A campanha de 2026 entra na fase decisiva sem favorito e com uma peculiaridade: em eleições normais, o indeciso decide pela economia ou pelo medo. O empate técnico entre Lula e Flávio apontado pela Quaest não revela apenas equilíbrio; revela paralisia. Ninguém transformou o descontentamento com a economia em adesão, e o mercado enxerga riscos fiscais semelhantes para qualquer vencedor. Juros altos, contas públicas em desordem e despesas obrigatórias que resistem a qualquer ajuste entraram no debate sem mudar o placar. Continuamos a depender de revelações e delações para escolher o presidente, o que diz mais sobre o estado do sistema político do que sobre candidatos.
A terceira via patina. Ronaldo Caiado marca 5%. Renan Santos converteu milhões de interações digitais em pouco voto. Pablo Marçal foi proibido pelo TSE de fazer campanha. Numa eleição de rejeições elevadas, o terreno parecia fértil para um intermediário, que não veio porque eleitor polarizado não abre espaço a coadjuvantes. Restam os indecisos, entre 4% e 6% — pequenos em número, decisivos numa disputa colada.
Material não falta. Do lado de Lula, três frentes tocam seu círculo mais próximo: os inquéritos contra o filho Fábio Luís por suposto tráfico de influência, o afastamento do ex-chefe de gabinete após pagamentos de lobista investigada e a intimação de Jaques Wagner no caso Master. São investigações em curso, e a presunção de inocência vale para todos. Nada disso alcança, até aqui, o presidente. Mas a história ensina que entornos comprometidos derrubam governos. Foi a crise do “mar de lama”, incrustada na guarda pessoal de Vargas, que desaguou no agosto de 1954. O Catete não caiu por culpa direta do seu ocupante; caiu porque ele não viu, ou não quis ver, o que crescia a sua volta. O paralelo deve tirar o sono do Planalto.
“A indefinição é consequência de uma disputa em que nenhum consegue se apresentar como alternativa ao outro”
Do lado de Flávio, a sombra chama-se Dark Horse: 61 milhões de reais repassados ao filme por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em maio, o candidato prometeu divulgar a prestação de contas. Em agosto, disse que não lhe cabe prestá-las. A delação de João Carlos Mansur, da Reag, com dezessete anexos concentrados em Vorcaro, pode atravessar os dois campos políticos.
Brasília virou uma “Escola de Escândalos” — não a banda punk dos anos 1980, mas o fenômeno em que cada escândalo deriva no seguinte, e a delação de hoje abre a investigação de amanhã. A de Mansur já estava nos cochichos da capital havia mais de um mês. As peripécias do PT da Bahia também circulavam à boca pequena, assim como as investidas de Lulinha. Verdade e mentira caminham com valores de face muito próximos. Às vezes, a mentira vale mais. Na “Escola de Escândalos”, não há caso isolado: há aulas em sequência com muitos alunos de fora da capital.
A conclusão é desconfortável. O indeciso de 2026 não escolherá entre o limpo e o sujo, mas entre graus de comprometimento com o mesmo sistema de poder. Todos estão respingados com a lama da política. A indefinição não é acidente: é consequência de uma disputa em que nenhum lado consegue se apresentar como alternativa ao outro. Os indecisos decidirão com base no que ainda não se revelou.
Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010







