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O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Pós-verdade histórica

A História comporta diferentes interpretações. Mas nunca aceita apagar fatos irrefutáveis e documentados

Por Chico Alencar
8 ago 2018, 16h00 • Atualizado em 8 ago 2018, 16h00
  • “Pós-verdade” é mentira. É falsificação. É, com generosidade, grave equívoco. Não ajuda a humanidade a caminhar. Sinto-me provocado a comentar, do meu lugar de professor de História, duas “pós-verdades” de largo curso no nosso país, nos últimos tempos.

    A primeira delas é quanto à escravidão moderna. Essa relação cruel de trabalho, na qual os senhores tinham direito de vida e morte sobre suas “peças de ébano”, não foi iniciativa dos próprios africanos. A escravidão resulta da exploração colonialista sobre o continente africano, onde os europeus, especialmente alguns agentes da burguesia mercantil e do Estado português, colocaram pés, mãos e interesses. Sim, havia guerras intertribais na África e, em alguns casos, prisioneiros eram vendidos para traficantes de escravos. Mas os grandes estímulos a essa relação de dominação eram o mercantilismo e a empresa colonialista no chamado “Novo Mundo”.

    Lembra a historiadora Lilia Schwarcz que no porto de Luanda (Angola) havia uma “administração do comércio de almas”, além de entrepostos em Cabo Verde e São Tomé, chegando a Moçambique. No total, quase 5 milhões de pessoas foram escravizadas e traficadas para o Brasil, no período colonial.

    Negar uma dívida histórica para com a África – que perdeu, do século XV ao XIX, estimativamente 60 milhões de seres humanos – é negar a própria história. Mais absurdo ainda que negar, em termos numéricos (ainda que gente não seja gado, para se contar!), o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial. Negar o peso da escravidão é também negar nosso continuado (ainda que disfarçado) racismo estrutural.

    Outro absurdo é não aceitar a existência da ditadura derivada do golpe civil-militar de 1964. O fato de quase toda a grande imprensa da época, e quase todas as igrejas, e parte da sociedade, apoiarem a derrubada do governo Jango, democraticamente eleito, não torna aceitável o movimento de 1º de abril. O fato de um Congresso acuado e amordaçado, cercado de tanques, declarar vaga a presidência da República, não dá nenhuma eiva de democracia ao golpe. O fato de o Poder Legislativo, ceifado por cassações de mandatos, aprovar o nome dos generais que se sucederam no poder, não os legitima.

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    Por fim, para atestar as atrocidades daquela “página infeliz da nossa história”, sob a égide da censura e da tortura, basta lembrar as confissões voluntárias de um coronel participante da repressão, Paulo Malhães: “naquela época não existia DNA. Então, para se desfazer de um corpo, tem que sumir com arcada dentária e digitais, só. Quebravam os dentes e cortavam os dedos. As mãos, não. E aí se desfazia do corpo”. Se isso não é terrorismo oficial e ditadura, nada mais é.

    A História comporta diferentes interpretações. Mas nunca aceita apagar fatos irrefutáveis e documentados.

    *Chico Alencar é professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ)

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