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O capitão que nada aprendeu

Em cena, os tradutores de Bolsonaro

Por Ricardo Noblat Atualizado em 30 jul 2020, 19h55 - Publicado em 8 mar 2019, 07h00

Jair Messias Bolsonaro é a prova viva de quanto seria necessária uma reforma educacional aplicada às escolas militares. O capitão de hoje pode ser o presidente da República de amanhã. E ele não pode ser devolvido à vida civil sem conhecer, e bem, a história do seu país, os fundamentos do regime democrático e o papel das Forças Armadas, entre tantas outras coisas.

De preferência, deveria também sair da escola tendo aprendido a falar o idioma nacional com correção. É o instrumento básico de trabalho para qualquer um, militar ou civil, que queira conviver em sociedade. Lula, por exemplo, que nunca quis estudar, chegou à presidência da República falando um português cheio de defeitos. Ao invés de “menos” dizia “menas”. Melhorou depois.

Aprendeu no exercício do cargo quando deveria tê-lo feito antes. Sofreu vexames, foi vitima de ataques por isso, e rebateu-os muitas vezes louvando a própria ignorância. No discurso de posse no Congresso em janeiro de 2003, citou com orgulho que o diploma de presidente da República era o primeiro que ganhava. Mentiu, é claro. Havia ganhado um ao concluir o curso para torneiro mecânico.

Bolsonaro foi aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Exército e da Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formou em 1977. Dez anos depois, cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. É de se supor que tivesse aprendido alguma coisa, talvez o bastante para se expressar pelo menos de forma inteligível, o que o pouparia de ser mal interpretado. Mas não foi isso o que aconteceu.

E disso deu prova mais uma vez ao falar rapidamente e de improviso na cerimônia pelo 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, na Fortaleza de São José da Ilha de Cobras, no centro do Rio de Janeiro. Lá pelas tantas, em meio a um raciocínio rasteiro, enxertou uma frase entre vírgulas que o levaria a pagar caro nas redes sociais que já foram a praia onde reinava sem contestação.

Disse o torturador da língua depois de mencionar sua vitória nas eleições passadas:

– A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.

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Dito de outra maneira e indo direto ao ponto: democracia e liberdade em um país só existem quando as Forças Armadas querem ou permitem. Que tal? E o distinto povo nada tem a ver com isso? Democracia e liberdade não são escolhas do povo que as deseja, restando às leis regulá-las, e às Forças Armadas e demais instituições do Estado garanti-las? Na cartilha do capitão é o contrário.

A frase de Bolsonaro chocou tanto ou mais os políticos em geral e seus ex-companheiros de farda e da reserva em particular do que o seu ato da véspera de compartilhar no Twitter um vídeo pornográfico onde um homem metia o dedo no próprio ânus, e em seguida outro homem urinava em sua cabeça. O vídeo veio acompanhado do comentário depreciativo feito por Bolsonaro a propósito de blocos carnavalescos.

Às pressas, o núcleo militar do governo montou uma operação de socorro ao capitão de ideias estranhas e de linguagem tosca. A frase de 15 palavras de Bolsonaro foi traduzida assim pelo vice-presidente Hamilton Mourão:

– O que que o presidente quis dizer? Tá sendo mal interpretado. O presidente falou que onde as Forças Armadas não estão comprometidas com democracia e liberdade, esses valores morrem. É o que acontece na Venezuela.

Em uma sessão ao vivo no Facebook, o capitão admitiu que mais uma vez causara polêmica, mas em vez dele mesmo explicar o que quis de dizer, apelou para o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete Segurança Institucional. Resumo do que disse Heleno:

– Isso aí não tem nada de polêmico, ao contrário. As suas palavras foram ditas de improviso para uma tropa qualificada e foram colocadas exatamente para aqueles que amam a sua pátria, aqueles que vivem diariamente o problema da manutenção da democracia e da liberdade. (…) No caso do Brasil, é claro que as Forças Armadas são o pilar da democracia e da liberdade.

O terceiro tradutor de Bolsonaro foi seu porta-voz, o general Rêgo Barros, que citou o cientista político americano Samuel Huntington, estudioso da relação entre os militares e o poder civil. Segundo o general, Huntington advoga que as Forças Armadas devem ser a fortaleza do poder civil. “Naturalmente, as Forças Armadas já o são, por defenderem veementemente a democracia”, acrescentou.

Confesso que hesito entre pedir ao capitão que se cale para não dizer tantas idiotices ou se o aconselho a continuar a falar o que bem entenda. Se calasse, não assustaria as pessoas que tanto dependem dele nem atrapalharia o governo que mal começou, e que começou tão mal. Mas, por outro lado, os 58 milhões de brasileiros que o elegeram perderiam a oportunidade de conhecê-lo melhor. Não seria justo.

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