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A existência e suas vicissitudes

Psicanálise da Vida Cotidiana

Por Carlos de Almeida Vieira Atualizado em 30 jul 2020, 19h25 - Publicado em 25 set 2019, 12h00

Em seu belo livro “Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo”, versão brasileira editada pela Zahar em 2016, Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, abre seu texto com uma frase profunda e intrigante de Sartre: “O segredo de um homem não é seu complexo de Édipo, e sim o próprio limite de sua liberdade, seu poder de resistência aos suplícios e à morte”.

Sem minimizar a importância fundamental que Freud deu ao Complexo de Édipo, como conceito e como metáfora sobre a existência humana, gostaria de ficar, hoje, na citação de Jean-Paul-Sartre, filósofo existencialista, escritor, dramaturgo, roteirista, ativista político e crítico literário francês. “Liberdade, seu poder de resistência aos suplícios e à morte”, ou seja, questões filosóficas fundamentais e questões também de elaboração dos nossos conflitos e angústias relativos ao sofrimento e à condição da nossa mortalidade.

A angústia de ser mortal, da morte fazendo parte da própria vida é anunciada na hora do nascimento. Na minha clínica sempre estou trabalhando com meus analisandos, não a questão da morte, mas o problema crucial da mortalidade. Nascemos com destino marcado para uma parada final da nossa existência; vivemos o dia a dia, não com a consciência da mortalidade, pois seria insuportável, mas de tempos em tempos somos acordados que somos falíveis, finitos.

Penso que, concordando com Sartre, que o mal-estar da condição de mortais, remete que devemos cuidar da vida antes que ela acabe. Cuidar no sentido de aceitar nossa finitude, não negar como se fossemos eternos, dar uma qualidade de vida onde somos responsáveis pela nossa existência. Viver não é uma experiência automatizada, viver é ter a liberdade de ser e de não-ser, pois não somos vítimas e sim responsáveis para dar um destino, uma escolha, que sempre recai sobre nós mesmos.

Uma das causas de muito sofrimento, inconsciente, é o ódio pela nossa própria realidade em sermos mortais, o que faz com que nos defendamos com arranjos de onipotência e arrogância, negando a possibilidade de elaborar nossos sofrimentos, nossos suplícios. O ódio ao sofrer, a sermos limitados, à impossibilidade de viver somente no prazer, por vezes se transforma em estados crônicos depressivos sem condições psíquicas para sublimar e fazer novos arranjos mentais simbólicos. Aqui entra, os recursos da experiência analítica e da vida criativa, dando subsídios para que possamos atravessar a existência reduzindo nossos sofrimentos. Como poetou nosso querido Carlos Drummond de Andrade em seu canto “Os ombros suportam o mundo”: “Chegou um tempo em que não adianta morrer./ Chegou um tempo em que a vida é uma ordem./ A vida  apenas, sem mistificação”.

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