Culturalmente, o futebol tem, não é de hoje, presença de destaque no cotidiano e no imaginário de grande parte dos brasileiros. Foi nesse ambiente que as bets encontraram espaço para crescer: estão no intervalo dos jogos, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e no celular. Para milhões de brasileiros, apostar passou a fazer parte de uma experiência ampliada desses eventos.
Com a regulamentação e o crescimento desse mercado, o debate sobre as bets também cresceu e se tornou presença garantida em quase todas as discussões e reuniões de que participo sobre o comportamento do consumidor brasileiro e o cenário da economia em nosso País. Mas, enquanto todos debatem o tamanho e os impactos desse novo mercado, ignora-se que quase metade dele está no subterrâneo, fora da visão do Estado e livre de qualquer regulação.
É o que descobrimos em uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva, em parceria com a LCA e a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que ouviu 2.291 apostadores de bets esportivas e cassinos online. Segundo a pesquisa, 53% dos apostadores no País haviam apostado em sites ilegais, identificados a partir da admissão de comportamentos de aposta proibidos, como uso de sites que não exigiram reconhecimento facial; utilização de plataformas com endereço diferente de .bet.br; plataformas que permitem depósitos por cartão de crédito; ou utilização de criptoativos. Considerando o share em valor das apostas, o estudo estima que entre 38% e 44% das apostas online sejam realizadas em plataformas clandestinas. Isso significa que quase metade desse mercado no País pode estar operando na ilegalidade, sem recolher impostos e sem aderir às exigências definidas pelos reguladores. Isso, obviamente, agrava enormemente os riscos aos apostadores e tem consequências econômicas graves para o País.
Há uma contradição nesse comportamento: 77% dos apostadores concordam que as bets ilegais são mais perigosas. Por quê? Em grande medida, essas pessoas são enganadas, clicam em anúncios na internet e nas redes sociais sem saber que estão apostando em sites ilegais. A facilidade para apostar também ajuda a explicar esse comportamento: as plataformas clandestinas não exigem reconhecimento facial, aceitam cartão de crédito e podem parecer mais atraentes ao oferecer a promessa de prêmios maiores. O consumidor nem sempre relaciona essa facilidade a riscos maiores.
Essa facilidade também pode acelerar o endividamento. Ao usar o cartão de crédito, por exemplo, o consumidor pode apostar com dinheiro que não tem disponível. Uma perda pode levar a uma nova aposta, o limite pode ser acionado e os juros podem transformar uma decisão tomada em segundos em uma “bola de neve”.
Os próprios apostadores defendem uma fiscalização mais rigorosa. Entre eles, 77% dizem que combater as bets ilegais deveria ser uma prioridade das autoridades para evitar o vício em apostas e 63% avaliam que o governo poderia fazer mais para proteger os apostadores contra sites e aplicativos ilegais.
O desafio agora é ajudar o consumidor a identificar, de uma maneira prática e no momento da aposta, se está diante de uma plataforma autorizada. A escolha acontece na tela do celular, muitas vezes durante o intervalo de um jogo, em pouco tempo.
A regulação precisa funcionar justamente nesse momento. O consumidor precisa entender por que essas regras existem e perceber que a facilidade oferecida por uma operação clandestina pode ter um custo muito maior do que parece. Para o País, esse problema oculto também é grande e precisa ser enfrentado.







