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Um mar de informação (por Beth Cataldo)

O que se assiste agora na televisão aberta

Por Beth Cataldo
Atualizado em 30 jul 2020, 19h03 - Publicado em 2 abr 2020, 12h00

A ampliação recente da oferta de informação jornalística nos canais abertos e fechados da televisão brasileira chama atenção não apenas pelo ineditismo, a ponto de ter se alterado a consagrada grade de programação da principal emissora nacional, como também pelo impacto que a dose elevada de notícias causa no cenário político. Uma vez superada a tragédia da pandemia do coronavírus, que embala a intensidade do noticiário atual, será possível saber se as consequências desse período serão ou não duradouras no ambiente de comunicação do país.

A rigor, o Brasil apenas se alinha neste momento a nações mais avançadas, que há muito convivem com uma carga de emissão jornalística muito mais robusta do que nos padrões locais. Aqui, na vitrine aberta da televisão, a estrela principal tem sido desde sempre uma sequência inesgotável de novelas. Os rigores do isolamento social impostos pela disseminação do Covid-19 levaram à interrupção da produção da área de entretenimento das emissoras e abriram espaço para que o jornalismo ocupasse o centro do palco – justo no momento em que a dramaticidade do noticiário amplifica sua repercussão social e política.

O país já conviveu antes com a excepcionalidade de horários alterados na programação dos canais abertos, mas quase sempre por motivos mais amenos, como a cobertura da Copa do Mundo de futebol ou das eleições. Ou seja, eventos previsíveis, com repercussão delimitada no tempo. Desta vez, não se trata apenas de lidar com o imponderável da extensão de uma pandemia ainda pouco conhecida nos meios científicos, mas também de materializar uma mudança estrutural na maneira como a maioria dos brasileiros consome informação jornalística.

O que se assiste agora na televisão aberta, em primeiro lugar, é uma alteração quantitativa de grande monta, traduzida no espaço de tempo ocupado pelos programas jornalísticos. Na Globo, a presença do Jornal Nacional estendeu-se para uma hora ou mais, invadindo o horário habitual da novela das 21 horas. No período da manhã, na mesma Globo, os programas jornalísticos passaram a ocupar nada menos do que 11 horas consecutivas, das 4 da manhã até as 15 horas, desde o Hora Um até o jornal Hoje, passando pelo Bom Dia local e nacional, com um pequeno refresco de inserção esportiva.

Há mudanças também do ponto de vista qualitativo. A rotação acelerada e fragmentada que sempre caracterizou os noticiosos da emissora líder de audiência passou a comportar matérias mais longas, reportagens mais completas e entrevistas com maior duração. Em tese, as chances de que a maioria dos telespectadores consiga se conectar com o sentido das notícias e suas consequências também se expande, incorporando parcelas antes alimentadas com pedaços de informação exibidas em ritmo demasiadamente frenético e telegráfico.

Panorama

É interessante observar que, na televisão aberta, predominam as reportagens e entrevistas, em contraponto ao amplo espaço reservado pelos canais all news, como a Globo News e a recém-inaugurada CNN Brasil, aos comentaristas, analistas e outras denominações que povoam suas mesas-redondas. Todas essas manifestações podem ser enquadradas no terreno da interpretação, mas as reportagens têm a característica notável de realizar uma incursão efetiva na realidade para dar concretude a temas que, muitas vezes, aparecem carregados de subjetividade por força de traduções muito pessoais.

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Sempre é possível contrapor esse panorama à perspectiva de que a internet, em particular as redes sociais, já se encarregam de disseminar uma carga informativa muito maior do que a ração habitual de uma década atrás. Mas também se pode argumentar que a programação das emissoras de TV, acessada por todos, ainda tem um peso excepcional no contexto de uma sociedade com limitações para navegar mais francamente no universo virtual ou mesmo para absorver as informações disponíveis. Assim, o noticiário televisivo mantém uma importância crucial na disseminação de informações.

Tudo isso justifica a avaliação de que a ampliação dos espaços para conteúdos noticiosos repercute de forma direta na formação da opinião pública, que confere aos programas jornalísticos da TV a liderança entre as fontes de informação mais confiáveis sobre a pandemia do coronavírus. Nada menos do que 61% responderam assim à pesquisa divulgada pelo Datafolha no último dia 23 de março. Em segundo lugar no ranking de confiança do instituto, encontram-se os jornais impressos, com 56%. Em escala decrescente, os programas jornalísticos de rádio não mereceram a confiança de mais do que 50% dos entrevistados.

O índice de confiança despenca quando se trata de analisar as informações veiculadas em sites de notícias, que não ultrapassaram a marca de 38%, seguidos pelas plataformas do Facebook e do WhatsApp, que coincidiram no irrisório patamar de 12%. Numa leitura inversa, 58% declararam que não confiam nas informações acessadas pelo WhatsApp e 50% responderam da mesma forma em relação ao Facebook. O descrédito dessas redes na veiculação de informações sinaliza que a sociedade brasileira aguçou sua percepção sobre as chamadas fake news, que encontram nessas plataformas terreno fértil para proliferaram.

A confiabilidade das fontes de informação é proporcional à capacidade de influírem no ânimo dos cidadãos e reverberarem, por tabela, na consolidação de tendências na opinião pública. É nessa encruzilhada que se encontra o noticiário televisivo ampliado e revigorado com o cenário político do país. Maior acesso a informações em que as pessoas dizem confiar tem o condão de impactar com muita potência o contexto político e social. O aumento da participação da sociedade – municiada com mais informação de qualidade para acompanhar a conjuntura – pode ser perturbador para núcleos de poder acostumados a se movimentar em círculos muito mais restritos.

Desafios

Para o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, que definem em conjunto as posturas públicas do governo, a notícia é duplamente relevante. Os embates diários travados com a imprensa profissional desde o período da campanha eleitoral podem ser percebidos agora em toda sua inteireza nesse período em que se expandiu o acesso à informação fornecida de forma organizada e crível. Em outras palavras, as histórias podem ser contadas de forma mais completa no noticiário da televisão e os arroubos do presidente mais facilmente se inserem em contextos que desnudam sua agressividade e imprevidência.

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O risco que correm as emissoras de televisão nessa aposta redobrada no jornalismo é o de perderem a atenção do público, que pode resvalar para a exaustão diante da intensidade e da dramaticidade do noticiário fortemente centrado na pandemia. Na entrevista coletiva em que reafirmou a importância de manter o isolamento social para a contenção do novo coronavírus – orientação desafiada por Bolsonaro menos de 24 horas depois –, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, aconselhou as pessoas a se abstraírem de acompanhar todas as informações sobre a trágica crise sanitária que se abateu sobre o mundo.

“Desliguem a televisão”, recomendou o ministro sob a justificativa de que o noticiário negativo “é muito tóxico”. À parte seu viés político, essa manifestação reflete reações muito comuns entre os que são expostos a um volume intenso e incessante de noticiário jornalístico, pontuado por informações em tempo real. Nesses momentos, as pessoas costumam se dividir entre aquelas que mergulham cada vez mais no noticiário, com um pendor quase obsessivo, e outras que preferem se afastar do contágio pela notícia desalentadora e contundente.

É nesse fio de navalha que caminham as emissoras que, como a Globo, apostaram no jornalismo como protagonista de sua programação, tendo como âncora a centralidade dos acontecimentos relacionados à pandemia. A questão mais relevante, no entanto, é saber se a maior exposição do público brasileiro ao noticiário jornalístico, nesses dias turbulentos, consolidará uma demanda perene por mais informação e conhecimento quando o covid-19 atenuar seus efeitos devastadores e a vida de todos voltar à rotina.

No cenário afirmativo, a pandemia poderá deixar uma herança transformadora no campo da informação.

Beth Cataldo – Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização na City University, de Londres. Atuou como repórter especial na revista Istoé e no jornal O Globo. Foi chefe de redação da sucursal do Jornal do Brasil, em Brasília. Na Agência Estado, em São Paulo, ocupou a Diretoria de Informação. No portal do G1, dedicou-se à análise dos fatos econômicos e políticos

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