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Em ambiente de ruptura (por Ruy Fabiano)

A política brasileira chegou ao ponto de não retorno

Por Ruy Fabiano 14 mar 2020, 11h00 | Atualizado em 30 jul 2020, 19h06
Em ambiente de ruptura (por Ruy Fabiano) Priorizar nos meus resultados Google

A queda de braço no âmbito dos três Poderes, em que o Executivo sofre cerco implacável dos outros dois (Legislativo e Judiciário), é apenas um dos sintomas da ruptura do padrão clássico da política brasileira. O governo Bolsonaro é o marco zero.

O que o precedeu – a política tradicional que desembocou no desastre moral e administrativo do PT e associados – não mais voltará à cena e o que o sucederá ainda não se conhece; está em construção. A oposição dá sinais de que não percebeu essa nova realidade. Imagina que, derrubando Bolsonaro, restabelecerá o que ficou para trás – o chamado “status quo ante”. Não restabelecerá.

A política brasileira chegou ao ponto de não retorno. A própria imprensa, em grande parte, mostra que não detectou o fenômeno. Converte-se em oposição, sem prospectar o que está em curso.

Bolsonaro não é causa da mudança, mas a consequência. O esquema de compadrio da política brasileira, baseado no fisiologismo, que confunde e mistura público e privado, foi (continua sendo) exposto pela Lava Jato. E gerou um desgaste sem precedência que alcançou o conjunto das instituições do Estado.

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Bolsonaro catalisou o sentimento de exaustão da sociedade para com sua classe dirigente. Por isso, ganhou com folga as eleições, não obstante a rejeição por parte da grande mídia e do segmento dos formadores de opinião (artistas acadêmicos etc.).

A sociedade, em sua maioria, preferiu apostar num futuro desconhecido do que voltar a um passado conhecidíssimo.

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O triunfo de Bolsonaro, nas circunstâncias em que se deu, realçou outro fenômeno: a quebra do monopólio da opinião, desde sempre em mãos da mídia convencional (rádio, TV e imprensa).

Goste-se ou não, não há como ignorar a gigantesca Ágora em que se converteu a internet. Na tentativa de desacreditá-la, a mídia tradicional acabou ela própria sendo desacreditada.

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Tanto assim que o candidato que intentou derrotar acabou vitorioso. Não há como ignorar a realidade implacável dos sites e blogs espalhados pelas redes sociais. Não vão sair de cena.

A babel instalada há de gerar um processo seletivo espontâneo dentro dela própria. Não é missão do STF arvorar-se em polícia da rede, como imaginam os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que presidem um inquérito bizarro com esse objetivo.

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O fato concreto é que ninguém é mais dono da informação e da opinião. Um boato desaparece com a mesma velocidade com que surge. E as mobilizações de massa podem ser (e estão sendo) convocadas a baixo custo e em tempo recorde.

Isso, claro, não ocorre apenas no Brasil. É fenômeno mundial. Basta ver a velocidade e extensão com que se propagou o alerta ao corona vírus. Em menos de uma semana, impôs abalos gigantescos à economia mundial, espalhando temores em todos os países.

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A política contemporânea obedece a novos pressupostos. Em vez de insultá-los, o bom senso aconselha a decifrá-los. No Brasil, infelizmente, estamos ainda na fase dos insultos.

 

Ruy é jornalista 

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