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Dr. Armando

Na Ditadura Militar, contra seus interesses econômicos, não se alinhou ao partido que apoiava o sistema. Como tantos que depois se proclamaram democratas

Por José Paulo Cavalcanti Filho 7 jan 2018, 16h00 | Atualizado em 7 jan 2018, 16h00
Armando Monteiro Filho
Armando Monteiro Filho, foi deputado federal e ministro do governo João Goulart (Arquivo/Estadão Conteúdo)

Em 1962, o Brasil foi campeão no Chile pelas pernas tornas de Garrincha. Os militares conspiravam o Golpe de 64. Jânio Quadros era um doido se preparando para perder a Presidência da República. E, na televisão, começava a campanha para o Governo de Pernambuco. Foi quando ouvi, pela primeira vez, o nome de Armando Monteiro Filho. Meu pai, com aquela cara fechada que sempre usava para dizer coisas sérias, apontou para a tela e disse: “É um homem de bem”. Menino ainda, perguntei algo como: “Então, por que vai perder a eleição?” Ele respondeu: “Política tem disso, meu filho”. Sendo o velho enormemente rigoroso no plano dos comportamentos, nunca duvidei daquelas palavras. E esse conceito, de ser Dr. Armando um “homem de bem”, o tempo só fez confirmar. Sem um único arranhão, ao longo de toda sua trajetória.

Dois anos mais Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, tentou declarar vaga a Presidência da República. Numa conspiração em que seria, ele mesmo, eleito por seus pares para esse cargo. Dr. Armando recebeu convite para ser Ministro da Justiça. E recusou. Com uma frase simples: “O Presidente é João Goulart”. Em respeito à Constituição. Pergunto quantos Deputados, hoje, recusariam um Ministério? Algum deles recusaria? E quantos estariam dispostos a por de lado seus interesses, políticos e/ou econômicos, em respeito a uma lei? São novos tempos, senhores. E outros homens, diferentes de Dr. Armando.

No governo Jango, foi Ministro da Agricultura. E fez o primeiro projeto de Reforma Agrária que o Brasil conheceu. Baseado no aumento progressivo dos tributos sobre terras improdutivas. Reproduzindo modelo exitoso posto em prática pela Itália. Lamento, hoje, não ter sido implementado, quando China, Rússia, México (a partir de 1920) e outros países emergentes faziam suas reformas agrárias. Teria sido um grande avanço social. Fernando Pessoa (em Padrão, de Mensagem) disse que “o homem e a hora são um só”. Não todos. Que Dr. Armando estava bem além do seu tempo.

Na Ditadura Militar, contra seus interesses econômicos, não se alinhou ao partido que apoiava o sistema. Como tantos que depois se proclamaram democratas. Depois. Foi para a oposição. Por acreditar na democracia. Naqueles negros anos, quando havia eleição, inevitavelmente o Governo reagia de maneira subalterna. O SNI, por exemplo, dizia estar apurando denúncias. Sem sucesso. E a Receita Federal lavrava, contra ele, Autos de Infração. Fiz sua defesa nos últimos desses autos, quando já formado em Direito. E ganhamos sempre. Longe de ações respeitáveis, era só tentativa de intimidação. Inúteis, que nunca se curvou. Compreendendo que política se faz com ideias, e também com homens, sabia ser amigo dos amigos. Como Tancredo, Francisco Julião, Brizola, Lula. E os apoiou, quando poucos empresários aceitavam fazê-lo. Era, com certeza, um homem de gestos.

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Na intervenção do Banco Mercantil, meu pai deixou na minha mesa um texto de Rui Barbosa que remeteu a Dr. Armando. Dizia assim: “A experiência vai mostrando incessantemente a ineficácia da detracção contra os honestos. Deixae escrever contra vós o que quiserem. Cedo ou tarde irromperá o vosso triumpho sobre a calumnia”. Agora chegou sua hora. E exercito, aqui, o privilégio de dar esse testemunho. Porque Dr. Armando ensinou, a todos e cada um, que se pode ser homem público sem ter cargos públicos. E que se pode viver toda uma vida, inclusive na política, com honra. O homem se foi. Mas ficou seu exemplo. A missa de hoje, em louvor de sua alma, celebra saudades e esse exemplo.

José Paulo Cavalcanti Filho é advogado

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