Entenda o que são as ‘montagens’, nova febre da música brasileira
As MTGs caíram no gosto dos jovens, que estão redescobrindo clássicos, dessa vez com batida moderninha

Nas últimas semanas, a sigla MTG — abreviação para “montagem” — tomou conta das paradas nacionais no streaming. Surgidas com os DJs da cena de funk e música eletrônica de Belo Horizonte, as MTGs nada mais são que remixes ou versões de músicas de sucesso, geralmente de estrelas da MPB, como Caetano Veloso e Seu Jorge — mas até gringas, como Billie Eilish. Com levada mais lenta, as MTGs caíram no gosto dos jovens, que estão redescobrindo clássicos, dessa vez com batida moderninha. Na Deezer, a montagem de Chihiro, de Billie Eilish, ocupa o segundo lugar no país. Em terceiro está Quem Não Quer Sou Eu, de Seu Jorge, feita por DJ Topo, MC Leozin e MC G15. Faixas como Cabide, de Martn’ália, e Morena Tropicana, de Alceu Valença, também figuram na lista.
Se as MTGs têm o mérito de resgatar o repertório do passado, como os hits Evidências e Sinônimos, de Chitãozinho & Xororó, elas esbarram numa polêmica: a legalidade da prática. Por se tratar de um movimento espontâneo, os DJs fazem e lançam as MTGs na surdina em serviços de streaming como SoundCloud ou YouTube, em que é mais difícil derrubar a canção por violação dos direitos autorais, para depois pedir autorização aos músicos. Nesses espaços, a versão ganha vida própria e pode viralizar de maneira notável. Mas sem que ninguém seja remunerado por isso: nem o DJ que fez a montagem, nem o compositor original da canção.

O fenômeno despertou preocupação na indústria. Maior hit do momento de um artista brasileiro, a montagem de Quem Não Quer Sou Eu foi aprovada por Seu Jorge em uma negociação intermediada pela distribuidora digital MusicPro. “É uma forma de trabalhar o catálogo antigo do artista e fazer ele voltar a render”, diz a executiva Brenda Espasandin. Já Alceu Valença não autorizou a versão, apesar de a MTG continuar circulando de maneira ilegal. Às vezes, o problema nem é o artista e, sim, a burocracia das grandes gravadoras, que demoram meses para dar uma resposta positiva ou negativa, tempo que o DJ não está disposto a esperar. Distribuidoras digitais como OneRPM e gravadoras menores, como a Trama, já avisaram que apoiam o movimento. “Proibir é muito careta”, diz João Marcello Bôscoli, sócio da Trama.
Publicado em VEJA de 5 de julho de 2024, edição nº 2900