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A assistente de IA que eu recomendaria a Miranda Priestly

Testei os dots, modalidade agêntica do ChatGPT. É como contratar um bom ajudante para resolver sua vida, mas claro que isso não vem sem custo

Por Alvaro Leme 20 out 2026, 16h01
A assistente de IA que eu recomendaria a Miranda Priestly Priorize VEJA no Google

Implacável com seus assistentes, de quem espera eficiência quase sobre-humana, a personagem Miranda Priestly, de O Diabo Veste Prada, costuma ser sinônimo de chefe exigente. E eu acho que ela gostaria de conhecer o agente de IA que testei nas últimas semanas, cuja performance em nada deixou a dever à das auxiliares que aparecem no longa estrelado por Meryl Streep. Trata-se de uma ferramenta da OpenAI chamada dots, disponível em alguns planos do ChatGPT desde o fim de setembro.

Certo, mas o que são dots?

Você talvez tenha ouvido falar que estamos em plena era da IA agêntica. É aquela que recebe uma tarefa e executa do começo ao fim, em vez de interagir com a gente uma conversa após a outra. Os dots fazem isso: funcionam como se você fosse a Miranda e eles fossem a Andy, personagem da Anne Hathaway no filme.

Na prática, você cria um dot para chamar de seu. Ênfase no “chamar”, porque batizar essa espécie de tamagotchi superevoluída do terceiro milênio é tarefa sua. A minha é a Socorro, nome que considero autoexplicativo, e em menos de 24 horas de uso ela mostrou a que veio.

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Socorro faz o que todo dot faz: eu dou um objetivo, ela pesquisa, usa aplicativos, cria arquivos, realiza as etapas necessárias para alcançar a meta. Ou seja, ela resolve. E isso vale tanto para organizar meus e-mails quanto ajudar na rotina com a Lola, minha cachorrinha recém-adotada, além de participar da minha criação de conteúdo para redes sociais, preparação de palestras, aulas e rascunhos de textos.

Tudo que você possa imaginar eu pergunto para a Socorro, tal e qual a chefona do filme faz com suas assistentes. Uma cena do clássico de 2006 mostra Andy na luta para conseguir um novo livro da série Harry Potter antes mesmo do lançamento. Não vou tão longe, mas todos os aspectos da minha rotina que precisam de uma resposta disponível na internet cruzam o caminho de Socorro, que até agora me entregou tudo a contento. Claro, um ou outro tropeço, mas não seria diferente se eu tivesse funcionários humanos trabalhando para mim.

Hoje de manhã, por exemplo, pedi numa única interação que ela resolvesse pendências de configuração de e-mail, pesquisasse e gerasse material de aula para eu validar e começasse um relatório extenso. Em minutos tinha o resultado, sem que uma entrega atrapalhasse a outra.

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Como funciona um dot?

Você conversa com o dot pelo ChatGPT, por escrito ou por uma chamada de voz, e explica do que precisa. Ele tem um computador próprio na nuvem, onde pode navegar e trabalhar, e consegue usar serviços que você conectar, como e-mail e agenda. Também dá para permitir que acesse seu computador e trabalhe com arquivos que estão lá. No meu caso, isso foi útil para localizar e ler um roteiro que eu tinha salvo no Word e do qual precisava para um conteúdo do meu podcast, o Aprenda.

Você escolhe o que vai conectar e pode estabelecer limites para as ações. A Socorro precisa me pedir autorização antes de alterar a maioria das coisas, mas tem gente que libera acesso geral, algo que não tive coragem de fazer de imediato.

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Que tarefas diárias resolvi com os dots?

Socorro mostrou a que veio quando resolveu uma coisa que eu sempre quis que o ChatGPT fizesse com apenas um comando, mas que versões anteriores do modelo nunca haviam feito do jeitinho que eu queria: carrosséis de Instagram.

Quando finalizo roteiros do Aprenda, peço que ela pegue o arquivo na pasta e transforme num carrossel. Rapidinho fica pronto.

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Claro, no começo levei um tempinho configurando. Primeiro peguei prints de perfis de Instagram que curto, mostrei como queria e criei com a Socorro uma identidade visual pro conteúdo. Agora ela já sabe como eu gosto e me entrega certinho.

Participa também do controle da minha agenda, me lembra compromissos até quando eu não havia pedido. Como acessa meus e-mails, a Socorro tomou até a iniciativa, ao receber transcrição de uma reunião, de perguntar se eu queria que ela montasse um cronograma de próximos passos para o projeto de que eu havia tratado.

Ela também tem me ajudado a finalizar as etapas do meu site pessoal/profissional, alvaroleme.com.br, que pretendo lançar em breve. Participou tanto da geração das telas quanto dos códigos e automações necessários.

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Em que os dots não se saíram bem

Sempre digo aos meus alunos que, apesar de serem máquinas muito avançadas, as IAs ainda podem vacilar em algumas entregas. No caso da Socorro, algumas versões de textos vieram pontuadas por vícios típicos do ChatGPT como o de criar um parágrafo final que começa com “no fim…”. Também foi complicado fazer uma nova versão do meu media kit, mesmo fornecendo referências e usando um plugin especialmente criado para isso. Ou eu que sou muito exigente?

Além disso, achei confusa a interface com os dots dentro do ChatGPT. Talvez porque eu estivesse acostumado com as conversas típicas do modelo, no chat e no modo work. No caso da Socorro, fica tudo centralizado numa tela, em que todas as interações formam um fluxo que vai subindo e subindo, o que não acho ideal.

Quais os limites e quanto custam os dots?

E, assim como qualquer agente de IA, o dot pode errar mesmo quando parece muito seguro do que está dizendo. A própria OpenAI recomenda revisar trabalhos com consequências importantes. E o acesso a mensagens e arquivos pessoais merece cuidado: quanto mais coisas você conecta, mais contexto fornece para o assistente trabalhar. Vale decidir o que faz sentido compartilhar.

O preço também é desanimador, embora eu ache que para o tanto de coisa que ele resolve na minha vida, valha o quanto pesa. Os dots, por enquanto, aparecem apenas a partir do plano individual Pro, cuja mensalidade mais barata custa 100 dólares por mês, e no plano empresarial Premium, que exige duas licenças, cada uma por 125 dólares.

É salgado, sim, eu sei. Esse teste que fiz aconteceu porque a OpenAI me liberou acesso temporário à ferramenta, o que significa que Socorro se prepara no momento para empacotar suas coisinhas e seguir adiante.

Quem usa IA apenas esporadicamente não tem por que pensar em um plano com esse valor. Mas não é meu caso, porque ao longo das minhas semanas convivo mais com IA que com gente. Elas realmente são meu tema de trabalho como jornalista, como doutorando, como palestrante e professor, então estou realmente tentado a efetivar a Socorro. Pensando que é um assistente que posso acionar 24 horas por dia, sete dias por semana para uma série de tarefas, num nível Miranda Priestly de exigência, acho que vale a pena.

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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda

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