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Planeta IA

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Inteligência artificial, tecnologia e o que tudo isso muda na sua vida

Celebridades do cinema lançam campanha anti-IA: “Não é progresso. É roubo”

Scarlett Johansson, Cate Blanchett e outros 800 profissionais da indústria iniciam guerra contra as big techs

Por Alvaro Leme 23 jan 2026, 07h00 • Atualizado em 23 jan 2026, 07h06
  • Na esteira da visibilidade proporcionada ao cinema norte-americano pelas indicações do Oscar, anunciadas ontem, um grupo grande de profissionais da indústria decidiu anunciar guerra contra as big techs. O motivo: inteligência artificial, considerada uma ameaça a uma série de profissões do ramo do entretenimento.

    Uma carta-manifesto assinada por cerca de 800 artistas, escritores e demais profissionais de Hollywood detona: “Roubar nosso trabalho não é inovação. Não é progresso. É roubo, puro e simples.”

    Parte da declaração acima dá nome à campanha, Roubo não é Inovação, organizada pela Human Artistry Campaign, coalizão que reúne entidades e grupos ligados ao segmento, e que já vinha se posicionando contra o uso de IA sem consentimento. Entre os apoiadores, há nomes como Cate Blanchett e Scarlett Johansson – que, numa dessas ironias da vida, deu “vida” a uma IA no filme Ela, de 2013.

    Em iniciativas assim, é comum que parte do público ache que os artistas estão apenas defendendo seu peixe. O caso aqui parece mais sério, porque o grupo busca mostrar que o entretenimento funciona como uma espécie de ecossistema criativo dos Estados Unidos, que sustenta milhões de empregos, movimenta a economia e exporta influência cultural para o mundo.

    Eles se queixam de que, enquanto isso, as empresas de tecnologia estariam “raspando” obras protegidas por direitos autorais para treinar modelos de IA sem autorização nem compensação financeira às equipes humanas envolvidas ou transparência.

    A ferida aberta da IA generativa

    O problema não é novo, mas a combinação entre escala, opacidade e lucros bilionários das big techs acelerou a indignação. Modelos de IA como os que alimentam chatbots, geradores de imagem e ferramentas de vídeo dependem de bases gigantescas de dados, e isso inclui livros, reportagens, músicas, roteiros, ilustrações e fotografias que circularam na internet ao longo de décadas.

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    Para os criadores, o argumento é simples e, sejamos justos, meio óbvio para qualquer pessoa que já tenha produzido algo original. Se uma empresa usa seu trabalho para treinar uma máquina que depois vira produto comercial, isso não é homenagem nem inspiração, é exploração. Os artistas escolheram a palavra “roubo”, que não fica muito longe também.

    Em geral, as empresas de tecnologia costumam responder com a alegação de “fair use”, o uso justo, que no direito norte-americano permite uso de obra protegida sem autorização em algumas circunstâncias.

    A atriz (sempre chique) Cate Blanchett: manifesto reúne cerca de 800 profissionais dos mais variados ramos da indústria criativa
    A atriz (sempre chique) Cate Blanchett: manifesto reúne cerca de 800 profissionais dos mais variados ramos da indústria criativa (Lia Toby/Getty Images)

    Quer usar? Beleza, mas então bote a mão no bolso

    O pessoal da campanha sabe que lutar para “acabar com a IA” seria perda de tempo. Primeiro porque é dar murro em ponta de faca, segundo porque, como qualquer inovação, essa aqui traz não só possíveis prejuízos mas também potenciais oportunidades.

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    Em outras palavras, a ideia é que, se a IA vai entrar na jogada de qualquer maneira, o certo é que haja alguma forma de licenciamento. Assim, a campanha pede que as empresas fechem acordos, parcerias e contratos de conteúdo com os detentores dos direitos (como algumas já fizeram). E sustenta que existe um caminho “melhor”, no qual a IA continua avançando, mas sem prejudicar pessoas que usam sua criatividade para criar algo de valor.

    Scarlett, o caso que virou símbolo

    Mais do que a conexão de ter dado voz a uma IA, como contei acima, Scarlett Johansson virou símbolo da causa anti-IA depois de uma situação absurda que viveu em 2024. Na época, ela contou que tinha sido procurada para licenciar sua voz para um produto da OpenAI e, quando recusou, a empresa teria clonado sua voz. O caso virou um marco do que pode acontecer quando uma tecnologia é lançada rápido demais e a cultura descobre depois que o “parecido” virou um negócio.

    Por isso, a presença dela funciona como argumento e como alerta. O que aconteceu com a voz pode acontecer com textos, rostos, estilos, personagens, piadas, frases de efeito e qualquer coisa que seja reconhecível o suficiente para ser monetizável.

    E o que você tem com isso, leitor, leitora? Muita coisa!

    O texto da campanha insiste num ponto estratégico: A defesa do trabalho criativo não é uma pauta exclusiva de celebridades. É uma pauta econômica. Nos últimos tempos, tem se falado muito da indústria criativa como um polo de soft power – coisa que ela sempre foi, é bem verdade.

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    Isso explica por que a carta também é um recado aos legisladores, num momento em que governos do mundo todo discutem regulações sobre dados de treinamento de IA.

    E explica por que esse assunto vai bater cada vez mais forte no Brasil, mesmo quando a história nasce nos EUA. A lógica de raspagem é global, mas a capacidade de se defender juridicamente não é. No fim da cadeia, quem paga a conta costuma ser o elo mais fraco, e no mundo criativo isso inclui roteirista, ilustrador, fotógrafo, músico independente, tradutor, jornalista freelancer e toda a tropa que produz cultura sem ter um exército de advogados no bolso.

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