O país. O futebol. E o nada
Falta tudo. Democracia, controle, governo, e, principalmente, governança.
Não precisava ir tão longe para aprender isso. Muito menos viajar até Rússia. Não é que o futebol possa ensinar muita coisa nova. Talvez não possa mesmo. Dois erros não fazem mesmo um acerto. E muitos erros em sequência, fabricam o desastre.
É possível que o futebol ajude a explicar o país. Mas para isso a gente precisaria acreditar que as derrotas não são coincidência. Que os vexames não são obra do acaso. São apensa consequência natural de nossas ações. Estranho mesmo seria a vitória de um país apaixonado pelo erro.
Olhando bem de perto, nada mudou desde as ultimas derrotas. Surpreendente seria que os resultados fossem diferentes do que são. Do lado positivo, a gente se acostumou tanto com vexame que dói cada vez menos. Melhor assim.
O Brasil é lugar onde a gente tropeça nas mesmas pedras. Onde a arte pode não imitar a vida. Mas o esporte, certamente, é mistura da sequência de desastres anunciados que a gente faz tempo aprendeu a aceitar. Faz décadas.
Enquanto a gente vai discordando cada vez mais de coisas irrelevantes, o que importa vai sendo destruído, corroído, corrompido, apodrecido. Com método e competência, o país sempre faz a aposta na destruição das instituições. E no futebol não poderia ser diferente.
Como tudo o mais, no futebol vão sendo demolidas instituições que pareciam até pouco tempo atrás, patrimônios eternos. Presos em ciclo vicioso, a cada dia os clubes ficam mais fracos, produzem campeonatos menos interessantes, para um público cada vez menor.
Criança que se preze, não mais quer acompanhar clubes domésticos. Não tem mesmo motivo para isso. Melhor assistir jogos de lugares onde as coisas funcionam bem. E os campeonatos são interessantes.
Assim como tudo mais no país, o futebol segue preso. Imita e reflete as mesmas mazelas do nosso Estado falido. Com os mesmos personagens fazendo as mesmas coisas e, por alguma razão, prometendo resultados diferentes.
Falta tudo. Democracia, controle, governo, e, principalmente, governança. No Brasil de hoje, dentro e fora do futebol, perdeu-se a capacidade exercer poder e administrar recursos sociais e econômicos para o desenvolvimento de qualquer atividade benéfica a população. Planejar, formular e programar políticas e cumprir funções, nem se fala.
Governança importa. E muito. Enquanto a gente não aprender isso, tudo vai cada vez mais parecer impossível no país da tomada de 3 pinos. De vexame em vexame vamos colecionado desaforos. E gols. Contra, claro.
No Brasil acontece de tudo. Mas quase sempre, nada é tudo o que sobra para a gente.
Elton Simões mora no Canadá. É President and Chair of the Board do ADR Institute of BC; e Board Director no ADR Institute of Canada. É árbitro, mediador e diretor não-executivo, formado em direito e administração de empresas, com MBA no INSEAD e Mestrado em Resolução de Conflitos na University of Victoria. E-mail: esimoes@uvic.ca .





