Taylor Swift abraça mística das vedetes – e o que isso diz sobre ela
Com o álbum The Life of a Showgirl, cantora presta homenagem às divas que levavam os homens à loucura – e viraram símbolo de empoderamento
Musa do cinema alemão, Marlene Dietrich (1901-1992) tinha fama de ser uma diva difícil, do tipo que não olhava para os mortais a seus pés. Tal persona condizia com a figura que ela mais interpretou no cinema: a cantora e vedete sensual, capaz de causar delírios na plateia — e a ruína de homens desavisados, como ocorre no filme O Anjo Azul (1930), o primeiro dela a encarnar esse arquétipo. Surpreende então uma história narrada por sua biógrafa Charlotte Chandler: segundo ela, Marlene exigia no camarim de seus shows uma geladeira grande e vazia. Ao fim de cada apresentação, a plateia a aplaudia de pé, eufórica, jogando rosas no palco. Quando todos iam embora, Marlene trocava o salto alto por uma sapatilha baixa e voltava ao tablado, recolhendo as flores que seriam guardadas na enorme geladeira. No show seguinte, os fãs logo eram munidos com os mesmos ramalhetes, que voltavam a ser jogados no palco. O ciclo ia até o fim da turnê — e as rosas, já murchas, continuavam apresentáveis, ao menos a certa distância.
A anedota aparentemente melancólica é um ótimo exemplo da rotina daqueles que se dedicam ao mundo do entretenimento: nem tudo são flores — mas olhando de longe, parece que sim. A divisão entre o glamour do palco e a vida real foi a inspiração de Taylor Swift para seu novo álbum, The Life of a Showgirl, que acaba de chegar às lojas e às plataformas de streaming, acompanhado de um filme lançado em cinemas selecionados. Ao evocar a magia das vedetes — showgirls, em inglês — como personagens centrais de toda a estética visual do disco, Taylor acena para um amplo contexto histórico, enquanto celebra as divas do pop que vieram antes dela.
Estrelas de cabarés, as vedetes proliferaram na França, Alemanha e Inglaterra no fim do século XIX, combinando humor, sensualidade e roupas diminutas para a época — sendo um atrativo especial para o público masculino. Viraram musas do artista francês Henri de Toulouse-Lautrec, ávido frequentador da casa de espetáculos Moulin Rouge, em Paris, e cruzaram o oceano até os Estados Unidos, graças especialmente a filmes como os estrelados por Marlene Dietrich. De símbolos da liberdade sexual e da modernidade, as vedetes decaíram empurradas pelas agruras da Segunda Guerra Mundial: na Alemanha, as artistas das casas de show foram duramente reprimidas pelo nazismo. Depois, o crescente apelo por políticas moralistas as atrelou à prostituição.
Brilhos e plumas viraram sinônimo de decadência feminina — e acabaram relegados a redutos libertinos, como Las Vegas. Nos anos 1990, um furacão chamado Madonna tirou as vedetes do ostracismo e lhes deu um banho de loja, misturando mais referências sexuais para a provocativa turnê The Girlie Show, do álbum Erotica. No auge da carreira, a cantora cravava de vez a imagem da estrela do pop poderosa, sensual e rebelde — reproduzida até hoje por suas sucessoras, entre elas Lady Gaga, Britney Spears e, agora, Taylor Swift.
A cantora americana de 35 anos, que começou no country antes de ir para o pop, está em uma das melhores fases de sua carreira — e da vida pessoal. Taylor anunciou o novo álbum no podcast do noivo, o jogador de futebol americano Travis Kelce: ele, aliás, a pediu em casamento logo após essa gravação. Taylor garantiu que The Life of a Showgirl era exuberante, elétrico e vibrante, transmitindo as emoções vividas nos bastidores da gigantesca The Eras Tour, que rodou o mundo entre 2023 e 2024. As mais de 150 apresentações (seis delas no Brasil) somaram 2 bilhões de dólares em arrecadação — um recorde difícil de ser superado. Com a turnê, Taylor não só ficou bilionária como atraiu o jogador bonitão, que professou seu interesse por ela em um dos shows, e ainda conseguiu de volta o direito das suas músicas do início da carreira — que estavam com a antiga gravadora. Vitaminada e feliz, a loira se desprende de vez da imagem de jovem ingênua com a sensualidade do ensaio fotográfico burlesco do disco. Ficou clara a mensagem: Taylor Swift é a dona do próprio nariz — e de todo o resto do corpo malhado. Nada mais adequado à nova fase do que se empoderar como uma vedete e celebrar a mística feminina.
Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2025, edição nº 2964





