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Na terra dos vice-reis

Um país em que vice tem vez

Por Ruy Fabiano 28 jul 2018, 10h00 | Atualizado em 28 jul 2018, 10h00
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O Brasil é um país em que vice tem vez e voz, desde a Colônia. Aqui, pontificaram os vice-reis, exportados por Portugal.

Quando, enfim, veio o próprio rei, dom João VI, acabou a festa e a matriz perdeu a Colônia, embora esta não viesse a perder a mania de ser governada pelos reservas.

Tão logo dom Pedro I abdicou, vieram os regentes, que nada mais eram que vices, à espera do titular, dom Pedro II.

Instalada a República, seu proclamador, o marechal Deodoro da Fonseca, renuncia e sucede-lhe, à revelia da Constituição (que mandava fazer nova eleição), o vice, Floriano Peixoto.

E assim foi ao longo do tempo. O terceiro presidente – e primeiro civil eleito -, Prudente de Morais, viveu atormentado pelo vice, Manuel Vitorino, que, substituindo-o interinamente, em face de enfermidade, não lhe quis devolver o cargo. Problemão.

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A crise desembocou na tentativa de assassinato do presidente, mas a má pontaria do assassino matou o ministro da Guerra, Carlos Bittencourt. Ao todo, oito vice-presidentes governaram.

Quando da queda do poder civil, em 1964, lá estava um vice, João Goulart; idem quando da restauração do poder civil: José Sarney. Também no resgate das eleições diretas, o eleito, Fernando Collor, não governou até o fim.

O privilégio coube ao vice, Itamar Franco, em cujo mandato implantou-se o Plano Real, sepultado pelo PT, cujo reinado, ora em conclusão, dá-se por meio do vice que Lula escolheu para Dilma Roussef: Michel Temer.

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Não é casual, pois, que os candidatos hoje favoritos à Presidência, Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB), estejam às voltas exatamente com a escolha do respectivo vice-presidente.

As chances de que venha a assumir, tendo em vista a tradição, não são remotas ou hipotéticas. Daí o cuidado com a escolha. Em princípio, busca-se alguém que agregue votos ou prestígio.

E esse alguém, em face desse prestígio, pode ser um aliado na campanha, mas um incômodo após a posse.

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Alckmin buscou um empresário de renome, Josué Alencar, filho do ex-vice de Lula, José Alencar, mas este – quer por ter testemunhado o mandato do pai, quer por ter mais o que fazer – recusou. Já havia recusado também convite de Ciro Gomes (aí provavelmente em legítima defesa).

A busca de Alckmin prossegue, mas o arco de alianças em que se meteu – o Centrão – não lhe facilita a vida. Muitos querem a vaga, embora alguns ofereçam o risco de, uma vez empossado, a ocuparem desde a cadeia. Waldemar Costa Neto, por exemplo.

Bolsonaro quis o senador Magno Malta, evangélico, de grande prestígio em seu meio. Mas Malta está no partido de Waldemar, o PR, que, para cedê-lo, queria um pedaço da República.

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Tentou então o general Augusto Heleno, de grande prestígio no meio militar e seu consultor informal. Mas o partido a que o general se filiou, o PRP, vetou a parceria, alegando que precisa de quadros no Congresso. Bolsonaro procurou então uma mulher, a advogada Janaína Pascoal, uma das mentoras do impeachment de Dilma.

Mas Janaína, em plena convenção do PSL, optou por relacionar as divergências com o titular, esquecendo-se de mencionar as convergências. Resultado: causou grande desconforto e pôs o convite na marca do pênalti. Bolsonaro definirá o imbróglio na terça-feira, numa conversa com ela, que se prenuncia tensa.

Fala-se na alternativa de chamar para o posto um herdeiro da Casa Imperial, o príncipe (e cientista social) dom Luís Felipe de Orleans e Bragança, filiado ao PSL e candidato à Câmara Federal.

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Concretamente, porém, a campanha empacou nos vices. Espera-se que, após a posse, não se repita a tradição – recente e remota – de colocar em campo o regra três.

Ruy Fabiano é jornalista 

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