Zé Felipe, Ana Castela e mais: versões nacionais de hits gringos voltaram
Sucessos do streaming como o pagode Coração Partido e a sofrência Sua Boca Mente reavivam uma antiga tradição
“Esse toque só o Brasil tem”, admitiu o hitmaker espanhol Alejandro Sanz após ouvir Coração Partido, adaptação nacional de Corazón Partío, originalmente lançada em 1997. Nas mãos do grupo Menos É Mais, a faixa chegou ao público em agosto de 2024 e se tornou ouro: é a terceira canção mais ouvida por usuários brasileiros da plataforma em 2025 e também o primeiro pagode a encabeçar a principal parada do serviço. O fenômeno atesta que uma velha (e capciosa) tradição está de volta: as versões brasileiras de sucessos importados. Feitas por artistas locais no compasso da globalização, elas são abraçadas por expoentes de diversas vertentes. De tão prolífico, o filão pode parecer descomplicado — mas está longe de sê-lo. Para toda boa versão chiclete que chega à luz do dia, afinal, há também as traduções que passam vexame, além daquelas que nem se concretizam devido às negociações difíceis com os estrangeiros que são donos das canções.
É desafiador delimitar uma origem exata para esse tipo de versão musical. A prática, porém, foi popularizada em meados do século XX, com a ascensão do rock’n’roll nas rádios. Celly Campello, por exemplo, fez carreira adaptando hits de cantoras e grupos americanos, de modo que é difícil encontrar algum brasileiro que prefira Stupid Cupid, de Connie Francis, ao clássico Estúpido Cupido. Pouco mais adiante, seu exemplo abriu portas para a Jovem Guarda estourar com devoção despudorada pelo que vinha de fora. De lá para cá, a prática entrou, saiu e entrou de novo na moda. Às vezes, com efeitos traumáticos. Na década de 1990, o Nenhum de Nós transformou Starman, de David Bowie, na medonha O Astronauta de Mármore, enquanto o Capital Inicial verteu um clássico de Iggy Pop na frugal O Passageiro. O vexame chegou ao ápice com Kiko Zambianchi assassinando Hey Jude, dos Beatles. No pop, Sandy & Junior e Wanessa Camargo fizeram uso das versões à exaustão. Não por acaso, a prática é vista na indústria não só como atalho para o sucesso, mas um modo de dar certa sofisticação importada à imagem dos intérpretes.
De fato, a familiaridade do público com uma melodia garante atenção. Nem sempre, contudo, a aposta é infalível. “É pouco provável que essas coisas sejam previsíveis”, atesta o experiente produtor João Marcello Bôscoli. E errar a mão pode ter preço alto. Primeiro, é preciso encarar uma maratona que passa pela negociação com a editora da música original, a análise da nova gravação e da tradução da letra para o português pelos compositores e produtores da faixa original. Claro que o porte do artista brasileiro e de sua gravadora ajuda a quebrar barreiras. Mas as estrelas gringas delimitam a divisão do lucro e podem até exigir retenção total da receita, sem deixar um tostão aos criadores da versão. Por fim, o retorno de fora pode levar meses e o pagamento pelos direitos pode chegar às dezenas de milhares de reais. A especialista em direitos autorais Bruna Campos conta que Pantera Cor-de-Rosa, da dupla Munhoz e Mariano, demorou quatro meses para ser aprovada e que a receita foi dividida em 50% para cada parte, os sertanejos nacionais e o espólio do compositor Henry Mancini. O Grupo Versão!, que repagina hits gringos com sonoridades locais, explica seu macete: a liberação é mais fácil quando a estrutura musical e as letras permanecem intactas. Em novembro, tocaram hits de Dua Lipa como pagode para a própria pop star, que estava em turnê no país. “Ela disse que adorou as versões. Ficamos em êxtase”, assegura Bebel Ferreira, cantora e percussionista do grupo.
a sertaneja encara hit da musa inglesa (Gareth Cattermole/Getty Images; @OficialPaulaFernandes/Facebook)
Hoje, é comum encontrar a prática no sertanejo. Paula Fernandes já adaptou Taylor Swift, Lady Gaga e ataca de Adele em single lançado há duas semanas. A primeira foi um sucesso, já a segunda virou piada devido ao refrão traduzido pela metade: “Juntos e shallow now”. A terceira, Amar de Novo, ainda não fez muito barulho. Quem tem se dado bem, por outro lado, é a dupla Zé Felipe e Ana Castela, muito menos fiéis ao material original. A partir da romântica You’re Still the One, de Shania Twain, o casal concebeu Sua Boca Mente, que acumulou 55 milhões de visualizações no YouTube em dois meses. A versão, curiosamente, é mais alinhada à sofrência daqui que à balada que fez sucesso nos EUA, assim como Coração Partido está longe do pop latino de Sanz. No feirão dos hits importados, fidelidade ao original é o de menos.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974





