O peso invisível que sustenta as famílias brasileiras
Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 68% das brasileiras dizem ser responsáveis por manter o equilíbrio emocional da casa
Há uma frase comum na vida doméstica brasileira que quase nunca aparece nas estatísticas: quando algo precisa ser resolvido, alguém pergunta para a mãe. Essa percepção cotidiana acaba de ganhar números. Uma pesquisa nacional do Instituto Locomotiva mostra que 68% das brasileiras dizem ser responsáveis por manter o equilíbrio emocional da casa e 65% afirmam que a família depende delas para garantir as contas pagas.
Os dados revelam algo que muitas vezes passa despercebido no debate público. Nas últimas décadas, as mulheres ampliaram sua presença no mercado de trabalho ganharam peso na geração de renda e passaram a ocupar um lugar cada vez mais decisivo na sustentação material das famílias. Mas isso não significou uma redistribuição proporcional das responsabilidades dentro de casa. Pelo contrário. O levantamento mostra que a sociedade reconhece essa assimetria: 81% dos brasileiros concordam que as mulheres executam mais tarefas domésticas e de cuidado do que os homens.
O que chama atenção é que a sobrecarga feminina não se limita às tarefas mais visíveis como cozinhar, limpar ou cuidar dos filhos. Existe uma dimensão menos discutida, mas igualmente pesada que é a gestão emocional da família. É a mulher quem organiza encontros, lembra aniversários, evita conflitos, preserva vínculos entre parentes e administra o clima da casa. Em muitos lares, ela funciona como uma espécie de “infraestrutura afetiva” da família.
A pesquisa mostra ainda que 7 em cada 10 mulheres dizem que, em decisões importantes, todos esperam sua palavra final, e metade afirmam que, sem sua presença, dificilmente a família se reuniria. Em outras palavras: além de trabalhar, cuidar da casa e administrar o orçamento, muitas mulheres também carregam a responsabilidade de manter a família funcionando como um sistema.
O problema é que essa centralidade raramente vem acompanhada de reconhecimento. Apenas 28% das mulheres sentem que o trabalho doméstico e de cuidado é muito valorizado. Esse dado ajuda a explicar uma sensação compartilhada por muitas brasileiras: a de viver uma jornada múltipla, na qual responsabilidades se acumulam sem retorno proporcional em valorização social, autonomia material, divisão mais justa de tarefas ou tempo para si mesmas.
Os dados mostram que o problema não está apenas na divisão desigual das tarefas, mas também na forma como a sociedade naturaliza esse esforço e o trata como obrigação feminina, e não como trabalho essencial para a sustentação da vida.
Por isso, o debate sobre igualdade de gênero não pode ser medido apenas pelo acesso das mulheres ao mercado de trabalho, à educação ou aos espaços públicos. Ainda que tenha havido avanços na agenda de gênero ao longo das últimas décadas, eles estão longe de ter produzido uma condição de igualdade efetiva, inclusive nessas esferas. A desigualdade também se expressa quando a autonomia econômica vem acompanhada de sobrecarga, quando o protagonismo na família não se converte em reconhecimento e quando a responsabilidade de cuidar de todos continua recaindo, de forma quase automática, sobre as mesmas pessoas.
A família brasileira mudou. As mulheres ampliaram seu espaço, assumiram novas centralidades e passaram a ocupar um papel ainda mais decisivo na sustentação material e afetiva dos lares. O problema é que essa mudança não veio acompanhada de uma redistribuição à altura. Quando a conquista se soma à sobrecarga e o cuidado continua tratado como obrigação feminina, a igualdade deixa de ser um avanço completo e passa a ser uma promessa ainda em aberto.






