Expedição Pantanal: viajamos 1200 quilômetros com a nova Ram Dakota
Encaramos o terreno desafiador do Mato Grosso do Sul para testar a primeira caminhonete média da marca americana
Na época da cheia, quando a planície do Pantanal fica alagada, atravessar a MS-184 é uma aventura. São 116 quilômetros de estrada de terra com 74 pontes de madeira construídas nos pontos mais sensíveis que cortam os municípios de Miranda, Corumbá e Ladário. Os pantaneiros acreditam que este ano será de cheia, mas por enquanto o cenário é outro. A vegetação está bem verde, quase avançando pela estrada. A chuva chega sem aviso e transforma a terra em uma escorregadia camada de lama. Ligamos a tração 4×4 do carro e seguimos com destino a Corumbá, na fronteira com a Bolívia.
O cenário desafiador do Pantanal foi escolhido para o teste da Dakota, nova caminhonete média do portfólio da Ram que chega agora ao mercado. O modelo foi apresentado no ano passado – e chegamos a dar uma volta nela em um circuito off-road -, mas começa a chegar aos concessionários neste início de ano. E chega com a missão de enfrentar rivais de peso do segmento.
A Dakota resgata o nome de uma outra caminhonete fabricada no Brasil, em Campo Largo, no Paraná, entre 1998 e 2001. Na época, a Dodge Dakota (quando Dodge e Ram eram uma marca só) não fez tanto sucesso, mas deixou saudade. Agora, com a primeira picape média da Ram, o nome tenta recuperar parte dessa nostalgia.
A plataforma é compartilhada com a Fiat Titano, criada sob a base da chinesa Changan Hunter. Diferentemente da Fiat, no entanto, a Dakota ganhou mudanças no visual, ganhou um acabamento mais refinado e um pacote de tecnologias. Sob o capô, o motor 2.2 turbo diesel de 200 cv e 45,9 kgfm que já equipa outros modelos da Stellantis, como a Rampage.
Durante quatro dias, convivemos com a Dakota em estradas de terra, asfalto, trilhas e até balsas. Foram 1.200 quilômetros percorridos para entender do que ela é capaz. E se tem os predicados para encontrar seu lugar em um disputado segmento.
Parte 1 No alto do Paxixi
Com a terra seca, a subida até o mirante do Morro do Paxixi, em Aquidauana, não é tão assustadora. A estrada é íngreme, sem nenhum trecho asfaltado, mas a imprevisível chuva da região deu uma trégua e o calor intenso secou a terra, que está bem compactada. O desafio é conseguir enxergar em meio à poeira levantada pelos veículos da frente. São cerca de 15 minutos de trajeto. Ligamos a tração 4×4 com ativação automática só por via das dúvidas. No alto, há um espaço para estacionar. Deixamos a Dakota e encaramos mais um percurso de trilha, agora a pé, até o mirante.
O Morro do Paxixi é uma das principais paradas turísticas entre Campo Grande e Bonito. Do alto de seus 700 metros de altura é possível ver a transição entre os dois biomas da região, o Cerrado e o Pantanal. A visão é impressionante: a planície pantaneira se estende por quilômetros. Do alto, dá para ter uma ideia da vastidão do bioma.
O Morro do Paxixi foi uma das primeiras paradas. Nossa viagem começou no aeroporto de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Embarcamos em uma das Dakotas – no nosso caso, a versão de entrada Warlock, de pegada mais off-road, com pneus de uso misto, aro 18, detalhes escurecidos, santo antônio (ou Rambar, como a marca chama o equipamento) e visual interior mais sóbrio. Há outra, a Laramie, com detalhes cromados e interior com elementos na cor marrom.
O caminho até o mirante passa pela BR-262, uma das mais extensas do país, que corta os estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul. É uma rodovia movimentada, com fluxo intenso de caminhões e carretas. Um cenário ideal para testar o motor da Dakota. Com 200 cv de potência e todo o torque entregue mesmo em baixas rotações, as ultrapassagens foram feitas de forma tranquila. A potência é bastante satisfatória e se reflete na boa aceleração (o 0 a 100 km/h é feito em 9,9 segundos), especialmente nas retomadas já em maior velocidade.
Seguimos nessa toada, desviando de caminhões e acelerando pela BR-262, até o Terroir Pantaneiro, a primeira e, por enquanto, única vinícola do Mato Grosso do Sul. Até pouco tempo atrás, a ideia de cultivar uvas viníferas no Pantanal era absurda. Agora, graças às técnicas da dupla poda, há vinícolas em quase todo o território brasileiro. Nossa parada foi só para o almoço – dessa vez, sem vinho. A comida é muito boa, o atendimento é atencioso e o visual é impressionante. O restaurante tem uma vista privilegiada para o Morro do Paxixi ao fundo. Quem quiser, pode levar as garrafas da primeira safra para casa.
Voltamos ao volante da Dakota para encarar mais algumas horas de estrada até nosso destino final, o Passo do Lontra, um dos mais tradicionais da região do Pantanal Sul. O parque-hotel hoje é administrado pela terceira geração da família e se tornou referência especialmente entre os entusiastas da pesca esportiva, que acontece ao longo de todo o ano, com exceção da Piracema, período de migração reprodutiva que acontece entre 5 de novembro e 28 de fevereiro.
Na rodovia, outra constatação interessante. Com o tanque de 80 litros, a Dakota pode fazer mais de 800 quilômetros, já que o consumo declarado pelo Inmetro é de 10,8 km/l no ambiente rodoviário. Obtivemos médias melhores, no entanto. De acordo com o computador de bordo, alcançamos pouco mais de 12 km/l no trecho. Ou seja, só precisaríamos abastecer ao final do segundo dia de viagem.
Já com o sol se pondo, chegamos ao trecho da MS-184 que dá acesso ao Passo do Lontra. Hora de descansar que ainda há muito chão pela frente.
Parte 2 Em busca de jacarés
O dia começa com um longo trecho de estrada de terra. Pegamos primeiro a MS-184, depois a MS-228 com destino a Corumbá. Nada de asfalto, apenas terra e, logo, lama, resultado da forte chuva que não deu trégua durante boa parte do trajeto. Uma boa oportunidade para testar a tração da Dakota.
Ela tem a opção de tração 4×2 convencional ou 4×4 automática, que manda normalmente força para as duas rodas dianteiras, mas ativa a força nas duas traseiras quando o sistema sente necessidade. Há ainda uma opção de bloqueio mecânico do diferencial traseiro e a opção de tração com reduzida, voltada para trechos mais extremos. É possível ainda selecionar quatro tipos de direção: Normal, Sport, Neve e Lama/Areia.
Não precisamos ativar a reduzida, mas selecionamos o modo “lama”. O controle de tração e estabilidade é automaticamente desligado e o controle fica na mão do condutor. Assim, o carro não fica tentando corrigir a cada “patinada” na lama. O sistema é responsivo e dá segurança em trechos mais escorregadios.
No meio da rodovia está o Rio Paraguai. Sua largura varia de acordo com a época da cheia, mas normalmente fica entre 100 e 300 metros. Para atravessá-lo, é preciso embarcar em uma balsa que comporta apenas seis carros por vez. É uma operação interessante de acompanhar. O balseiro orienta os motoristas, que entram de ré (ponto para o sistema de câmeras, que fornece uma visão 540°, com projeção do alto e opção de chassi invisível, em que é possível ver o entorno). O percurso é rápido, cerca de 5 minutos.
De volta à terra, seguimos com destino a Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Lá, vamos ver jacarés. O animal é um dos mais emblemáticos do Pantanal. A espécie mais conhecida é o jacaré-do-pantanal, mas há outras, como o jacaré-de-papo-amarelo. É também muito consumido por lá. Sua carne é branca, de textura semelhante ao frango e sabor que remete a peixes mais firmes, normalmente preparada em churrascos. Chegamos ao porto e estacionamos a Dakota. Hora de mudar de meio de transporte por alguns momentos.
A focagem de jacaré, como é conhecida, é uma atividade comum. A bordo de pequenos barcos com motor – que alcançam quase 50 km/h -, subimos o Rio Paraguai. É noite e toda a iluminação vem da lua, que hoje está encoberta, e da lanterna do nosso guia. Ele conduz o barco a áreas próximas da margem, em meio à vegetação, percorrendo as folhas com o facho da lanterna. O que denuncia os jacarés escondidos é o brilho dos olhos. Alguns mergulham e somem com a nossa aproximação. Outros parecem não se importar. Conseguimos chegar bem perto de um, boiando tranquilamente. Eles não são agressivos com pessoas – o guia diz que é quase impossível ele atacar alguém. E ter a chance de ver um tão de perto é uma experiência incrível.
Parte 3 Flutuando no Rio da Prata
Com o tanque cheio – já rodamos cerca de 600 quilômetros e a autonomia projetada ainda era de pouco mais de 200 quilômetros, mas o trecho é mais longo e nem sempre encontramos postos no caminho – retomamos a viagem.
Hoje, nosso destino é a cidade de Bonito, capital do ecoturismo da região – e que marca uma transição para o bioma do Cerrado. Para chegar lá é preciso percorrer novamente a BR-262. O longo trecho, de pouco mais de 400 quilômetros, é uma oportunidade de analisar com atenção a qualidade de vida a bordo da Dakota.
Ao contrário da Titano, a nova picape da Ram ganhou mais sofisticação. Isso se reflete na qualidade do acabamento interno, com superfícies macias ao toque e uso de couro legítimo nos bancos. Na versão Warlock, o acabamento interno é escurecido, incluindo o teto. Na Laramie, o acabamento é claro, com bancos e elementos no painel na cor marrom. Do lado de fora, elementos cromados chamam a atenção. São detalhes alinhados à estética da marca americana.
Há botões físicos para diversas funções da central multimídia, como ajustes do ar-condicionado. Há outros acessíveis apenas no volante, como o volume do som ou a troca de músicas. A central multimídia tem boa resolução, e o painel de instrumentos totalmente digital é totalmente customizável. Os bancos têm ajustes elétricos e é fácil encontrar uma boa posição de dirigir. Quem viaja na segunda fileira tem menos espaço, como é comum em picapes médias. Mas há outras mais apertadas.
A caminho de Bonito, fazemos uma parada no Recanto Ecológico Rio da Prata, um dos mais tradicionais da região, conhecido pela boa comida, com menu assinado pelo chef Paulo Monteiro, referência na cozinha pantaneira, e pelas atividades, especialmente a flutuação no Rio da Prata. Funciona assim: os visitantes passam por um curso rápido para aprender a usar a roupa de neoprene, fundamental para manter a temperatura corporal nas frias águas do rio, e respirar com o snorkel. Depois, um barco (elétrico, movido a energia solar), leva o grupo a um trecho do rio, e todos voltam flutuando na água, observando o movimento das mais de 60 espécies de peixes que vivem por ali. É de tirar o fôlego.
Não à toa, os horários são concorridos e é preciso reservar com bastante antecedência. No dia da visita, o espaço estava repleto de visitantes internacionais. Havia um grupo de viajantes argentinos que estão passeando pela América do Sul a bordo de carros 4×4, além de turistas falando inglês e chinês. “Sempre recebemos muitos argentinos, muitos ingleses e holandeses. Agora, percebemos a chegada de viajantes asiáticos, especialmente chineses”, conta o guia. Em geral, há mais turistas estrangeiros que brasileiros nos destinos pantaneiros.
Voltamos ao volante da Dakota para mais um trecho curto até Bonito. Pela vocação turística, a cidade tem uma boa infraestrutura hoteleira e de bares e restaurantes. O Juanita é parada obrigatória. O menu é extenso, com opções para todos os gostos, mas é ideal pedir a carne de jacaré, servida de diversas formas, e o pacu na brasa, peixe extremamente saboroso que é o carro-chefe do restaurante.
Parte 4 De volta a Campo Grande
Último dia de teste com a Dakota. A meta é retornar a Campo Grande, nossa última parada antes de trocar de meio de transporte e embarcar em um avião. O trajeto é majoritariamente rodoviário, passando por estradas de asfalto que já havíamos percorrido.
No caminho de volta, impossível não refletir sobre a complicada tarefa da Dakota: enfrentar rivais consolidadas no mercado, como a Hilux, da Toyota, e a Ranger, da Ford. Nas estradas, vimos muitas caminhonetes – e muitas de marcas concorrentes. O consumidor da categoria de picapes médias valoriza a confiança na marca. E Hilux, Ranger, S10 e L200 estão no mercado há muito tempo. Desde que chegou, a Ram conquistou bastante espaço. Reinou sozinha no segmento das picapes grandes – e vimos muitas 2500 cortando as estradas sul-mato-grossenses. A Rampage também encontrou um público interessado. Ao apostar na sofisticação do acabamento e nas tecnologias embarcadas, a Dakota pode ganhar força.
Por enquanto, ela é oferecida em duas versões: Warlock, por R$ 289.990, e Laramie, por R$ 309.990. Nessa faixa, enfrenta os modelos de entrada das rivais, mas oferece um pacote de tecnologias robusto. Deve ganhar uma nova versão de entrada, Big Horn, que custará ainda menos e deve cortar alguns elementos de acabamento e tecnologias, mas manter a tração nas quatro rodas.
A tarefa não será fácil. Mas nossa experiência no desafiador território pantaneiro mostra que a Dakota tem potencial para encontrar seu espaço.





