Radicalismo e insensatez
O risco à estabilidade democrática vem da exacerbação do ódio político, alimentado pelas candidaturas de Lula e Jair Bolsonaro.
As circunstâncias históricas e os agentes são outros, mas em certos aspectos a conjuntura atual lembra a de 54 anos atrás, quando a radicalização política da esquerda e da direita culminou no golpe de 1º de abril de 1964.
Ainda que a situação hoje seja bem diferente e com peculiaridades próprias, o filme se repete. Não quanto ao risco de uma ruptura democrática patrocinada pelas Forças Armadas, que têm cumprido suas funções constitucionais e resistido ao canto das vivandeiras. O próprio comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, reafirmou nesta 3ª feira que defende o “respeito à Constituição, à paz social e à Democracia”, e que a instituição “se mantém atenta às suas missões institucionais”.
O risco à estabilidade democrática vem da exacerbação do ódio político, alimentado pelas candidaturas de Lula e Jair Bolsonaro. Episódios como os ocorridos na passagem da caravana de Lula no sul do país são um prelúdio do que estar por vir, se a bomba não for desativada a tempo.
Ninguém pode garantir como será o dia seguinte ao do julgamento do habeas corpus de Lula. Nem mesmo a ministra Carmem Lúcia. Seu pronunciamento na TV expressou a dramaticidade do momento, e, ao mesmo tempo, expôs a fragilidade da Suprema Corte para agir como polo moderador.
Há uma base social para a escalada da radicalização. Os seguidores de Lula insistem no discurso de que eleição sem Lula é fraude e há quem chegue a dizer que “vai morrer muita gente” se ele for preso.
A radicalização é ditada também pelo pragmatismo. Convém ao lulopetismo alardear que o Brasil está diante do impasse: ou Lula ou o fascismo. O palanque do Circo Voador juntou Lula, Manoela D’ Ávila e Guilherme Boulos com esse propósito. Esses são os “democratas”. Seus opositores os “fascistas”.
A direita também tem sua base social, e não é pouca. Aqui outra semelhança com 1964. Segmentos importantes deslocaram-se para Bolsonaro impulsionados pelas crises ética e de segurança.
Reduzi-los a fascistas serve à propaganda petista, mas não explica o fenômeno. No fundo, foi a própria degradação moral de governos petistas que os impulsionou à direita. De qualquer modo, surgiu daí uma “militância” bolsonarista aguerrida e truculenta.
Outro ingrediente é a falência dos freios e contrapesos do nosso arcabouço constitucional. Não apenas do Executivo, do Legislativo, mas também do Judiciário. O STF poderia fazer o papel de poder moderador, mas, ao contrário, ele tem sido fator de instabilidade com decisões casuísticas, comportamentos egocentricos e patéticos.
O centro democrático também contribui para a radicalização, ao ser incapaz de construir uma alternativa aglutinadora. Há o risco de seus candidatos, o governador tucano Geraldo Alckmin inclusive, de seguir o exemplo de François Fillon na França. O então candidato republicano endureceu seu discurso para a direita com vistas a disputar votos com a candidata deste campo, Marine Le Pen. Foi inútil.
No país do dissenso, decisões serão sempre contestadas pela parte perdedora. Sejam elas do STF no julgamento do HC de Lula, ou das urnas.
Em clima radicalizado, as vozes da sensatez não são ouvidas.
Em 1964 Santiago Dantas tentou criar a “esquerda positiva” em torno da candidatura de Juscelino Kubitscheck, para evitar o golpe. Hoje, antevendo o pior, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso prega a reunificação do país em torno de objetivos comuns. Quantos lhe darão ouvido?
Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo







