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Na Ponta da Língua

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Para tirar dúvidas inquietantes, aprender dicas preciosas e curiosidades que ajudam a dominar o bom português

Como Odete Roitman deu aula de literatura em cena de Vale Tudo

Entenda como a vilã recriou Drummond em uma cena brilhante que ilustra o que é intertextualidade

Por Noslen Borges 18 set 2025, 12h44
Como Odete Roitman deu aula de literatura em cena de Vale Tudo Priorize VEJA no Google

Fala, pessoas!

Nos últimos dias, uma cena do remake da novela Vale Tudo chamou muito a minha atenção e também a dos internautas mais ligados em literatura. E eu vou te explicar o porquê.

Foi quando a vilã Odete Roitman anunciou que iria se casar com César, personagem interpretado por Cauã Reymond. O problema? César era amante da própria nora dela! Imagina o clima na sala de jantar… A família inteira se revoltou contra ela e, como boa vilã de novela, Odete respondeu com… poesia.

Mas não é qualquer poesia: ela criou um poema inspirado em Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. Isso mesmo: ela pegou a estrutura de um clássico da literatura brasileira e adaptou à sua situação amorosa.

Veja a versão da Odete:

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“Solange que amava Afonso, que amava Fátima, que amava César, que agora me ama. Só a pobre da Celina que ficou fora dessa história.”

Percebeu o que aconteceu aqui? Odete criou uma paródia do poema original de Drummond, usando os personagens e o drama da própria novela. É intertextualidade pura: um texto novo que dialoga diretamente com outro já existente.

Só para refrescar a memória, aqui vai o Quadrilha original:

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“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”

Esse poema trata dos desencontros amorosos: todo mundo gosta de alguém, mas ninguém é correspondido. E, no final, tudo termina em solidão, tragédia ou em caminhos inesperados.

Agora, olha a genialidade da Odete: ela mantém a ideia central dos amores cruzados e não correspondidos, e a transporta para sua realidade. Como se dissesse: Viu? A vida amorosa é sempre confusa. Então, por que eu também não posso viver a minha confusão?

E é aí que entra o ponto-chave: intertextualidade é isso, quando um texto faz referência a outro para reforçar uma ideia, provocar humor, criar ironia ou até uma crítica.

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No caso da novela, Odete não apenas cita Drummond, ela recria Drummond. Mantém a estrutura, troca os personagens e encaixa tudo na sua narrativa. Esse tipo de intertextualidade é conhecido como paródia.

É o encontro entre literatura clássica e cultura pop, entre poesia e telenovela.

E tem mais: ao usar Drummond, a novela também traz aquele olhar meio pessimista do amor que está no poema original — os amores não correspondidos, os caminhos tortos da vida, e até quem fica de fora da história. No caso, a Celina é a “esquecida”, tal qual o famoso J. Pinto Fernandes.

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Ou seja: até na ironia, a novela respeita a essência do texto literário. Por isso, essa cena é um prato cheio para falarmos de literatura e intertextualidade na cultura brasileira.

Afinal, a literatura não está só nos livros. Ela está na novela, na música, no cinema… Entender isso pode ser a chave para compreendermos melhor a língua portuguesa no nosso dia a dia.

E aí, o que achou disso tudo? É assim que eu gosto de enxergar a nossa língua: viva, presente, acessível.

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Já manda esse texto para aquele colega que acha que português é só gramática e prova!

Ah, e lembre-se: toda terça e quinta tem conteúdo novo aqui na coluna. Se gostou, compartilhe. Vamos espalhar conhecimento juntos?

Vamos que vamos!

Professor Noslen Borges www.professornoslen.com.br

Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha

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