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Bolsonaro vai abrir o playground

O que sobrará de Bolsonaro durante e depois desse processo também não se sabe bem.

Por Helena Chagas 21 fev 2019, 11h00 | Atualizado em 30 jul 2020, 19h57
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Jair Bolsonaro está para o Congresso como aquelas crianças de antigamente – já que as de hoje só querem saber de games eletrônicos e vídeos no Youtube – quando ganhavam um brinquedo novo, tipo carrinho com controle remoto ou boneca que fala, e resolviam desmontá-lo para ver o que tinha dentro ou só por diversão. Daí a pouco, tinham pela frente um belo amontoado de pecinhas soltas que nunca mais conseguiam juntar, e mesmo quando conseguiam, estavam tão avariadas que o pneu ia parar no teto do carro, a boneca ficava com o pescoço torto… Nada funcionava mais.

A narrativa sobre o fim do toma-lá-dá-cá, a suposta negociação de ministérios e cargos com bancadas temáticas, a esnobada nos líderes e partidos tradicionais, as trapalhadas dos articuladores palacianos e, agora, o desmoralizante episódio da demissão de Gustavo Bebianno encolheram politicamente o presidente da República. Tanto, mas tanto, que ele agora é uma criança diante diante de um brinquedo espatifado – sua suposta base parlamentar.

Não aproveitou a hora da festa para brincar comportadinho com as outras crianças e saiu logo quebrando tudo. Ninguém entrou melhor no clima da derrota acachapante da última terça-feira no plenário da Câmara – que em boa hora derrubou o decreto que tentava limitar a Lei do Acesso – do que o vice Hamilton Mourão, que tinha assinado a peça: ”Perdeu, playboy!”. Até no seu PSL o Planalto teve votos contrários, incluindo o do presidente Luciano Bivar. Foi uma votação articulada pelos principais líderes, inclusive o presidente da Casa – aqueles que os neogovernistas gostam de chamar de representantes da velha política.

Evidentemente, tratou-se de um recado da turma excluída do playground nesses primeiros cinquenta dias de governo. Não foi um sinal de que a reforma da Previdência não será aprovada um dia desses, até porque essas forças que querem arrombar a porta do parquinho têm compromissos com ela. Mas foi um jeito de dizer que sem o DEM, o MDB, o PP, o PR, etc, o brinquedo não vai funcionar. O DEM de Maia e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobretudo, anda saudoso de um governo. Vai querer ganhar mais espaços além dos três ministros que tem, influir nas decisões e interferir nas regras do jogo da liberação de recursos e emendas.

Uma volta ao que esse pessoal moderno chama de velha política, justamente aquele discurso que Bolsonaro satanizou na campanha e nos primeiros dias de governo? Exatamente, sem tirar nem por. Cedo ainda para saber quem mais entrará no play Esplanada – de onde, é claro, alguns vão ter que sair em breve. Mas a Previdência, que não é brincadeira, só será aprovada desse jeito.

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O que sobrará de Bolsonaro durante e depois desse processo também não se sabe bem. Por mais estabanada que seja a criança, porém, em algum momento, diante daquela pilha de pecinhas sem sentido, ela tem que perceber que, ou cede às exigências do chato do irmão mais velho para que ele o ajude a consertar o brinquedo ou fica sem o brinquedo…

Helena Chagas é jornalista 

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