Jacob Collier, Laufey e mais: os jovens artistas que fazem pop com classe
Novos talentos se apropriam do universo erudito, do jazz e da bossa nova para tecer um pop que não abdica — ainda bem — de referências refinadas
Numa roda de choro no Rio de Janeiro, os músicos são acompanhados por um inglês franzino de cabelos espetados. Em vez de tocar violão ou algum instrumento convencional, o rapaz acompanha o batuque com uma escaleta (instrumento de sopro com um pequeno teclado acoplado a ele) — que aprendeu a manusear na adolescência por admirar o bruxo Hermeto Pascoal. Aos 31 anos, Jacob Collier havia acabado de chegar ao Brasil naquela terça-feira 9 para uma semana cheia. Não só tocou para os frequentadores do bar, mas para uma plateia de 4 000 pessoas na casa noturna Vivo Rio e para os habitués da filial carioca do clube de jazz Blue Note, antes de voar para São Paulo e se apresentar nas duas últimas noites do festival The Town — onde cantou com uma fã declarada, Sandy. A naturalidade com a qual transita entre espaços e gêneros é a prova de sua versatilidade: o jovem expoente do pop contemporâneo bebe do erudito, do jazz e de outras vertentes instrumentais. Colecionador de referências, Collier está até habituado a transformar suas plateias em coros afiados, alguns dos quais gravou e inseriu no disco Djesse vol. 4, imortalizando mais de 100 000 vozes. A engenhosidade lhe rendeu alcunha ousada e intimidadora no New York Times: Mozart da geração Z. Em 10 de outubro, ele dará mais um passo nessa carreira virtuosa precoce ao lançar seu quinto álbum de estúdio, The Light for Days, no qual faz releituras dos Beatles, Beach Boys e de James Taylor, entre outros. “Nunca houve um tempo mais livre para fazer música”, disse ele em entrevista a VEJA.
Collier integra uma nova safra de artistas que demonstram em alto e bom som: nem tudo está perdido no pop superficial e efêmero da era TikTok. Na geração que pede passagem na música atual, ainda há espaço para itens que deveriam ser a praxe, como a formação instrumental e o bom gosto. Ainda que, de forma compreensível, eles se valham das mesmas redes sociais para exibir seus dotes musicais. Em 2013, o menino de então 19 anos foi descoberto pelo lendário produtor Quincy Jones (1933-2024), que esbarrou com um vídeo dele no YouTube e decidiu se tornar seu agente. Desde então, Collier continua a viralizar, equilibrando-se entre parceiros prestigiosos e nomes mais chamativos na web. Já colaborou com Joni Mitchell, John Legend, Herbie Hancock, Chris Martin e Shawn Mendes. “A indústria costumava ser mais careta”, pondera, “mas a verdade é que nunca houve regras. Artistas que se arriscam e promovem cruzamentos interessantes são meus favoritos”.
Além de Collier, o filão é engrossado pela islandesa Laufey, de 26 anos. Menina-prodígio, ela foi solista da orquestra sinfônica de seu país no violoncelo, aos 15 anos, e se formou em música aos 22. Deixou as salas de concerto em segundo plano, contudo, para se apresentar em festivais ao redor do globo com seu trabalho autoral, no qual mistura bossa nova e letras românticas inofensivas, capazes de provocar identificação com as meninas. Em maio, subiu ao palco do festival Popload, em São Paulo, e cantou para uma multidão de garotas que emulavam seu estilo com laços na cabeça. Três meses depois, lançou o disco A Matter of Time e chegou ao Top 5 da Billboard 200. No tempo livre, ela utiliza as redes para divulgar suas canções e avaliar diferentes tipos de matchá, a bebida da moda.
O traço que distingue esse novo filão do pop é a capacidade de trafegar por referências elevadas sem perder a conexão com as massas. Antes mesmo de ser lançado, o novo single da inglesa Raye, Where Is My Husband?, já havia viralizado na internet pela agilidade do refrão. Ao contrário de Collier ou de Laufey, a artista não domina nenhum instrumento, mas dá banho com a voz rouca de mezzo-soprano que utiliza em improvisos vocais jazzísticos inspirados em Etta James e Aretha Franklin. “O jazz pode ir a qualquer lugar, mas é ao mesmo tempo emotivo, poderoso, belo e doloroso”, já teorizou. Com vestidos brilhantes e cabelo esculpido retrô, ela entoa seus lançamentos acompanhada de uma banda suntuosa.
Os novos talentos seguem uma trilha aberta por músicos como Jon Batiste, de 38 anos. O americano chegou ao estrelato e faturou o Oscar em 2021 com a trilha da animação Soul, da Pixar, provando que era possível transitar pelo jazz e R&B sem se divorciar das paradas e, de quebra, apresentando gêneros preciosos à geração Z. Fazer sucesso com classe não é simples — mas nossos ouvidos agradecem.
Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2025, edição nº 2962





