Meu pirão primeiro
Reza a lenda que a origem do dito “farinha pouca, meu pirão primeiro” remontaria às comitivas de viajantes e bandeirantes do Brasil Colônia
Diz a sabedoria popular, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Sabe-se que o ato de utilizar a água do cozimento de peixes e frutos do mar para escaldar farinha de mandioca, criando assim um caldo grosso e nutritivo, remonta aos povos originários do Brasil. Tradição da matriz tupi incorporada por colonizadores portugueses e escravizados africanos após 1500, ao incluírem carne bovina, galinha, azeite de dendê. O pirão democratizou-se.
Antecipou-se em séculos a Karl von Martius, vencedor do concurso promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1844. Ao responder “como se deve escrever a história do Brasil”, Martius instituiu a “teoria das três raças”. “Qualquer que se encarregar de escrever a História do Brasil, país que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos que aí concorreram para o desenvolvimento do homem”.
“São porém êstes elementos de natureza muito diversa”, prosseguia Martius, “tendo para a formação do homem convergido de um modo particular três raças, a saber: a de côr de cobro ou americana, a branca ou Caucasiana, e enfim a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a actual população, cuja história por isso mesmo tem um cunho muito particular”. E contraditório, faltou dizer.
Sob Martius, “encontro, mescla, relações mútuas” entre as “três raças”, adverte a historiadora Lilia Schwarcz, não eram sinônimo de igualdade. Ao contrário, diz Schwarcz em Sobre o autoritarismo brasileiro (2019), o naturalista bávaro resumia a nação em três longos rios: “um grande e caudaloso, formado pelas populações brancas; outro um pouco menor, nutrido pelos indígenas, e ainda outro, mais diminuto, alimentado pelos negros” (p.16).
Para Schwarcz, interessava a Martius “contar uma história pátria – a europeia – e mostrar como ela se imporia, ‘naturalmente’ e sem conflitos, às demais”, apontando para a prevalência de certa “hierarquia ‘inquestionável’”, apoiada “num passado imemorial e perdido no tempo” (p. 16). Natural, inquestionável, imemorial, a hierarquia caucasiana de Martius legitimava suposto privilégio racial ao inaugurar a escrita da História do Brasil.
Há em Martius, porém, três verdades incontestes: 1) a desigualdade sócio histórica existente entre as três etnias, fato que ele buscava explicar/justificar recorrendo a dado naturalismo científico; 2) mediante inegável desigualdade sócio histórica, a força de uma “hierarquia inquestionável”, para ele supostamente ligada a predomínio racial; e 3) “Do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças”, fez-se a singularidade brasileira.
Reza a lenda que a origem do dito “farinha pouca, meu pirão primeiro” remontaria às comitivas de viajantes e bandeirantes do Brasil Colônia. É bem provável que Martius tenha conhecido e consumido pirão durante a expedição que fez ao país, entre 1817 e 1820, e que resultou na maior pesquisa sobre a flora brasileira realizada até então. Enfim, era comum naquelas longas expedições o convívio com a escassez de provisões e mantimentos.
Líderes e capitães garantiam suas porções de pirão antes que a farinha de mandioca acabasse. E antes dos demais integrantes da comitiva, hierarquicamente subalternizados. Ao democrático pirão, nutriente simples e barato, genuína expressão “do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças”, nas palavras de Martius, ora veja, somou-se o vil exercício de excessiva autoridade, fundada em exclusão e privilégio.
Talvez por sintetizar em termos sinceros aspectos marcantes da realidade brasileira ao longo dos séculos, o ditado se fez popular, transmitindo a sucessivas gerações componentes fundamentais de determinada ética-politica, ainda hoje disseminada e compartilhada por amplos estratos sociais no Brasil. Encenada de diferentes modos, por diferentes atores, subordina a necessidade de muitos ao interesse de poucos. E faz escola.
Antirrepublicana por natureza, dá bem a medida dos marcos vigentes em diversos níveis da vida coletiva no país. Assento pouco, meu descanso primeiro, não importa se negando o lugar a pessoas que mais o necessitam. Estacionamento pouco, meu carrão primeiro, não importa se em entrada de garagem, vaga reservada ou fila dupla. Saguão pouco, meu embarque VIP primeiro, não importa se no plano gold ou platinum. Democracia pouca?
Ora, meu penduricalho primeiro, não importa se meros 782 juízes receberão R$ 1,1 bilhão retroativos. Meu bilionário fundo partidário e eleitoral primeiro, não importa se ao custo de R$ 5 bilhões do orçamento público apenas em 2026. Meu golpe de estado primeiro, não importa se executando a linha sucessória da República ou depredando as sedes dos Três Poderes. E, sim, democracia pouca, meu business com o “irmão” Vorcaro primeiro.
Diz Meu pirão primeiro, samba de Nilo Dias e Jorge Garcia, eternizado por Bezerra da Silva: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Este é um velho ditado do tempo do cativeiro”.
Clayton Romano é doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca) e docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA







