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O impacto externo e as eleições

Em uma disputa apertada, a crise com os EUA poderá ser decisiva

Por Murillo de Aragão 5 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 09h08
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Pelo menos desde 1945 não há registro de eleições brasileiras tão influenciadas por fatores externos. Naquele ano, a ditadura de Getúlio Vargas foi derrubada a partir de uma situação paradoxal: o Brasil lutava contra regimes totalitários, ao lado das democracias clássicas, sendo ele próprio uma ditadura. Tinha sido arrastado ao conflito mundial em razão de seu valor estratégico como fornecedor de matérias-primas aos aliados.

Oitenta anos depois, estamos no meio de uma guerra tarifária, de uma disputa geopolítica pelas nossas terras-raras e ainda somos atingidos por decisões como a declaração de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. As questões nos colocam no turbilhão geopolítico contemporâneo.

A consequência eleitoral é evidente. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro tentam explorar a situação a seu favor. O que complica é a oscilação americana entre a relação amena — com redução de tarifas e diálogo presidencial — e decisões duras, como o recente novo tarifaço e a classificação de facções como terroristas.

“Muitos verão a intromissão com simpatia por considerarem Lula condescendente com o crime organizado”

No mesmo caldeirão, a China assiste e espera que o desgaste das relações entre Brasília e Washington a beneficie. Mas, enquanto a China tem paciência milenar, os Estados Unidos nem tanto. A declaração de Marco Rubio, secretário de Estado americano, de que o Brasil não é país amigo coloca o nível de tensão em alerta e abre a possibilidade de novas sanções.

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Ainda que Donald Trump seja movido mais por interesses do que por ideologia, setores importantes do governo americano veem a derrota de Lula como estratégica: enfraqueceria o esquerdismo regional e puniria o que consideram leniência, ou mesmo colaboração, brasileira com os interesses chineses na região. Assim, negociar pode ser a solução, mas não é absolutamente garantido que tudo fique bem entre os dois países.

Eleitoralmente, muitos verão a intromissão americana com simpatia, por considerarem o governo Lula condescendente com o crime organizado. O tema da segurança continua sendo crítico para as eleições. Outros, no campo da esquerda, recorrerão à narrativa de que o imperialismo ianque busca nos submeter. Daí as declarações de opereta bufa de Lula acusando adversários de “vendilhões da pátria”.

O fato é que o Brasil está no centro das atenções mundiais como nunca esteve. Pelos fatores mencionados — crime organizado, tráfico de drogas, terras-raras e, sempre, a questão ambiental. Mas também pelas questões do Pix e das big techs, que incomodam o governo americano, e pelas relações com a China. Sem contar a aproximação histórica do Lula 3 com o regime dos aiatolás no Irã e com Putin na Rússia.

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Considerando que a disputa tende a ser apertada, o fator externo pode ser decisivo para um lado ou para o outro. O eleitorado pode pender contra ou a favor de um candidato à medida que as questões internacionais ganhem dimensão. Imaginemos, a título de especulação, que a questão das terras-raras se transforme — ainda que improvável — em uma espécie de “o petróleo é nosso”. Ou que se forme clamor para que as facções sejam combatidas como grupos terroristas. São dois exemplos de narrativas que estarão sendo veiculadas dentro das bolhas da polarização. Enfim, tudo pode, potencialmente, tornar-se eleitoralmente decisivo a partir dessas questões de política externa. Fato inédito na história recente do país.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998

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