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A sociedade sabe o que quer

É alentador verificar que 85,3% dos brasileiros pretendem se imunizar quando houver uma vacina contra a covid-19

Por Ricardo Noblat 25 out 2020, 12h00 | Atualizado em 18 nov 2020, 19h47
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Editorial de O Estado de S. Paulo (25/10/2020)

A revista científica Nature publicou um estudo que revela que 85,3% dos brasileiros pretendem se vacinar contra a covid-19 “se um imunizante comprovadamente seguro e eficaz estiver disponível”. O alto porcentual de aceitação da tão esperada vacina no Brasil só é menor do que o apurado na China (88,6%). O achado faz parte de um levantamento feito por especialistas dos Estados Unidos e da Europa com 13.400 pessoas nos 19 países mais afetados pela pandemia. Em média, 72% dos entrevistados disseram aceitar um imunizante contra o novo coronavírus sob aquela condição, e 28% o recusariam ou teriam algum receio de tomá-lo.

“O porcentual do Brasil não é uma surpresa, vários outros estudos já mostraram a mesma coisa”, disse ao Estado a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. “Os brasileiros confiam em vacina, entendem que a vacinação é algo importante”, disse a médica.

De fato, o resultado da pesquisa com os brasileiros não surpreende. É o retrato da consciência da Nação. Neste penoso curso da pandemia, que já custou a vida de quase 160 mil de nossos concidadãos, a sociedade deu mostras de independência em relação às diatribes e mistificações do presidente da República em sua caótica condução da emergência sanitária. Tampouco se deixou levar acriticamente pela insanidade que grassa no esgoto das redes sociais. Nos corações e mentes da esmagadora maioria dos cidadãos, as vozes da ciência e o instinto de preservação calaram mais fundo do que a retórica política e a negação da realidade.

Nos momentos mais dramáticos da pandemia no País, as medidas de segurança preconizadas por médicos e cientistas – como o correto uso de máscaras, o distanciamento social e a higienização das mãos – foram adotadas por um bom número de pessoas, considerando a dimensão continental do Brasil. Fato é que houve, sim, vários casos de flagrante desrespeito às orientações médicas, com registro de aglomerações em praias, ruas e bares a partir de um determinado momento e máscaras sendo usadas incorretamente até hoje. Mas, em geral, houve engajamento de grande parte da sociedade em um comportamento seguro que, se não foi suficiente para impedir o alto número de mortes, ao menos impediu que a tragédia no País tivesse uma dimensão ainda mais soturna.

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A pesquisa publicada pela Nature também indica o quão descabida é a discussão sobre a obrigatoriedade ou não de vacinar os cidadãos contra a covid-19. Resta evidente que a imensa maioria dos brasileiros vai se vacinar voluntariamente assim que um imunizante seguro e eficaz – qualquer um dos que estão em teste – esteja disponível. O brasileiro confia em vacina, como já foi bem dito. E essa confiança foi conquistada ao longo de muitos anos. Não é algo assim tão fácil de abalar.

O Brasil é uma referência mundial em imunização. Por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), são aplicados gratuitamente cerca de 300 milhões de doses de vacinas todos os anos, contra dezenas de doenças. São vacinas absolutamente seguras e eficazes. Se hoje os brasileiros são mais saudáveis e vivem mais – sobretudo as crianças –, isso se deve a programas como o PNI, com imunizantes produzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Joias do Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina contra o novo coronavírus, quando vier, seguramente terá o mesmo grau de confiabilidade de todas as outras que são produzidas pelos dois respeitáveis laboratórios. A sociedade, em sua maioria, sabe disso. E sabe o que quer. Poucas coisas são mais essencialmente humanas do que o desejo de proteção para si e para os seus. Ao fim e ao cabo, é esse sentimento que prevalece sobre todas as outras coisas.

Tudo indica que uma vacina contra a covid-19 começará a ser oferecida à população em breve. É alentador verificar a adesão consciente da maioria dos brasileiros ao imunizante. Enquanto isso, resta manter os cuidados básicos, já amplamente conhecidos, e confiar no trabalho dos cientistas.

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