O país da gambiarra
A sensação que se tem não é de um estúpido e grave acidente prometido. Mas de um projeto de país.
Não é só tristeza. É vergonha. O mundo todo, literalmente, viu as chamas que, em poucas horas, destruíram 200 anos da nossa história e o museu mais antigo e importante do Brasil. Humilhação planetária. Desgraça anunciada. Há anos, os gestores do Museu Nacional imploravam ao governo federal recursos financeiros para tentar preservá-lo.
A sensação que se tem não é de um estúpido e grave acidente prometido. Mas de um projeto de país. Remendos culturais, gambiarras politicas. Roubalheira, descaso e oportunismo. Rascunho de demolição. Terra arrasada. Um Brasil conectado a gatos.
Na comemoração do bicentenário do Museu Nacional, este ano, nenhuma autoridade apareceu. E pelos registros históricos queimados pelo fogo, o ultimo presidente a pisar o chão do Museu Nacional foi Juscelino Kubtischek, há exatos 60 anos.
O ultimo mesmo. Nem que quisessem, os demagogos de plantão poderiam fazer de conta que se preocupam com o tema. Perderam de vez a oportunidade de visitar os 13 mil metros quadrados de memória brasileira.
Nossos governantes nem sabem direito do que se trata o Museu Nacional, mas gente importante passou por lá. O cientista Albert Einstein e o antropólogo e filósofo belga Claude Levi-Strauss foram fotografados no Jardim das Princesas, onde brincava ao ar livre a Princesa Isabel. Nos últimos meses, nem o jardim estava aberto ao público. Por falta de manutenção.
E não foi por falta de aviso. Em maio deste ano, mais uma vez, o diretor do Museu Nacional criticou a falta de recursos para manter o imponente Museu Nacional. Alexander Kellner lembrou dos 20 milhões de itens em seu acervo e da memória brasileira. “Aqui, moraram D. João VI,. Dom Pedro I, e foi assinada a Independência do Brasil”.
A falência não é de hoje. A agonia foi lenta. Nessa onda de demagogice desencadeada pela tragédia do Museu Nacional, recomenda-se ler o programa de governo dos 13 candidatos à Presidëncia da República. Mostra a Agencia Lupa que apenas PT e Rede especificaram museus em suas propostas registradas junto ao Tribunal Superior Eleitoral.
Outros 7 trazem propostas para a cultura, e não mencionam a palavra museu. Coisa do passado, coisa de velho. E quatro (dos 13 candidatos) sequer falam de cultura. Dá para adivinhar quem são? Cabo Daciolo e Bolsonaro, claro. E, para surpresa do eleitor, Vera Lucia e Meirelles.
O país já perdeu tanto em tantas catástrofes como a de domingo; Tragédias podem se repetir. Outros prédios históricos estão prestes a desabar. E não só no Rio de Janeiro. O alerta foi dado por arqueólogos e pesquisadores. Mais uma vez. Sem embuste. Sem gatos. Sem gambiarras.
Mirian Guaraciaba é jornalista, paulista, brasiliense de coração, apaixonada pelo Rio de Janeiro







