“100% do código do Claude Code é escrito por ele mesmo”
A declaração é de Henrique Savelli, executivo da Anthropic, que falou sobre a IA sensação do momento e do futuro da tecnologia no Brasil
Cem por cento do código do Claude Code, ferramenta de programação mais badalada do momento, é escrito pelo próprio Claude Code. E 90% de todo o código produzido dentro da Anthropic, criadora do produto, já é gerado por agentes de IA. Os números foram apresentados por Henrique Savelli, arquiteto de IA da empresa nesta quarta-feira, no StartSe AI Festival, em São Paulo, na primeira aparição presencial de um representante da empresa num evento brasileiro.
Por que isso importa para o cidadão comum, como muitos de vocês e eu? Não é apenas curiosidade interna de empresa de tecnologia? Não é, não. O dado ilustra, de forma concreta, a velocidade com que o trabalho técnico está sendo delegado a máquinas. Vou fazer uma comparação meio tosca, apenas a título de ilustração: imagina uma geladeira que construísse suas próprias peças deixando aos humanos apenas a função de verificar se foram feitas corretamente. É algo muito impressionante, e sugere o ritmo com que isso vai acontecer em outros setores.
Programação é uma atividade tradicionalmente difícil de automatizar, porque exige lógica encadeada, resolução de erros imprevistos e tomada de decisão constante. Se uma empresa que constrói modelos de IA (e portanto conhece melhor do que ninguém os limites dessa tecnologia) já delegou um percentual tão alto aos próprios agentes, isso consolida mudanças relevante na cadeia produtiva.
Na palestra, Savelli explicou também a lógica por trás desse modelo. Um agente é a combinação de dois elementos: o modelo em si — o Claude, que funciona como o cérebro — e o que a empresa chama de harness, a estrutura que envolve esse modelo com ferramentas, contexto e capacidade de verificar e corrigir sua própria execução. Quanto melhor o modelo, mais poderoso o agente. Quanto mais bem construído o harness, mais eficiente o resultado. Foi essa combinação que permitiu ao Claude Code não só escrever código por humanos, mas escrever o próprio código que o melhora.
Savelli também apresentou um critério prático para empresas avaliarem quando faz sentido adotar agentes: o entregável precisa ser bem definido, o contexto necessário para executá-lo precisa estar acessível de forma conectada, e revisar o resultado gerado pelo agente precisa ser mais rápido do que produzi-lo do zero. Se as três condições forem atendidas, o caso de uso é inquestionável. E mencionou como um exemplo disso outro produto da empresa, o Claude Design.
A presença da Anthropic no palco paulistano não é coincidência. O Brasil é o terceiro maior mercado do Claude, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia, e no mercado é dado como certo que a empresa abrirá escritório em São Paulo num futuro próximo, com estratégia voltada para o segmento corporativo. Savelli foi o primeiro representante da empresa a participar de um evento presencial no país, o que, no vocabulário corporativo, costuma ser chamado de movimento estratégico, mas que na prática significa: a Anthropic decidiu que o Brasil vale o esforço de aparecer.
A chegada coloca a empresa em disputa direta com a OpenAI em São Paulo, que também trabalha para consolidar estrutura própria na capital. A briga entre as duas maiores empresas de IA do mundo, que até aqui acontecia nos servidores e nos benchmarks, ganha agora endereço na cidade. “Ninguém escreveu ainda o playbook brasileiro sobre como utilizar IA, como utilizar agentes”, declarou Savelli. “Vocês que estão aqui hoje são as pessoas que vão escrever isso.”
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos







