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É possível que Cristo fosse gay?

Se alguém se ofendeu com a conversa do Cristo gay, existem correntes para as quais Jesus era um marciano dotado de poderes cósmicos

Por Maicon Tenfen 31 jul 2018, 01h39

Esse cantorzinho aí do Recife que andou dizendo que “Jesus é bicha” está apenas chovendo no molhado.

Entre a virada de ano e as vésperas da Páscoa, as bancas de jornais, quando existiam, costumavam ser invadidas por publicações que traziam o rosto de Jesus estampado nas capas. Prometiam formas originais de interpretar passagens bíblicas polêmicas e com isso oferecer novos significados sobre quem teria sido o “filho de Deus”. Usadas à exaustão, a fórmula perdeu o impacto e se tornou banal.

Entender Jesus como uma espécie de Che Guevara palestino é um lugar-comum batidíssimo, até porque movimentos nascidos dentro da própria Igreja Católica — a Teologia da Libertação é um deles — contribuíram para que essa visão se espalhasse. Outros preferem enxergar o filho do carpinteiro como uma espécie de maconheiro “mutcho doidio”que vivia zanzando pelo deserto e bebendo vinho com a ralé.

Com a proliferação dos movimentos sociais, criou-se margem para a afirmação de que Cristo era negro, já que a Bíblia fala nos seus “pés cor-de-cobre”, e até mesmo de que era gay, pois beijava seus discípulos e os recebia em particular. Na época d’O Código Da Vinci, pouco faltou para dizerem que Jesus era mulher. Segundo essa versão, de qualquer forma, Cristo viveu com uma, Maria de Magdala, a quem teria confiado os segredos mais profundos de sua doutrina.

Falando em doutrina, há quem renegue o milagreiro para preservar o filósofo, sem dúvida um divisor de águas do pensamento ocidental, e há também quem pregue que Jesus nunca existiu fisicamente. Para esses, os fragmentos em que o historiador judeu Flávio Josefo cita o Messias não passam de uma fraude engendrada durante a Idade Média.

Se alguém se ofendeu com a conversa do Cristo gay, prepare-se para o que vem agora: existem correntes para as quais Jesus era um marciano dotado de poderes cósmicos, daí a “explicação científica” dos milagres e da sua própria ressurreição!

Essa multiplicidade de interpretações é condizente com nossa época, um período plural em que tudo é transformado em mercadoria de consumo subjetivo. Até há pouco monopolizada pela Igreja Católica, hoje a marca “Jesus” atende os mais diversos segmentos do mercado de bens simbólicos. Qual deles é o verdadeiro? Todos e nenhum, dependendo o veredito apenas das nossas necessidades políticas e espirituais.

De uma coisa, porém, podemos ter certeza. Jesus podia ser tudo, menos modesto. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse, ou disseram que disse, vá lá. Não é de admirar que tenham pregado o coitado numa cruz.

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