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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

Siga aquele foguete!

Comentarista do Futuro volta a dar uma de detetive e vai até 1989 investigar a farsa do goleiro Rojas no Brasil x Chile que decidiu quem ia à Copa da Itália

Por Claudio Henrique 31 ago 2021, 11h48

Boas novas do futuro para você aí que acordou tenso com a possibilidade de o Brasil deixar, pela primeira vez em sua história, de ir à próxima Copa: relaxa, isso não vai acontecer! Aliás, relax total: até 2021, de “quando” venho, seguiremos como único país do mundo a se classificar a todos os Mundiais – para o de 2022, no Catar (sério!), já estaremos praticamente confirmados, com ampla vantagem nas Eliminatórias. Deixei o futuro a poucos dias de mais um confronto com o Chile valendo para carimbar nosso passaporte. Por isso lembrei deste jogo de ontem, em que a seleção vencia e dominava os rivais até os 20 e poucos minutos da segunda etapa, quando aquele estranho foguete desceu das arquibancadas e, ato contínuo, o goleiro Rojas foi ao chão. Não vai demorar para surgirem fotos provando que a cena merece constar no Livro Guinness dos Recordes como o “espetáculo teatral de maior público”, mais de 130 mil no Maraca. O Chile vai se dar mal nessa história e Rojas até confessará que levou um bisturi para o gramado, planejando forjar sangue em algum momento. Mas daqui a 32 anos ainda terei uma pulguinha atrás da orelha com a tramoia. O que diabos teria feito a jovem Rosenery Mello (celebridade desde ontem) explodir o rojão justo perto do arqueiro, que o aguardava com a lâmina no bolso? Como e por que Rosenery sairá da delegacia direto para as páginas da Playboy, embolsando 40 mil dólares? Nesse mato tem coelho! E coelhinha também.

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Rosenery Mello do Nascimento na capa da PLAYBOY -
Rosenery Mello do Nascimento na capa da PLAYBOY – Playboy/Reprodução

“Podia acontecer tudo, menos isso”, disse o Galvão Bueno na TV (eu me lembro!), narrando a pressão brasileira desde o início da partida. Foram seguidos ataques e chutes perigosos a gol, todos parando no paredão Rojas, decididamente em noite inspirada. Sorte nossa que a mentira tem mão firmes mas pernas curtas… Pode anotar aí: a Fifa vai apurar tudo e punir severamente os principais envolvidos, banindo a trupe teatral do futebol. Estranhamente, daqui a alguns anos o ator principal da companhia, Rojas, será perdoado e voltará ao Brasil como treinador de goleiros do São Paulo – time pródigo em contratar jogadores argentinos e chilenos. O goleiro acabará assumindo como técnico do tricolor paulista, indo depois comandar o Comercial, de Ribeirão Preto, e os goleiros do Sport (PE). Ou seja: portas abertas no futebol brasileiro. Para tudo ficar mais suspeito, observem que o lance ocorreu quase aos 24 minutos e a “fogueteira” alçada ao estrelado tem… 24 anos! Ok, isso é só coincidência, mas qual a verdade por trás de Rojas, que em 2021 ainda estará morando no Brasil? Terá Rosenery recebido os dólares como pagamento pelo rojão? Eu precisava ir fundo nesta toca. E vim! Matar dois coelhos com uma só cajadada…

Nos próximos dias, você, querido leitor de 1989, vai se cansar de tanto ver fotos e imagens na mídia da “traidora do Brasil” Rosenery Mello, carioca com um certo ar ingênuo e ao mesmo tempo malicioso, atributos que a farão ficar diante das câmeras como veio ao mundo. Fiz questão de chegar sábado, véspera do jogo, para seguir os passos da moçoila, quietinho, “como coelho na moita”. Secretária na Light, a jovem carioca curtiu sua folga de sábado em casa, em São Gonçalo (Baixada Fluminense), de onde só saiu e só saiu uma vez, para ir ao mercado. “Siga o coelho branco!”, a frase, clássica, veio aos meus ouvidos. Lá fui eu… A ainda anônima Rosenery Mello do Nascimento Barcelos da Silva empurrava um carrinho, levando o filho de 10 meses. No futuro, posso revelar, terá mais 2 rebentos, num segundo casamento. Isso depois de torrar a grana que vai ganhar da Playboy em festas e viagens, tentar a sorte vendendo cachorro-quente em Brasília e, acreditem, com uma loja de fogos de artifício em São Gonçalo. Investirá ainda em um bar em Araruama (RJ). Mas o que haveria de suspeito naquele passeio inocente pelo bairro? Os vinhos chilenos vendidos no mercado? Os garotos na rua empinando pipas com linhas chilenas? Era pouco para provar nova versão para o episódio. Concluí que não ia dar pra levantar esta lebre.

Entrevista na PLACAR de 17 de novembro de 1989 -
Entrevista na PLACAR de 17 de novembro de 1989 – Reprodução/Placar

Veio o domingo e o jogão no Maraca. Apupos da torcida na hora do hino chileno parecem ter deixado os jogadores com ânimos acirrados. O primeiro confronto, dia 13 último, vocês sabem, já foi tenso. Ontem para eles era vencer ou vencer. O empate nos levaria a Roma. Chute de Careca; arremate de Valdo; o Brasil é só pressão. Branco cruza, Dunga dá uma ‘puxeta’ alçando a bola na área pra Careca cabecear de forma mortal, mas Rojas começava a mostrar que viera para roubar a cena. Outra cabeçada certeira e nova defesa do goleiro chileno. Silas quase marca e, logo depois, Branco dá um petardo cheio de efeito que engana todos os presentes no estádio. Menos Rojas. O primeiro tempo termina sem gols e o Brasil vai pro vestiário preocupado. Era preciso descobrir um jeito de furar a retranca chilena. Lazaroni precisava tirar um coelho da cartola.

Mas o treinador não trocou ninguém. Acreditava que no segundo tempo teríamos mais sorte – e certamente apertou forte nas mãos algum pé-de-coelho. Deu certo. Logo aos 4 minutos, Dunga pra Bebeto que lança Careca em corrida diagonal na entrada da área; ele arremata, Rojas ainda toca nela (ô, sujeito enjoado!) mas a bola entra: Brasil 1 x 0. Ufa… Era só cozinhar o jogo que a vaga na Copa estaria garantida. E assim foi. Até a “meiúca” do segundo tempo tudo parecia calmo e sereno, como um coelho branco sobre a neve. Mas, pra quem decidiu assistir ao jogo achando que seria “sem emoção”, preciso usar mais uma das muitas expressões populares que citam o fofinho e dentuço roedor: “comprou gato por lebre!”

Rojas sendo retirado de campo pelos chilenos -
Reprodução/Placar

Foi shakespeariano. No futuro, a arqueologia da farsa registrará imagens e detalhes de dar inveja às novelas da Globo. Carregado pelo jogadores para o vestiário, Rojas de lá saiu coberto por uma quantidade de sangue compatível com uma facada na barriga – quer dizer, no próximo século teremos facas que perfuram abdômen sem causar sangramento, principalmente em candidatos à Presidente da República, aguarde! Nunca saberemos exatamente quem fez o que, mas além de Rojas serão punidos mais quatro cidadãos, e este ‘spoiler’ faço questão de dar, sem alerta: o treinador Orlando Avarena, o médico Daniel Rodríguez e o dirigente Sergio Stoppel sairão dessa banidos do esporte; o capitão Fernando Astengo levará um gancho de quatro anos. Pior: o Chile, suspenso, não poderá disputar as Eliminatórias para a Copa de 1994. Sim, é bom todos já começarem a procurar seus advogados. Mas vou logo avisando: na Fifa ninguém acredita no coelhinho da Páscoa.

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Nos alfarrábios analógicos e digitais do esporte, estará para sempre registrado o placar de ontem: 2 a 0 pro Brasil. Isso mesmo. Não me perguntem porque mas a Fifa decidiu que seria este o resultado da partida após o abandono de campo do Chile. A punição e o afastamento de duas Copas consecutivas farão aumentar as feridas e dores que a La Roja guarda do Brasil. A primeira mágoa jamais perdoada vem do fato de o Brasil, na visão deles, ter surrupiado o crédito de inventores da Bicicleta no futebol – tanto assim que nas cercanias dos Andes e em alguns cantos do Planeta Bola a jogada é e continuará sendo chamada de ‘chilena’. Teria sido o espanhol naturalizado chileno Ramón Unzaga Asla e não Leônidas da Silva – ou o também brasileiro mas menos conhecido Petronilho de Brito – o criador do acrobático arremate. Quem está com a razão? É sempre bom lembrar a velha máxima: “coelho não bota ovo”!

O que importa é: estamos no Mundial! Mas sinto informar que ninguém deve se animar muito com isso. Lazaroni seguirá como técnico e persistindo em suas convicções táticas do 3-5-2. Dos jogadores que ontem garantiram a presença brasileira na Itália, Aldair, Silas e Bebeto vão assistir à estreia contra a Suécia esquentando o banquinho. Na disputa pela taça… Não vai dar pra nós. O máximo que posso revelar para diminuir o fracasso é sugerir à CBF que não faça, dias antes de começar a Copa, aquele tradicional amistoso com um “timeco” amador pra dar aquela goleada-levanta-moral. No futuro a nossa gloriosa história registrará um vergonhoso fiasco diante de um combinado de jogadores das terceira e quarta divisões do campeonato italiano. Vocês não terão nem como recorrer a uma frase que no próximo século será comum no futebol: “Não existe mais (coelhinho) bobo no futebol!”

FICHA TÉCNICA

Brasil 2 (W.O.) x 0 Chile

Data: 3 de setembro de 1989
Estádio: Maracanã
Local: Rio de Janeiro
Árbitro:  Juan Carlos Loustau (Argentina)
Assistentes: Francisco Lamolina (ARG) e Carlos Espósito (ARG)
Público: 131.156 pagantes
Renda: Cr$ 2.341.350,00

Brasil: Taffarel; Jorginho, Mauro Galvão, Aldair, Ricardo Gomes e Branco; Valdo, Dunga e Silas; Careca e Bebeto. Técnico: Sebastião Lazaroni

Chile: Roberto Rojas; Patricio Reyes (Ivo Basay), Hugo González, Fernando Astengo, Hector Puebla, Alejandro Hisis Araya, Jaime Pizarro, Jaime Vera, Jorge Aravena, Patricio Yáñez e Juan Carlos Letelier. Técnico: Orlando Aravena

Gols: Careca (BRA) aos 4′ (2T)

Cartões amarelos: Mauro Galvão (BRA); Hector Puebla e Alejandro Hisis Araya (CHI)

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