento. A trama se tece com depoimentos dos envolvidos no desaparecimento de uma criança e culmina em um final surpreendente. É um filme que agradará aos fãs de um bom mistério com pegada dos recentes suspenses espanhóis (mas com tempero brasileiro, claro).
Outro que me fascina é As Boas Maneiras (2017), de Marco Dutra e Juliana Rojas, que mescla fantasia e horror em uma fábula contemporânea sobre lobisomem. No longa, Marjorie Estiano apresenta um de seus melhores papéis como Ana, uma jovem solteira, endinheirada e grávida que contrata uma babá para o filho que está para nascer. As estranhezas não tardam a aparecer.
Quando lançado, Canastra Suja (2018), de Caio Sóh, sofreu críticas ao apresentar a lenta degradação de uma família com personagens que vão revelando suas mesquinharias e desejos sórdidos. Digam o que quiserem, é um filme corajoso, espécie de Nelson Rodrigues contemporâneo com roteiro potente, direção segura e atuações de respeito.
“Uma política pública de incentivo ao audiovisual é essencial em qualquer país e traz fortes benefícios”
Mate-me, por Favor (2017), de Anita Rocha da Silveira, traz um suspense com foco na juventude. Bia, uma garota de 15 anos, e seu grupo de amigas ficam perturbadas com uma série de assassinatos que acontecem na Barra da Tijuca. A ambientação claustrofóbica do condomínio e os rumos inesperados da jovem garantem, nas mãos habilidosas da diretora, uma investigação hipnótica dessa geração.
O Animal Cordial (2018), de Gabriela Amaral Almeida, transcorre em um único cenário, um restaurante meio falido. Certa noite, dois bandidos invadem o local, mas nada sai como planejado. O longa explora a violência e sensualidade dos personagens, dos funcionários aos clientes, em narrativa com traços de slasher, giallo e suspense hitchcockiano.
Fala Comigo (2017), de Felipe Sholl, apresenta o jovem Diogo, cujo fetiche é telefonar para as pacientes de sua mãe, a psicoterapeuta Clarice, e se masturbar enquanto as escuta do outro lado. Em uma abordagem, ele conhece uma quarentona solitária e depressiva que foi abandonada pelo marido. A partir daí, o filme se desenrola evitando respostas fáceis e sem nunca julgar os personagens.
Num país como o nosso, o cinema ainda tem muitas histórias para contar. Para isso, uma política pública de incentivo se faz essencial e traz fortes benefícios não só culturais, mas também econômicos: basta ver o cinema sul-coreano, que levou Parasita a vencer quatro Oscar. Saindo da zona de conforto, você encontrará boas surpresas. Como avisa a placa que leva a Bacurau: Se for, vá na paz!
Publicado em VEJA de 1 de julho de 2020, edição nº 2693






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