Metástase em curso
Ética, a ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade, é a matéria-prima de que o Brasil mais se ressente
A sensação do brasileiro de boa-fé, quando assiste ao noticiário sobre a corrupção que grassa em inúmeros setores da vida pública e da iniciativa privada, é de que o País adentrou à seara irreversível de verdadeira metástase moral.
Ética, a ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade, é a matéria-prima de que o Brasil mais se ressente. Ela esteve debilitada, seu estado se agravou, foi para a UTI e registrou-se o óbito. Sem luto e sem lamento. Aconteceu porque realmente devia acontecer.
Não é possível que a degradação tenha impregnado toda a gente que participa das atividades políticas, econômicas e financeiras da Nação. Devem restar pessoas íntegras, que se envergonham das ocorrências lastimáveis e que preservam a noção de probidade, que deveria ser algo ínsito a qualquer humano.
Ocorre que as feridas abertas no brio nacional são profundas e sangram. Ainda não cicatrizaram. Longe estão disso, porque insistentemente reabertas com novos informes sobre imundícies praticadas, tão lastimáveis como os anteriores.
Será possível encetar um movimento de regeneração da vida pública, a fim de que os horrores passem a fazer parte de um passado que só servirá, como página virada, para reforçar o “basta” e o “nunca mais” para essa vergonhosa era pátria?
Isso apenas ocorrerá se houver uma conscientização de todos os brasileiros honestos, que se constrangem pela condição miserável de semelhantes mergulhados na podridão e que, surpreendentemente, continuam lépidos, a frequentar espaços qualificados e páginas sociais ou telas da inflação informacional que nos manipula de forma incessante.
É urgente buscar no íntimo de cada ser capaz de manifestar sua indignação, a força de vontade para refrear a volúpia dos que já não têm o que vender ao “deus dinheiro”, pois sua alma conspurcada há muito deixou de significar um patrimônio ético.
Indignar-se é o primeiro passo rumo à moralização dos costumes. Outro, é não silenciar e clamar contra os desmandos, imperdoáveis em relação a quem assumiu o dever legal de manter conduta irrepreensível.
Em seguida, motivar os inconformados a agir. Como agir? Inundando as redes sociais de protestos, repúdios, manifestações de intenso desagrado e exigindo um coordenado movimento de segregação do material pútrido, para que não consiga sobreviver no ambiente saudável que é o ideal republicano de uma nação civilizada.
Não esmorecer. Invocar padrões de probidade que no passado eram lições transmitidas de geração em geração. Mostrar como é que os países em que a corrupção não cresceu, mas se conteve, o governo e a sociedade civil costumam tratar dos que perderam a noção do que deva ser o convívio. Recobrar o sentido de expressões em desuso, como boa-fé, honestidade, compostura, cultivo de virtudes.
Aquelas virtudes singelas que durante muito tempo eram transmitidas pelas primeiras educadoras, as celebradas “mestras do currículo oculto”, as nossas mães. Eram aquelas que nos ensinavam as “palavras mágicas” do “por favor”, “muito obrigado”, “com licença”, “perdão” ou “desculpa”, verbetes que praticamente desapareceram de grande parcela dos lares.
A transigência com regras aparentemente insignificantes, como a polidez, a gentileza, a modéstia e a humildade, flexibiliza a epiderme do grande círculo da moral, a ponto de permitir, em sequência, a prática de pequenas infrações disciplinares, que podem se converter em faltas administrativas, depois incidir nas vedações civis, até atingir um ápice na deterioração dos costumes: vulnerar a última esfera concêntrica, reservada à delinquência. Incidir na lei penal é o máximo de aviltamento.
Talvez já tenhamos superado o ponto de inflexão e não haja mais condições de retorno à qualidade intrínseca aos humanos, que se autointitulam racionais e que propagam a sua vocação à perfectibilidade. A nossa civilização cristã se arroga a semelhança à imagem do Criador. E costuma reiterar observância do preceito “sede perfeitos, como meu Pai é perfeito”.
Resta uma esperança para a metástase em curso ininterrupto e de acelerada intensificação. Mas depende de nós. De cada um de nós, sem exceção. Teremos a coragem de enfrentar um panorama que nos faz lembrar filmes de horror? Estamos condenados a presenciar um cenário tétrico, dantesco e de baixezas?
José Renato Nalini é Secretário Executivo de Mudanças Climáticas da Prefeitura de São Paulo. Foi Secretário de Estado da Educação e Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Secretário e Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira de Educação. É Conselheiro Superior do INAC. É Reitor da UniRegistral. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos. Conferencista.
Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA






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