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O leão e o major

Fugiu da prisão o Major Ferreira

Por José Paulo Cavalcanti Filho 30 nov 2018, 14h00 • Atualizado em 30 jul 2020, 20h08
  • Morreu, semana passada, o Major Ferreira. Conto uma história com ele que se deu no começo de 1986. Roberto Magalhães ainda era governador de Pernambuco. Mas já preparava sua candidatura de Senador. Roberto era impetuoso como seu tio Agamenon. Deu bananas para adversários, numa carreata. Entrou no JC, procurando um jornalista, com revolver na cintura. Fazer o quê? E tudo corria bem, no Campo das Princesas. Até quando, num belo dia, fugiu da prisão o Major Ferreira – responsável pela morte do Procurador da República Pedro Jorge. Indignação coletiva. Todos consideravam o Governo culpado pela fuga. E Roberto preocupado com a eleição. Pensando que nada pior poderia lhe acontecer. Estava enganado.

    Fim da manhã, chega Bandeirinha – grande escritor e grande figura humana –, com a notícia terrível: fugiu, do zoológico, um leão perigosíssimo. As informações eram de que o animal iria destroçar o primeiro ser humano com que cruzasse. Roberto convocou seu Secretário de Transportes, José Múcio Monteiro (hoje, Presidente do TCU) – que, no Palácio, era quase Primeiro-Ministro. E pediu fosse prender o dito leão. Urgente. Foi quando José Múcio, com toda tranquilidade, lhe disse: “Governador, estão na minha sala Augusto Coelho (então Prefeito), Osvaldo Coelho (Dep. Federal), Geraldo Coelho (Dep. Estadual), Fernando Bezerra Coelho (Dep. Estadual), Adalberto Coelho, José Coelho e Paulo Coelho”. Todos, bem conhecidos pela intransigência na defesa dos interesses de Petrolina. Pensando bem, intransigência é até pouco. E José Múcio completou: “É brabo por brabo, Governador. Eu cuido do leão e o senhor fica com os Coelhos”. Roberto então pensou, pensou, coçou a cabeça, pensou mais um pouco e encerrou a conversa: “Prefiro o leão”.

    P.S. Tudo acabou bem. O leão não comeu ninguém e hoje vive dormindo, com preguiça e tédio, no zoológico. Os Coelhos brigaram feio entre si, logo depois. Roberto acabou perdendo aquela eleição de Senador para um padre (logo ex, por muito gostar das saias) que era de… Petrolina. Voltou depois, ao Congresso. E acaba de lançar um grande livro, “Brasil: Lições do passado e desafios do século XXI”. Enquanto o major Ferreira foi novamente preso. Cumpriu pena, em Itamaracá. E viveu seu resto de vida junto à família. Que descanse em paz.

    José Paulo Cavalcanti Filho. jp@jpc.com.br

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