Clique e Assine VEJA por R$ 9,90/mês
Imagem Blog

O Leitor

Por Maicon Tenfen Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Lendo o mundo pelo mundo da leitura. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
Continua após publicidade

O pós-moralismo do casal que desviou o dinheiro do filho doente

Os pais de Jonatas são os exemplos mais radicais e caricatos de uma época que virou as costas para as regras de qualquer moral coletiva

Por Maicon Tenfen 12 fev 2018, 08h42

Para o filósofo australiano Peter Singer, “como gastamos o nosso dinheiro?” é uma pergunta que possui implicações éticas irrefutáveis. Para exemplificar suas ideias, ele criou a fábula do menino que está se afogando num lago coberto de lodo pegajoso. Visto que o lago não é fundo para um adulto, qualquer pessoa consciente sacrificaria seus sapatos de marca para entrar no lodo e salvar a vida do menino. Por outro lado, pouquíssimas dessas mesmas pessoas estariam dispostas a usar sapatos mais simples para, com o dinheiro excedente, salvar a vida de crianças que, vivendo na miséria ou sofrendo de doenças raras, não têm acesso a alimentos ou medicação adequada.

— Por que não mudar essa lógica e gastar um pouco do que temos em caridade?

Deve ter sido esse o pensamento dos milhares que fizeram doações para Jonatas Openkoski, criança catarinense que sofre de uma doença degenerativa e precisa de 3 milhões de reais para o tratamento. Graças ao apoio de celebridades como Danielle Winits e André Gonçalves, as arrecadações chegaram a 4 milhões de reais. Seria um final feliz se os pais de Jonatas não tivessem torrado uma parte da grana. Mudaram-se para uma casa chique, compraram um carro de luxo e foram passar o réveillon em Fernando de Noronha. Os detalhes do caso podem ser encontrados na matéria publicada pela Veja desta semana.

Como é possível explicar que pais, mesmo jovens, tenham agido dessa maneira? É pouco provável que Peter Singer tenha uma resposta segura para a questão. Por isso vamos transferir a pergunta a outro filósofo, o francês Gilles Lipovetsky, um dos principais teóricos do que poderíamos chamar de “pós-moralismo”, período meio real e meio ideal em que viveríamos livres da onisciência de um Estado e de um Deus que nos obrigam a agir conforme as regras de uma moral coletiva. Os pais de Jonatas, nesse sentido, seriam os exemplos mais radicais e caricatos de uma tendência contemporânea global.

Continua após a publicidade

Desde o fim do século XX, segundo Lipovetsky, teríamos autonomia para criar a nossa própria moral e assim nos voltarmos a um individualismo que, através do consumo desenfreado, obedece a uma única e solitária lei: a satisfação irrestrita dos desejos individuais. Pouco importam as questões éticas envolvidas, sepultadas que foram pela superação do existencialismo sartreano. O narcisismo e o egocentrismo do nosso tempo não encontram culpas capazes de impedir os excessos mais irritantes. O resultado está aí, essa ingenuidade meio cara-de-pau que se alastra pelo mundo. Deve ser por isso que os pais de Jonatas compartilharam fotos das férias e do carrão.

Seria bom adaptarmos o raciocínio de Peter Singer à nossa década. A pergunta que possui implicações éticas irrefutáveis é: “como gastamos o dinheiro… dos outros”?

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 9,90/mês*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 49,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.