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Se Vorcaro fosse réu da Lava Jato, seria inocentado no final?

Efeito manada de vazamentos seletivos em casos de alta repercussão, sabe-se, produzem e produziram o que se chama de assassinatos de reputações

Por Mário Rosa
17 mar 2026, 10h00 • Atualizado em 17 mar 2026, 10h14
  • Nem perco tempo de ficar indignado ou com rubor diante das contradições e duplos padrões abraçados pela conveniência momentânea que se forma de tempos em tempos entre forças poderosas, convicções inabaláveis e o engajamento da chamada imprensa tradicional, absolutamente convicta de estar cumprindo à risca o seu papel. O problema é que já vimos algumas vezes que as circunstâncias mudam e um coro de arrependimento, quando não de condenação ao que parecia exemplar, se transforma numa fúria indomável que recai contra o que antes parecia imaculado. Detalhe: sem nenhuma autocrítica.

    A operação Lava Jato foi festejada como a maior e mais audaciosa iniciativa para enfrentar a corrupção sistêmica no Brasil em toda a sua história. Cometeu erros? Sem dúvida. Mas de repente, não mais do que de repente, foi carbonizada, foi reduzida a pó, foi descrita pelos mesmos veículos que a incensaram como exemplo jamais a ser seguido. Foi transformada e reduzida a um emaranhado de erros e vícios processuais, abuso de poder, falhas insanáveis e seu mérito, ora, que mérito? Tudo fruto da árvore envenenada. Mas isso não aconteceu há 10 mil anos. Foi agora há pouco…

    Eis que o caso Daniel Vorcaro vem à tona. Vazamentos seletivos inundam a imprensa. Detalhes sórdidos de sua vida pessoal (o que isso tem a ver com a elucidação de seus eventuais crimes?). Um cidadão sob a tutela do Estado brasileiro se vê humilhado, vê sua intimidade compartilhada com uma CPI sendo esses conteúdos deliberadamente enviados e com respaldo mais do que amparado pela jurisprudência para serem imprestáveis por não fazerem parte do objeto das investigações. E a vida de Vorcaro é devassada e cai na boca do povo. Mas não é só.

    Numa outra direção, diversos conteúdos são compartilhados não com a política, mas diretamente com a imprensa. Para comprometer ministros da Suprema Corte. Por ligações ou supostas ligações com o “inimigo público número 1” da vez, Vorcaro, tema agora das bancas de revista, dos botecos, dos vagões de trem, das pracinhas, subitamente a mais efêmera pessoa famosa do país, como sempre acontece nessas dinâmicas necessariamente artificiais e anabolizadas pelo clamor e pelo massacre da reputação. Peraí: vazamentos seletivos contra ministros do STF? Com toda a carga que isso pode trazer de condenações sumárias e pelotões de fuzilamento moral? E uma coisa não se soma a outra? Vazamentos da esfera governamental com os que ridicularizam o réu, vinculando-o à cúpula do Judiciário? E tudo acontece sem querer? Em Brasília?

    Então, voltemos à operação Lava Jato, a hoje tão condenada operação que condenou tantos, mas acabou tendo tantos descondenados porque foi preciso transformá-la em ré. Se Daniel Vorcaro tivesse sido réu da Lava Jato e algo sequer próximo do que está acontecendo com ele tivesse ocorrido lá, ele seria inocentado? Seria ele vítima de uma mecânica institucional “viciada”? E se seria, não seria o caso de não apenas denunciar todos os que estão em seus vazamentos, mas também seus vazadores? Não seria esse o “salto civilizatório”, o sumo de aprendizado, que o país como sociedade teria colhido após tudo que contestou na Lava Jato? Ou foi apenas o pretexto para liquidá-la com argumentos nobres e cometer distorções que, atribuídas a ela, agora servem de exemplo perfeito e acabado do correto a fazer.

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    Lembrando que no caso da Lava Jato, por mais que seus críticos a odeiem, o então juiz Moro recorria ao expediente de abrir sigilos como forma de facultar acesso coletivo a todos, baseando seu ato no princípio da transparência. O que vemos hoje é sobretudo o que não vemos. Estamos no ano eleitoral de 2026. E os vazamentos são seletivos. E o que mais chama atenção é o que não vaza. Não vazam as íntegras de todos os celulares apreendidos, aliás sequer chegaram ao domínio e ao controle do Supremo Tribunal Federal. Na prática, o STF está subordinado ao Executivo. E se pergunta: se um poder usurpa a competência de outro poder, no caso do presidente Bolsonaro, isso foi definido de tentativa de abolição do Estado de Direito. Agora é o que?

    Levanta-se a suspeição do Supremo? Vazam-se conteúdos curiosamente contra adversários do governo. Não se conhecem os conteúdos negativos envolvendo os próceres do atual comando político da administração federal, justamente num ano de reeleição. E tudo isso ao mesmo tempo. E nada se questiona sobre o fato de que os conteúdos sobre o acervo investigatório não estarem todos sob a tutela do ministro relator do caso, André Mendonça. E ao mesmo tempo a memória oficial hoje é que a Lava Jato foi conduzida politicamente? E o que está acontecendo então é o contrário do que se falou para conspurcar a Lava Jato? Mas digamos, apenas digamos, que o que está acontecendo é algo parecido com o que os críticos ferozes da Lava Jato bradaram: Vorcaro então vai ser inocentado no final e tudo será anulado?

    P.S.: a imprensa tem todo direito de publicar tudo o que quiser, nos limites da lei, como obter vazamentos de documentos oficiais levá-los ao público em nome do interesse público. A questão aqui não é essa. A questão é que esse efeito manada de vazamentos seletivos em casos de alta repercussão, sabe-se, produzem e produziram o que se chama de assassinatos de reputações. Essa é uma lição que todos aprendem nas tragédias de escândalos e se comprometem a nunca mais cometer. Até a próxima vez, ao que parece, quando um novo caso eclode. Infelizmente.

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    Mário Rosa é jornalista, consultor de comunicação e autor de quatro livros sobre imagem e reputação.

     

    Este artigo é uma colaboração do Canal INAC com VEJA

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