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Psicodrama eleitoral

A plateia não está gostando nada do que está assistindo

Por Murillo de Aragão 17 jul 2026, 06h00
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As eleições percorrem uma trilha novelesca que transita pelo gangsterismo clássico, ora passando pelos crimes de colarinho branco, quase sempre envolvendo histórias de corrupção. Tudo regado a fortes doses de influência política e advocacia administrativa. Em 2026, o enredo vai além: inclui brigas de família no arraial bolsonarista e ameaças entre presidentes. Vale dizer que as relações de Lula com Trump sempre foram permeadas de bravatas de lado a lado.

O quadro eleitoral assemelha-se a um psicodrama — o método criado por Jacob Levy Moreno no qual a ação teatral atua como instrumento de exploração e transformação psíquica. A diferença é que, no divã da sociedade brasileira, a catarse não chega. No palco, além dos escândalos, desfilam vários elementos dramáticos. O conflito institucional, que não é novidade, atinge níveis nunca antes vistos. Os Três Poderes encontram-se em permanente tensão. A situação se reflete no naufrágio do prestígio do Legislativo e do Judiciário e na desaprovação do Executivo. Se os fatos em si já são escandalosos, o cenário é agravado por atores gritando em uma radicalização mal-educada do debate público.

“A menos de oitenta dias do pleito, nenhum dos candidatos conseguiu apresentar um projeto político suficientemente mobilizador”

A menos de oitenta dias das eleições, nenhum dos candidatos conseguiu apresentar um projeto político suficientemente mobilizador. A consequência é que quase 30% do eleitorado não quer nenhum dos nomes que lideram as pesquisas, mas tampouco se empolga com os demais. O Brasil está aprisionado por escolhas que não gostaria de fazer. Escândalos, é verdade, fazem parte da paisagem brasileira desde o início da Nova República. Claro que também existia corrupção nos regimes militares. Os grandes escândalos ganharam, contudo, escala inédita na Nova República. Agora surgiram as chamadas “emendas piratas”, orientadas por políticos que sequer exercem mandato. Tudo concorre para mais uma eleição de rejeição recíproca, na qual os “nem nem” — os não polarizados — não sabem para onde ir.

O psicodrama eleitoral tem, porém, componentes adicionais. Um é velho conhecido: a segurança pública, que segue como a maior preocupação da população. O outro é fato novo: a turbulenta relação do Brasil com os Estados Unidos em meio a uma grave crise geopolítica mundial. Mas, como dizem por aí, desgraça pouca é bobagem. Temos o abismo fiscal em que nos metemos e uma perigosa dependência de combustíveis refinados para mover a economia. Agora mesmo, a Rússia suspendeu a exportação de diesel, item importante para a nossa malha de distribuição de produtos. Na esteira da questão dos combustíveis, a inflação ensaia um modesto repique, sinalizando que os juros devem cair menos do que gostaríamos. E, no processo eleitoral em si, teremos uma invasão de fake news e deepfakes despejando desinformação nas redes, embaralhando ainda mais a percepção de um eleitorado exausto.

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Assim, o psicodrama eleitoral desenvolve-se em várias dimensões simultâneas — todas vertiginosas, nenhuma divertida. Em Moreno, o drama encenado serve para curar. Aqui, o espetáculo apenas se repete. E, para encerrar, o detalhe mais grave: a plateia não está gostando do que vê. Resta saber se, em outubro, ela aplaudirá por convicção, se vai se omitir de votar ou apenas pedirá, com o voto, que troquem a peça.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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